A presença de Fernanda Torres na tevê brasileira é sempre a mais fugaz possível. Essa carioca de sorriso cativante e expressivos olhos pretos nunca foi de assinar contratos com mais de dois ou três meses de duração. Diz que se sente melhor trabalhando sem vínculos empregatícios. Quando aceitou fazer ‘‘Os Normais’’, por exemplo, sabia que a série não ultrapassaria dez episódios. Por isso mesmo, levou um susto ao saber que a Globo havia decidido prorrogar a temporada até o final do ano. ‘‘Nunca me liguei neste negócio de Ibope. Audiência para mim é que nem roleta-russa. Mas quando essa roleta-russa dá certo, fico felicíssima...’’, admite.
A felicidade foi tanta que Fernanda ainda não parou para pensar na renovação de contrato. Mas ela parece disposta a abrir um precedente na carreira marcada por trabalhos de curta duração, como ‘‘A Comédia da Vida Privada’’ e ‘‘A Vida ao Vivo’’. Para a atriz, o sucesso de ‘‘Os Normais’’ pode ser explicado pela facilidade do casal de roteiristas, Alexandre Machado e Fernanda Young, de se comunicar com os mais diferentes públicos. ‘‘Hoje em dia, não dá para segmentar a programação da tevê aberta. O Alexandre e a Nanda sabem como alcançar o público de A a Z’’, acredita.
Fernanda Torres sentiu a repercussão do programa já no dia seguinte à estréia. Pela manhã, notou o entusiasmo com que Valéria e Sônia, as babás do pequeno Joaquim, filho da atriz com o cineasta Andrucha Waddington, falavam do programa. À tarde, ela voltou a se surpreender com os telefonemas do irmão, o cineasta Cláudio Torres, e de uma amiga, PhD em Filosofia, que elogiaram o episódio de estréia. ‘‘O programa trata de assuntos que interessam qualquer classe social. Qualquer um já enfrentou problemas como impotência sexual ou tensão pré-menstrual’’, analisa.
Em ‘‘Os Normais’’, Fernanda empresta seu talento cômico a Vani, uma simpática vendedora de loja de roupas que vive às turras com o noivo, um sujeito igualmente simpático vivido por Luiz Fernando Guimarães. O convite para trabalhar em ‘‘Os Normais’’ partiu do próprio ator, responsável pela idealização do projeto em parceria com Alexandre Machado. Fernanda e Luiz trabalharam juntos pela primeira vez em 1995, quando integraram o espetáculo ‘‘Cinco Vezes Comédia’’. De lá para cá, voltaram a trocar risadas em ‘‘A Vida ao Vivo Show’’, ao lado também de Pedro Cardoso, Denise Fraga e Débora Bloch. ‘‘Existe algo melhor do que trabalhar com amigos? Se existe, eu não conheço...’’, brinca.
Ainda este ano, Fernanda Torres volta a dar o ar de sua graça também em novelas. O último papel da atriz em uma produção do gênero foi no remake de ‘‘Selva de Pedra’’. Antes disso, ela só fez ‘‘Brilhante’’, de Gilberto Braga, e ‘‘Eu Prometo’’, de Janete Clair. Coincidência ou não, as poucas vezes em que Fernanda permaneceu no ar por mais tempo que o desejado não trazem boas recordações. ‘‘Levei um susto quando fiz ‘Selva’. Era muito nova e fiquei perdidaça. As coisas não saíram como eu imaginava’’, recorda.
Desde então, Fernanda Torres nunca mais fez novelas. Recentemente, foi sondada pelo autor Sílvio de Abreu para atuar em ‘‘As Filhas da Mãe’’, a próxima novela das sete, mas declinou do convite por causa da turnê do espetáculo ‘‘Duas Mulheres e um Cadáver’’. Mesmo assim, telefonou para o autor e pediu a ele que escrevesse ‘‘uma participaçãozinha qualquer’’. Em pouco tempo, Sílvio retornou a ligação e avisou a ela que estava resolvido a escrever um ‘‘passado’’ para a personagem Lucinda, interpretada pela própria mãe da atriz, a veterana Fernanda Montenegro. ‘‘Só não estou mais feliz porque são apenas alguns capítulos. Mas também não dava para juntar gravação de novela com excursão de peça’’, lamenta.
Por essas e outras, Fernanda gosta de aproveitar todo e qualquer tempo livre para ficar em casa e curtir a família. Ela se diz contrária a festas, eventos e badalações. Esta é, aliás, a anormalidade menos conhecida da atriz. ‘‘Se preciso, dou meu reino para ficar em casa. Sou uma anti-sociável incorrigível’’, confessa.

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