Hip hop no sangue
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sábado, 04 de outubro de 2014
Bruna Quintanilha<br> Reportagem Local 
É de um estúdio pequeno, em sua casa no jardim San Fernando, zona leste de Londrina, que Samuel Suguiura, de 33 anos, faz seu som. Conhecido como DJ Samu, o londrinense acaba de integrar um grupo seleto de artistas convidados para participar de um projeto com a dupla Tropkillaz, composta pelos Djs Zegon e Laudz, fenômenos mundiais da música eletrônica. É de Samuel uma das cinco novas versões do single "Boa Noite", que integrará um novo EP em parceria com a Skol Music. "Eu já tinha tocado com o Zegon em São Paulo e ele me fez o convite. Para mim isso é como um prêmio. Ele é um DJ pelo qual tenho muita admiração. É um cara que me influenciou muito a usar o MPC (equipamento para DJ)", conta Samuel.
Além dele, Cesqeaux, da Holanda; JSTJR, dos Estados Unidos; Soniye, da Espanha; e a dupla Flying Buff, de São Paulo, colaboraram com o projeto com remixes. Considerado o "ninja" da MPC, Samuel usa toda a sua habilidade com o equipamento para dar cara nova às músicas. Diferencial que tem feito sucesso entre quem curte o som eletrônico. Prova disso são os mais de 900 compartilhamentos que o vídeo com a versão do hit "Boa Noite", produzida por Samuel, alcançou no Facebook.
Samuel nasceu em Londrina, mas passou parte da infância em Uraí. Aos 10 anos, assistindo a um clip na televisão conheceu o duo Kris Kross e logo se encantou com o mundo do rap e do hip hop. "Parecia um sinal. Sabe quando você escuta muita música, mas não tem muita identificação? Com eles foi diferente. Na hora que escutei os caras aquilo ali me pegou", relembra.
Anos mais tarde, quando morou no Japão, Samuel começou a desenvolver suas habilidades como DJ. "Fui bem novo para o Japão, com 14 anos, para trabalhar junto com o meu pai. Trabalhava em fábrica, umas 10, 12 horas por dia. Era um pesadelo. Mas o Japão foi fundamental para a minha carreira", valoriza. "Lá eu tive todo acesso aos toca-discos e aos vinis. Os vinis que tinham acabado de ser lançado nos Estados Unidos em uma semana chegavam no Japão. Sem falar de todos os outros equipamentos." Após comprar o primeiro toca-discos, aos 17 anos, Samuel não parou mais. "Teve uma época, lá no Japão, em que eu fiquei uns oito anos praticamente sem sair de casa. Só trabalhava e voltava para casa para ficar treinando scratch", conta.
Além de toda a bagagem profissional, Samuel trouxe do Japão muitos outros aprendizados. Em Hiroshima, cidade em que viveu por vários anos, o DJ pode confrontar as belas paisagens atuais com a história de um povo que precisou conviver com a devastação após os bombardeios da Segunda Guerra Mundial. "Foi uma experiência amarga, mas muito importante. Tudo o que eu aprendi, o que eu sou hoje é graças a esse período que passei no Japão". Para Samuel, o hip hop era uma forma de fugir dos problemas como imigrante, principalmente do isolamento. "O pessoal era meio distante, a gente ficava meio excluído e a única coisa que me libertava mesmo era o hip hop. Quando descobri isso, passei a só pensar no hip hop", conta.
Quando voltou para o Brasil, em 2007, Samuel começou a participar de concursos e a carreira como DJ deslanchou. Em 2009 foi finalista e faturou o terceiro lugar do DMC World DJ Championship Brasil e hoje recebe convites para tocar em várias cidades do País. Atualmente, além de atuar como DJ, Samuel também é produtor musical e abre as portas de sua casa e de seu estúdio para quem sonha em gravar sua própria música. "Hoje vem gente de todos os cantos. A molecada do hip hop, do reggae, vem até o pessoal do funk ostentação. Mas sempre tento colocar uma pegada minha nas produções. Além disso, tento mostrar um pouco de tudo o que eu já aprendi sobre música para esse pessoal mais novo."
Casado e pai de três filhos, Samuel acaba se tornando muito mais do que um produtor para os jovens que chegam ao seu estúdio. "A gente está gravando, mas não é só gravar. Nós trocamos uma ideia. Eles contam muita história e nós vemos o sofrimento que o pessoal passa nas comunidades e nas favelas. São muitas histórias de vida", revela. Humilde e dedicado, o DJ conta que costumava erguer lonas em várias regiões carentes da cidade para tocar e mostrar suas habilidades no MPC. "Já toquei em muitos educandários também", complementa. Apaixonado pelo que faz, o DJ comemora o crescimento do movimento hip hop em Londrina e a oportunidade de estar envolvido com a música. "A música e o hip hop são meu estilo de vida. Não consigo viver sem eles."


