Idas e vindas de um vencedor
PUBLICAÇÃO
quinta-feira, 09 de agosto de 2001
Carmen Ribeiro<BR>De Maringá 
Não foi surpresa Benito Finco ter sido escolhido o Empresário do Ano 2000, em homenagem prestada pela Associação Comercial de Maringá (Acim), em parceria com o Sivamar, Fiep e Apras. Seu presente o qualifica com todas as prerrogativas necessárias, como um respeitável empreendedor conhecido por sua capacidade e sucesso empresarial. Surpresa foi saber que este homem de 64 anos, casado, pai de seis filhos, quatro netos, com negócios em todo País no comando da Color Finco Indústria e Comércio de Equipamentos Fotográficos, uma das maiores empresas nacionais da área, foi, no passado, um agricultor falido, um morador de rua, um andarilho que viveu durante anos de favores e de trabalho em troca de um pão. Um homem que quase desistiu da vida, mas deu a volta por cima e hoje é um sereno e bem-sucedido cidadão.
Benito Finco conta sua história sem nenhum traço de vergonha, sem nenhum ranço de mágoa, ou mesmo revolta pelo que passou. Ao contrário, glorifica a Deus e sente-se privilegiado.
Em 1969, Benito Finco era um pequeno sitiante na cidade paranaense de São Tomé. Da noite para o dia perdeu tudo e um pouco mais do que tinha em razão de fortes geadas. Seu pedaço de terra não dava pra cobrir suas dívidas. Falido, separado da mulher, sem perspectivas, foi para o Paraguai buscar alternativa de sobrevivência. Sem documentos, foi perseguido pela polícia, tendo que se embrenhar na mata, onde durante sete dias sobreviveu chupando laranja e comendo o bagaço. Fugiu de uma onça e foi atacado por ladrões armados.
Em sete dias andou 300 quilômetros e chegou à cidade de Tavaí (Povo Pequeno), uma terra íngreme, parada no tempo e no espaço, com carros de boi nas ruas, onde ninguém se incomodava em saber quem ele era ou qual o número de sua identidade. Por lá ficou cinco anos, comendo em troca de serviços, morando de favor na casa de um e de outro, ou dormindo ao relento. Foram dez anos de Paraguai, andarilho, andrajo, cinco vezes preso por não ter a documentação pessoal.
Por que não voltou? O desânimo e desencanto muitas vezes falam mais alto, a falta de perspectiva, talvez a vergonha de retornar vencido o prendeu por lá. Mas como na vida nada é definitivo, seu irmão que há muito o procurava acabou descobrindo-o, na cidade de Vila Rica. Levou seus documentos e o incentivou a voltar.
Benito foi para São Paulo, onde conseguiu emprego numa microempresa de equipamentos fotográficos, mas não durou muito. Foi despedido, e com dinheiro emprestado pelo irmão seguiu para o garimpo de Guarantã do Norte, entre Mato Grosso e Pará.
Já chegando aos 40 anos, era hora de tentar se estabilizar. Mas como parece que seu destino é feito de revezes, em apenas seis meses perdeu tudo, ficando mais uma vez à deriva. Comendo o que lhe dão, seis malárias, uma infecção no pé que quase gangrena, ao relento. Eu cheguei num estado que não tinha mais o que recuperar, doente, sem dinheiro, sem absolutamente nada. Minha vida até então era um total fracasso. Decidi que morrer era a solução. Literalmente. Fiquei deitado, esperando pela morte.
Mas o destino, ou o quer que seja, dá suas voltas. Inerte, desnutrido, sem poder caminhar, sozinho, sem parentes nem amigos, eis que surge um velhinho, Um ser iluminado, que ao me ver prostrado preparou um remédio para minha perna, me alimentou, e em 10 dias, melhorei e me levantei. Aí, a primeira coisa que fiz foi embrenhar-me pela mata, onde fiquei em isolamento total durante quatro horas, conversando com Deus, me redimindo de meus pecados, agradecendo pela vida, e pedindo mais uma chance, a última. Fiz as pazes com Ele.
