"Ao contrário do que se pensa, o Brasil não é o maior rival da Argentina no futebol. Acho que os argentinos prefeririam derrotar a Inglaterra em uma final de Copa do Mundo. A Inglaterra virou rival por causa da Guerra das Malvinas. Isso pesa muito no inconsciente coletivo deles". Quem afirma é Ariel Palacios, de 48 anos, jornalista argentino criado no Brasil, que acaba de lançar "Os Hermanos e Nós", livro em que faz um paralelo entre as seleções do Brasil e da Argentina e ajuda a derrubar alguns mitos. Correspondente internacional em Buenos Aires, Palacios também é autor de "Os Argentinos".
Apesar das diferenças entre as nacionalidades, o jornalista garante que a suposta rivalidade entre argentinos e brasileiros ficou para trás. "Isso não acontece desde o final dos anos 70." Palacios explica que a maioria dos argentinos conhece e gosta do Brasil. "Eles adoram o Brasil e o consumo de música e novelas brasileiras é enorme por aqui", conta ele, que nasceu em Buenos Aires, mudou-se para o Brasil na infância e viveu em Londrina durante 14 anos.
O vasto conhecimento sobre os "hermanos", Palacios adquiriu durante os 19 anos como correspondente na Argentina. "Quando criança queria ser arqueólogo e historiador. Depois quis ser diplomata. Cheguei a fazer um ano de direito, mas desisti. Como sempre fui fascinado por história e idiomas pensei: ‘talvez se eu for correspondente consiga unir as duas coisas’ e optei pelo jornalismo." Apesar do sonho, o jornalista conta que nunca pensou que o desejo viraria realidade.
Foi durante um passeio por Buenos Aires com a então namorada e também jornalista, Miriam de Paoli, que surgiu a oportunidade de virar correspondente. "Percebi que quase não se via correspondentes brasileiros e passei a me oferecer para um monte de veículos". Pouco tempo depois, durante uma crise interna do governo argentino, Palacios assumiu o posto de correspondente do jornal O Estado de São Paulo e posteriormente da GloboNews, veículos em que permanece até hoje.
Na capital Buenos Aires, Palacios viu a família crescer — ele e a esposa, Miriam de Paoli, têm uma filha de 2 anos e meio — e a carreira se desenvolver. Como correspondente, o jornalista teve a oportunidade de presenciar vários fatos históricos de toda a América Latina. Dentre os momentos marcantes, ele destaca o terremoto que destruiu grande parte do centro sul do Chile em 2010, a tentativa de golpe de Estado no Paraguai em 1997 e a crise de 2001 e 2002 da Argentina, considerada a pior da história. "Além disso, ter entrevistado pessoas como Quino, cartunista que desenhou Mafalda, e o escritor Umberto Eco foram experiências importantes", relembra.
Adaptado aos hábitos e rotina dos argentinos, Palacios fala dos prós e contras de trabalhar em Buenos Aires. "O bom é que tudo o que acontece na Argentina acontece em Buenos Aires, ao contrário do Brasil. O lado ruim é que a Argentina se complica pela burocracia. As pessoas reclamam da burocracia no Brasil, mas isso não é nada perto da burocracia argentina. Além disso, é um contexto político-econômico bastante complexo", analisa.

Fase marcante
"Sou totalmente brasileiro!", diz Ariel Palacios quando questionado sobre ser meio argentino, meio brasileiro. O jornalista, que mudou-se para o Brasil com apenas 3 anos de idade, também é londrinense de coração. Se o sotaque não deixa dúvidas quanto ao país de origem, a conversa revela o carinho de Palacios pela cidade onde viveu dos 10 aos 24 anos. Formado pela Universidade Estadual de Londrina (UEL), Palacios conta que passou em Londrina uma das fases mais importantes da vida. "São muitas lembranças dessa época. Lembro de frequentar a piscina do Country, de fazer lanches no Pastel Mel e de visitar fazendas de amigos na região (em Cornélio e Jacarezinho)."
Segundo o jornalista, a época foi tão marcante que até mesmo o endereço e o telefone permanecem na memória. "Não me lembro de nenhum outro endereço ou telefone que tive, além do atual, só desse de Londrina. Rua Pio XII esquina com a Pernambuco", diverte-se contando. Do 13º andar onde morava, Ariel acompanhou também o desenvolvimento da cidade. "Dali vi a construção do Estádio do Café. Naquela época Londrina terminava no Lago Igapó e nos Cinco Conjuntos." Da cidade onde se criou, Ariel também leva o time do coração. "Digo que torço para o Londrina formalmente. Não sei o nome dos jogadores, mas não vejo lógica em torcer para um time de outra cidade. Não faz o menor sentido", defende.

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