Os olhos verdes e as feições delicadas de Ricardo Pereira o limitaram ao óbvio posto de mocinho. Foi assim em personagens que ele encarou em tramas como "Negócio da China", "Como Uma Onda" e "Aquele Beijo", entre outras. Por isso, o militante português Fabrício, de "Joia Rara", é a oportunidade de escapar do estigma e viver um tipo bronco e rústico. "É um cara com zero vaidade. É bem dentro da linha do que faço no cinema e no teatro – coisa que eu buscava na tevê há algum tempo", explica. Outro detalhe que agrada o ator é o esquema mais simples de maquiagem e caracterização do personagem. Apesar do visual barbudo o incomodar um pouco. "Chego para gravar e até minhas olheiras são mantidas. Essa naturalidade foi muito útil na composição", completa.
Há exatos dez anos, o ator lisboeta estreava inesperadamente no mercado brasileiro após um convite para um dos papéis centrais de "Como Uma Onda". Atualmente, sete novelas depois, Ricardo afirma que a chance de protagonizar a trama de Walther Negrão lhe proporcionou maior visibilidade de seu trabalho no exterior. "Eu nem sabia que era para fazer papel principal. Mas era uma das maiores emissoras do mundo e eu vim. Gerou muita mídia em Portugal o fato de um ator estrangeiro protagonizar uma novela no Brasil", lembra.

O Fabrício foge da linha de galãs românticos que você está acostumado a fazer na tevê. O que mais o atraiu em "Joia Rara"?
Isso me atraiu, sem dúvida. É um personagem totalmente diferente do que estou habituado a fazer na tevê brasileira ou portuguesa. É um papel que tem profundidade. São trabalhos que estou mais acostumado a fazer no cinema. A chance de construir um personagem diferente é muito importante. O papel de galã me persegue um pouco. Tanto aqui quanto nos trabalhos que faço na Europa. Então, chega uma hora que preciso fugir disso para não começar a me repetir. Nesse sentido, enxergo no Fabrício a chance de sair um pouco do caminho do galã, nem que seja por apenas um trabalho.

Por quê?
É a primeira vez que interpreto um sujeito que não precisa ter tanto cuidado com a imagem. Fabrício é um militante partidário com barba grande e só se preocupa com as causas políticas, as reuniões do partido. Ele demora a conseguir desviar seu foco para uma mulher, por exemplo. E, mesmo assim, as relações sentimentais estão em segundo plano.

Essas características modificaram seu processo de composição para a novela?
Completamente. O personagem tem uma ou duas roupas e não leva quase nenhuma maquiagem. As olheiras que aparecem são minhas (risos). Esse personagem desconstrói a espécie de "boneco" que a gente cria em outros trabalhos. Aquela ideia do galã perfeito e com cabelo no lugar.

O posto de galã o incomoda tanto assim?
Não. Mas é bom para mostrar que eu posso apresentar uma outra faceta na televisão. Uma nova forma de construir um personagem. São novas formas de trabalho que me levam a níveis mais altos.

Você atua bastante no cinema europeu, que tem uma estética mais rebuscada. A produção de "Joia Rara" tenta seguir essa tendência. Isso faz diferença para você?
Claro. A agilidade e a força industrial diferem bem o estúdio de uma novela do "set" de um filme. "Joia Rara" é o tipo de trabalho que se assemelha bem com os projetos que já fiz no cinema. Existe todo um "tempo", uma sensibilidade enorme e um improviso em cena que eu nunca trabalhei na tevê. É o momento para sentir a emoção das sequências. Novela é cansativo, mas, nesse caso, torna-se prazeroso. Sabe quando você é criança e tem preguiça de ir à escola? Mas, de repente, algo acontece, você fica estimulado e começa a ir todo dia? Pois é. Estou me sentindo assim (risos).

Por conta do seu contrato com a Globo, você tem suavizado seu sotaque ao longo dos anos. Como é voltar a fazer um personagem que desconstrói todas as suas aulas de fonaudiologia?
É um outro trabalho de composição. Sou português, mas estou no Brasil há 10 anos. Já fiz papéis de português e de brasileiro. Só que agora eu tenho de falar com sotaque lusitano e com palavras do português daqui. Não estamos muito preocupados com a questão do sotaque. Porém, de vez em quando, surgem algumas expressões do português de Portugal no meio das gravações. Mas elas são úteis para caracterizar o personagem e localizá-lo.

Você chega a se confundir no meio do processo?
Eu não me policio tanto. Continuo trabalhando com a Leila Mendes, fonoaudióloga que me acompanha há tempos. No meu dia a dia, tento falar português com sotaque daqui do Brasil. Às vezes, saem algumas palavras da minha origem. O que eu faço agora é não lembrar ou querer corrigir essas palavras.

Você acredita ter se livrado do rótulo do ator que sempre será chamado para interpretar estrangeiros?
Hoje em dia, tem muito ator português no Brasil. Eu não queria ser sempre o português na história. Quero acrescentar mais. Já que sou contratado da Globo, quero fazer qualquer personagem. Seja ele português, brasileiro, inglês ou francês. Quanto ator, tenho de me capacitar com essas ferramentas para depois os diretores e autores escolherem. Vou ser o que eles quiserem que eu seja.

Com passagens pela Globo e pela Record, você tem atuando constantemente no Brasil. Em qual momento percebeu que era o momento de investir nesse mercado?
Penso que "Insensato Coração" quebrou um "muro" na minha carreira e mostrou que posso ser quem eu quiser. Aqui, há uma forma de produção única de trabalho. Quando cheguei no Brasil, me surpreendi com o esquema de trabalho das novelas daqui. E depois com o lugar, o povo e seus costumes. Mas não basta ser só um apaixonado pelo país. É preciso ter trabalho e ser valorizado. Minha base é aqui. Eu monto minha agenda de trabalhos internacionais a partir daqui. Sou contratado da Globo. Tem muita coisa sendo exportada. Muitas novelas, seriados e filmes. Os trabalhos que faço aqui reverberam no mercado internacional. Recebo convites de produções, não só de Portugal, mas de outros países da Europa. Mas só aceito quando são projetos curtos e não comprometem os momentos em que estou gravando no Brasil.

Esse foco maior no mercado brasileiro causou algum estranhamento em Portugal?
Nada. As pessoas adoram em Portugal. Estou sempre presente lá para eventos, cinema ou publicidade. Quis continuar com a minha carreira lá. Quando um grande jogador de futebol vai jogar fora, o brasileiro não fica orgulhoso? É a mesma coisa. Estou na terceira emissora do mundo há 10 anos. Os portugueses têm orgulho disso. Eles acompanham a minha vida aqui.

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