E não é que ao voltar aparece um senhor querendo comprar seu único bem, um motor velho, quebrado, sem utilidade? E que ainda por cima o incentivou dizendo que ele seria, um dia, um vencedor? Quem há de explicar? Com o dinheiro, comprou alguns gramas de ouro. Vendeu, comprou, vendeu, comprou, revendeu...em um mês e meio já tinha dois quilos do valioso metal. Uma fortuna pra quem pedia um prato de comida. Nesse momento, concluiu que estava na hora de voltar, pagar seu irmão e recomeçar.
Corria o ano de 1982, e como já conhecia Maringá, decidiu se estabelecer na Cidade Canção. Abriu uma fabriqueta de equipamentos para revelação de fotografias, num mercado dominado por multinacionais com preços avaliados em dólares, impossibilitando que pequenos e médios empresários pudessem comprar essas máquinas. Anteviu uma promessa de bons negócios e investiu o pouco que tinha. Nos primeiros seis meses não vendeu uma unidade sequer. E lá vamos começar tudo de novo, devendo, falindo, pronto pra entregar os pontos. Fazia a faxina da loja para fechar, quando surgiu o primeiro comprador. Um japonês que gostou da minha máquina e fez a propaganda. De boca em boca a notícia correu e em 15 dias vendi todo estoque. Produziu mais, mais e mais. A empresa cresceu, cresceu e cresceu, não parou mais. Hoje, apenas duas décadas depois, é uma potência. Benito revela que a Color Finco é a única grande empresa nessa área no País, tem 40% do mercado nacional dos Minilabs (revelação instantânea); os 60% restantes são divididos entre cinco multinacionais. Em breve inaugura uma montadora em Manaus, e já tem firmada uma parceria com a Kodak, que deverá comprar produtos nossos.
Autodidata estudou apenas até o 2º ano primário Benito tem orgulho de dizer que aprendeu tudo sozinho, que corre atrás das novidades e informações, pesquisa, sendo o responsável pela parte mecânica, enquanto que a parte eletrônica fica sob responsabilidades de seus engenheiros.
Nesta semana voa para a Itália para conhecer in loco a tecnologia da revelação fotográfica digital, para breve incorporar à sua empresa, já que foi oferecido à Collor Finco a exclusividade, com a empresa italiana cedendo as partes de equipamentos que não são fabricados no Brasil.
Ao falar na Itália de seus ancestrais, faz questão de dizer que seu avô foi, durante 12 anos, guarda do Vaticano, mas com a Segunda Guerra, veio correndo para o Brasil. Simpático, tranquilo, de paz com a vida, orgulhoso, sem empáfia, do sucesso como empresário: Sou conhecido no Brasil inteiro no ramo fotográfico.
Benito Finco doa todos os meses 150 cestas básicas para famílias carentes, não se esquece e agradecer a sua equipe de funcionários, e ensina didaticamente, que quando se chega à beira do precipício, Deus atua, só Ele é capaz.
Planos para o futuro são muitos, sabendo que o passado ficou distante, marcado a ferro e fogo, consciente que seu enfrentamento com a vida foi árduo, sofrido, quase mortal. Mas conseguiu superar e aprendeu, sabiamente, a reconhecer o valor das pequenas coisas, da família, da oração. Sabe que conseguiu o respeito de seus pares, a admiração dos amigos. Sabe que, finalmente, encontrou o caminho.
Da vida, qual a lição? Ser humilde. Convivi com presos, marginais, fui andarilho, mendigo, passei fome, desisti de viver, e revivi. Respeito todos eles, não faço distinção entre os homens. Nós, seres humanos, somos absolutamente iguais...Deus é bom, dou sempre testemunho de vida, não me envergonho de nada. Sou um homem de bem com vida e com Deus.


