Curitiba Paulo Stradiotto, 34 anos, nascido em Nova Londrina, interior do Paraná, é apaixonado por Hebe Camargo desde pequeno. ''Minha mãe diz que eu não saia da frente da televisão quando a Hebe aparecia.'' Agora o promoter de uma das boites GLS (termo utilizado para traduzir locais onde frequentam gays, lésbicas e simpatizantes) mais famosas da cidade, a Cat's, anda fazendo um sucesso danado ao se transformar num cover da apresentadora.

Stradiotto ou Paulette, como é carinhosamente chamado por todos que o conhecem (e não são poucos), é uma figura adorada e batalhadora. Seu trabalho na Cat's vai além de simplesmente ficar na porta recepcionando os clientes. É ele quem contata DJ's, coordena as drags queens e os go-go boys da casa e ainda os eventos que fazem.

Essas festas especiais, produzidíssimas, podem ser uma exposição de fotos de um fotógrafo famoso, uma campanha para arrecadar alimentos para crianças órfãs de vítimas do HIV e até um show beneficente fora de lá para evangélicos.

Mas como veio a Hebe? ''Todo ano temos um concurso aqui chamado Drag Queen of The Year. Queremos ver novas personagens surgirem. Cansa ver sempre as mesmas drags. Como nada acontecia, e eu sou apaixonado pela Hebe e a imito bem, acabei sendo convidado para eu ir de Hebe no aniversário de um amigo. Foi ótimo e virou costume todo ano eu ir ao aniversário dele de Hebe.''

Passar das festas particulares para o palco da Cat's foi rápido. O sucesso na intimidade encorajou a já nada tímida Paulette a assumir seu lado Hebe. Isso tudo aconteceu na época em que a apresentadora ficou viúva e andava falando que queria um companheiro novo (coisa que fala até hoje). Dessas declarações nasceu o show ''Hebe quer macho'', uma sátira bem-humorada das ousadas falas que a loira famosa dá na televisão.

Foi tudo uma brincadeira que deu certo. Paulette pegou fama de apresentadora, igual a sua musa inspiradora. A Hebe de Paulette é divertida e faz todos se contorcerem de rir. Trabalho de artista reconhecido pelo estilista Rogério Figueiredo, responsável por algumas produções da apresentadora do SBT, quando ele veio à Curitiba e viu o show na Cat's.

''O Rogério viu o show e adorou. Daí, quando foi fazer a prova de um vestido nela falou de mim. Ela abriu um guarda-roupa tirou o vestido vermelho bordado e mandou de presente para mim, com uma foto autografada. Maravilhoso!!'', delira. ''Eu gosto mesmo dela. Tenho uma rosa que ela me deu guardada a sete chaves''.

Não sou uma drag queen, sou a Hebe (brinca). Na verdade, Paulette é um transformista. Alguém que encontrou no trabalho a diversão e que sabe levar a vida do jeitinho que ela se apresentou a ele. Sem complicações, assume a homossexualidade e faz disso uma forma natural de ser.

A Hebe Camargo Cover é uma caricatura bem-feita da apresentadora. Impressiona vê-la. Por trás disso existe um estudo profundo da personagem. ''Procuro reproduzi-la da melhor maneira que posso. Se ela está usando um tipo de jóia, faço igual. Se ela corta o cabelo, eu corto a peruca. Sempre tem que ter unhas postiças, porque senão não é a Hebe. Ter muito strass. Agora, ela está usando tererê no cabelo e eu já coloquei na minha peruca.''

Paulette não consegue explicar o que sente ao se transformar para uma apresentação. ''Me sinto a Hebe. Não sou mais eu. É uma coisa estranha. Tem um amigo que me chamou e perguntou por que eu fico diferente. Não sei. É energia mesmo.''

E como é a relação com a sociedade conservadora, quando vocês trabalham com evangélicos, por exemplo, existe preconceito?

''Eu sempre fiz trabalhos beneficentes, desde antes de trabalhar na Cat's. Acho que a gente tem que fazer alguma coisa pelos que estão ao nosso lado. Quando surgiu a Hebe, eu já tinha um trabalho contínuo como Paulette. As pessoas sempre me ligam pedindo ajuda e eu falo: agora é assim, tenho um personagem que se chama Hebe. E eles acham maravilhoso, apóiam. Comigo não existe nada agressivo, não sofri corte e nem preconceito'', diz.

Por incrível que pareça, Paulette contou que a recusa, às vezes, vem dos próprios gays. Segundo ele, tem gente que confunde as histórias, achando que o personagem Hebe vai surgir sem ser chamado.

Antagonismos de uma sociedade curitibana que já não é tão conservadora assim. Paulette se disse surpreso durante a Parada Gay em Curitiba, há duas semanas. Ele, em cima de um carro alegórico, avistava famílias inteiras assistindo o desfile. ''Fiquei superemocionado. Olhava do palco e só via famílias. A população gay estava também, alguns escondidos. Eu entendo isso também. Nem todo mundo pode pôr a cara à tapa. Eu, como Paulo, tenho respeito por essas pessoas, só não aceito aquelas que não querem se abrir e discriminam quem faz'', declara.

Durante a parada, Paulette notou também um nível de consciência maior com a questão. Havia um ar de classe. Nada de nudismo. De histeria. A comunidade gay curitibana não quer aparecer desvairada (como algumas televisões enfatizaram em suas transmissões, fato que deixou Paulette indignada). Não é assim. Existe gente séria, como Paulo Stradiotto, que faz um belo trabalho tanto de dia, quando administra uma casa noturna, responsavelmente, quanto de noite, quando torna a vida de quem procura diversão mais alegre. ''Quando falam que os curitibanos são preconceituosos, fico com o pé atrás. Acho que existe mais preconceito com quem não tem dinheiro do que com gay.''

''Não vejo em outros lugares uma mistura entre heteros e homos como aqui em Curitiba. Eu encaro a minha homossexualidade como uma coisa boa e estou aqui para ser do bem'', declara.

Neste final de semana, Paulo tem um casamento para ir. Vai vestir um bom terno, uma gravata, nada de perucas ou qualquer alusão ao mundo gay. ''Ali não é lugar disso. As pessoas não estão interessadas em ver uma drag entrando. Elas estão indo para um casamento. É tudo uma questão de atitude e comportamento. Temos que ser maleáveis. Sabendo quem somos e onde estamos.''

A atitude de assumir sua sexualidade cedo e de trabalhar sempre para seu sustento, garante o completo apoio da família. ''Sou totalmente respeitado. Vivo do meu trabalho e, para mim, é um trabalho digno.''

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