Globe-trotter da moda
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de setembro de 2006
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Paris- Segundo a Vogue Uomo, edição masculina da revista italiana, o estilista brasileiro Osvaldo Costa é um globe-trotter da moda e um exemplo claro de uma homem elegante, um autêntico brasileiro parisiense. Conhecendo mais a fundo esse paulistano, radicado em Paris desde 1997, percebe-se que além de um talentoso estilista e produtor de estilo, Osvaldo Costa é simples na medida certa, fino o suficiente para já ter trabalhado com grandes nomes da moda como Martin Margiela, Stella McCartney, Martine Sitbon, Paco Rabanne, Heidi Slimane e Karl Lagerfeld, entre outros, sem se deslumbrar, e pé no chão para saber que tudo isso é apenas aprendizado num mundo cheio de egos e desafios.
Ao encontrar com ele para a entrevista no café do sexto andar do Centro Georges Pompidou, um dos cartões-postais culturais de Paris, a elegância internacional de Costa fica clara. Somos gentilmente recebidos por um dos donos do lugar que, minutos mais tarde, apos termos sidos servidos com uma deliciosa batida de frutas, manda a garçonete dizer que o drinque é uma cortesia da casa. Coisa rara em Paris, justamente num lugar onde o presidente da Federação Francesa de Moda, Didier Grumbach, acaba de entrar para um almoço de negócios. Sinal de que Osvaldo Costa é bem conceituado na cidade.
''Aprendi muito com conselhos que recebi. Um deles foi escolher bem as minhas companhias e ser discreto. Esse primeiro ensinamento foi colhido, ainda em São Paulo, de uma das diretoras da Escola Pan-Americana de Artes, onde comecei os estudos.
Esse profissional brasileiro de 35 anos, que transita facilmente em espaços restritos da moda francesa com uma equipe de marketing da grandiosa grife Hermés, onde acaba de dar uma consultoria, e recebe pessoalmente telefonemas de poderosas editoras de revistas francesas como a Glamour ou a Marie Claire, na qual foi o primeiro homem a trabalhar como assistente de Mako Yamazaki (diretora artística), tem traçado com elegância uma história começada há bastante tempo.
Filho de um elegante casal que vivia em uma glamourosa São Paulo na década de 70, Costa viu na mãe (sempre elas a inspirarem seus filhos a criarem) o exemplo máximo de refinamento. ''Minha mãe, Laura Costa, tinha roupas incríveis de Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy, Ungaro, conta. Laura era amiga de Nice Braga, primeira mulher de Roberto Carlos, e as duas davam grandes festas juntas. Durante esse período, Osvaldo participava das reuniões junto com Luciana Braga, filha do rei que hoje também trabalha com moda. ''Somos amigos de infância mesmo'', brinca ao fazer menção a um hábito que existe no meio da moda de quando se conhece alguém famoso já se considerar ''amigo de infância''.
Bem, se os dois quando pequenos brincavam de produtores de moda, a coisa virou séria. Costa tem uma formação profissional e intelectual sólida. Estudou no Instituto Rio Branco, Escola Pan-Americana de Artes e começou a trabalhar com Reinaldo Lourenço, conceituado estilista brasileiro. Os primeiros trabalhos foram como vendedor. Nesse ínterim, um baque: aos 18 anos, o pai, um militar de alta patente, o levou para prestar serviço militar na Academia de Agulhas Negras. Rapidamente, Costa descobriu que queria aprender a estudar japonês e lá foi ele para uma temporada de dois anos. Estudou na Bunkka Fashion Scholl e na Universidade Sophie. Em uma aprendeu uma arte milenar - a de fazer kimonos -, na outra justificou a viagem e a fuga de Agulhas Negras, aprendendo a falar japonês, um dos seis idiomas que domina.
Na volta para o Brasil, Reinaldo Lourenço o indicou para trabalhar com uma das mais experientes editoras de moda brasileira, Regina Guerreiro, na época, editora da Elle brasileira. Com ela, aprendeu muito durante os três anos em que ficou ao seu lado. Foi aí que veio o pulo para Paris para realizar o sonho de sua vida. ''Sempre quis estudar no Estúdio Berçot, era um sonho''. De passagem por São Paulo, Marie Rucki, diretora da entidade que no nome 'berço' já diz tudo, conheceu o jovem através de Regina Guerreiro. Uma carona no aeroporto e pronto: o convite para estudar em uma das escolas de moda mais famosas do mundo entre jovens criadores. Sobre a experiência com Regina, uma declaração: ''Foi maravilhoso trabalhar com ela. Uma escola, uma universidade. Tinha liberdade para trabalhar na revista e consegui desenvolver muito meu lado criativo''.
Chegando em Paris com pouco dinheiro e o apoio dos pais, Costa teve que se virar. Trabalhou para continuar aqui. Ficou na escola durante quatro anos. Durante esse tempo foi assistente de criação, stylist, vendedor, enfim, diversificou. ''Quis fazer um círculo para ver o que realmente queria''. E viu. Depois de trabalhar com Yamazaki, na revista Marie Claire, e ter feito diversas viagens pelo mundo como seu assistente, foi mandado embora com uma mensagem: ''você tem que criar''. A mestra, considerada madrinha, estava certa. Seu talento vale não somente para produzir editoriais de moda ao lado de Karl Lagerfeld, com quem fez uma capa para a Marie Claire, ou para uma capa de Vogue Brasil, ou ainda um editorial em Petrópolis (também para a Vogue Brasil) com a amiga princesa Paola de Orleans e Bragança, mas para produzir coisas próprias.
Foi ele quem fez um a um os 40 aventais usados no bar brasileiro da londrinense Rosane Mazzer, o Favela Chic. Seus ''tabliers'', como são chamados em francês, chamaram a atenção do artista Miqué Marcelo, apontado como o novo Picasso. ''Quando ele viu meu trabalho quis me conhecer e encomendou um para ele usar em seu atelier''.
O trabalho de Costa realmente é um de globbe trotter. É ele quem produz os integrantes da banda de rock francesa Placebo. Tanto nos vídeoclipes como nos concertos, os músicos só vestem o que ele determina.
Com tantos contatos e tantas perspectivas, Costa continua no seu ritmo de não deslumbramento. Atualmente faz parte do estúdio de criação de Teresa Santos, estilista brasileira, dona da grife Patachou, que vende na Europa com grife homônima e vive atendendo o telefone de gente como Gloria Coelho que, vez ou outra, pede um help nos estudos que faz para suas coleções.
Fora isso pensa como o botton da estilista Anne Demelemester que atualmente não tira da lapela - ''What remains is future - O que resta é o futuro''
Entrelinhas
- Os melhores estilistas de todos os tempos? Jean Patou, Paul Poiret, Madeilene Vionnet, Coco Chanel, Yves Saint Laurent, Hubert de Givenchy.
- Os melhores da atualidade? Rei Kawakubo (Comme des garçons), Jean Paul Gaultier, Miuccia Prada, Martin Margiela, Junya Watanabe, Yoji Yamamoto.
- O que é cafona? Tudo o que é artificial.
- Chique? Simplicidade.
- Sobre Paris: Você tem que absorver Paris, senão ela te engole.
- Sobre a moda: Quando ela está nas lojas não é mais moda
- Dica: Seja simples em todos os sentidos e intemporal. Simplicidade e realismo são princípios básicos


