Quem passa pela Avenida Rio de Janeiro, no Centro de Londrina, pode observar dois grafites que representam mulheres negras, pintados em pedaços de paredes do Bosque. Não é difícil se encantar com os traços realistas e muita gente
questiona quem seria o autor. O responsável pelas obras é o grafiteiro e tatuador Tadeu Roberto Fernandes de Lima Junior, mais conhecido como Carão, que nos últimos dias se viu no centro da polêmica envolvendo a pintura de Ayrton Senna no muro de um estacionamento na região central. O estabelecimento foi autuado pela Companhia Municipal de Transito e Urbanização (CMTU) devido à Lei Cidade Limpa.

Nascido em Londrina, no Conjunto João Paz, zona norte, Carão desenha desde criança. Cursou apenas até a antiga quinta série do ensino fundamental e é autodidata no desenho. "Eu podia ter estudado mais, mas saí para trabalhar e não voltei. Não foi culpa só dos meus pais por não terem dado um empurrão, mas poderia ter me formado daquele jeito, mal preparado, só que eu optei por fazer outro tipo de coisa, trabalhar com arte."

O grafite veio em 2000, depois de um workshop com um grafiteiro de Diadema (SP). "Eu já pichava muro na zona norte. Participava de alguns grupos e o jeito de fazer parte era esse. A diferença era que a gente ficava no bairro, era difícil sair dos Cinco Conjuntos", conta.

Depois do curso, Carão conta que começou a pintar na rua, sempre na zona norte. De lá, seus desenhos e cores se espalharam por toda a cidade, alcançando outros lugares, inclusive fora do Brasil. "Já pintei nas grandes cidades do Paraná, como Curitiba, Maringá e Ponta Grossa, além do Rio de Janeiro e São Paulo. Também fiz trabalhos na Europa, na época em que morei em Paris."

Trabalhando como tatuador durante a semana, Carão coloca o grafite como um hobby, embora tenha feito trabalhos comerciais. Entre os clientes estão uma operadora de celular, redes de cinema em Londrina e o Cirque du Soleil. Não falta também quem queira um grafite para colorir o muro de casa, trabalho que é cobrado caso fique restrito aos moradores. "Grafite é rua, minha assinatura é estilizada, não coloco telefone porque faço pela arte, não pela propaganda", destaca.

Entre os trabalhos preferidos estão os dois desenhos feitos no Bosque, a homenagem a Ayrton Senna e o do Centro Cultural Lupércio Luppi, na zona norte. Ele explica que os desenhos sempre lembram pessoas conhecidas e muitos têm motivação social.

"A imagem da senhora (no Bosque) foi feita no Dia da Consciência Negra. É a oportunidade de eu estar explanando alguma coisa sobre esse dia, até por eu ser negro. O outro (desenho) é sobre a violência contra a mulher. Tem alguns que ainda quero fazer, como sobre o câncer de mama, o Dia Internacional da Mulher. Vejo que a galera apoia muito o grafite que eu faço, a pessoa tira foto, coloca no Facebook. Comecei a pensar em mandar mensagem através do grafite. Ele é feito para o povo, então, toma conta, tira foto, faz o que quiser. Não estragando, pode fazer o que quiser", diz.

Carão conta que nem sempre pede autorização antes de grafitar nos espaços públicos. No caso dos desenhos do Bosque, ele usou as paredes que estavam desgastadas pelo tempo e as coloriu com suas obras. "Se a parede está detonada, está ociosa, vou me apoderar mesmo. Mas tenho consciência do que posso e não posso. Jamais vou pintar na Concha Acústica, na parede do (Teatro) Zaqueu (de Melo), mas nesses espaços ociosos vou fazer a intervenção sim. Até porque sei que a Secretaria de Cultura sempre apoia. Nunca tive problema nesse sentido, até mesmo com Polícia Militar ou com a Guarda Municipal", pontua.

Nos espaços particulares, a autorização do proprietário é fundamental. "O limite entre vandalismo e grafite é bem curto. Posso fazer o melhor painel, gastar tempo e material, mas se não tiver liberação, é vandalismo."

Vandalismo, aliás, é como ele diz considerar a pichação, embora algumas tenham estética. "Do mesmo jeito que tem gente que não gosta de grafite, que acha ofensivo. É bem curta a linha entre arte e vandalismo. Mas pichador não passa mensagem, ninguém entende o que está escrito. Já disse para um deles que veio com esse argumento que se ele está revoltado com o sistema, que saia candidato. Se eu achar que é um cara legal, vou votar nele e vou cobrar depois", destaca.

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