Glamouroso paladar
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sábado, 03 de setembro de 2011
Elaine Souza <br> Reportagem Local 
A estrela da noite era Cauby Peixoto, que se apresentava em um badalado restaurante no interior de São Paulo, mas quando Manoel Beato - na época um jovem garçom - apareceu, desenvolto e equilibrando uma bandeja, roubou a cena.
Cauby, que saiu pelo salão distribuindo o microfone para quem quissesse soltar a voz, passou o aparelho para o garçom. A cena marcaria para sempre a vida de Beato.
Em uma troca de funções, Manoel, afinadíssimo, saiu cantando, enquanto Cauby, com a bandeja, servindo os clientes. Era 1984 e Beato tinha apenas 20 anos. Foi nesse restaurante que esse paulista de Vera Cruz descobriu o amor por uma profissão que o colocaria entre os melhores do País.
Tranquilo e dono de um conhecimento singular sobre vinhos, trabalhou como sommelier no Maksoud Plaza. Passou pelo Saint Germain, onde apurou sua percepção de sabores e rótulos e recebeu um valioso conselho para seguir para a Europa aprofundar seus conhecimentos.
Buscou aprimoramento trabalhando em Portugal e, em seguida, na França, em uma colheita de uvas na Borgonha. De volta ao Brasil, aumentou sua porção sommelier no Le Bistingo, onde conciliou a arte gastronomia e enologia.
''Sou extremamente apaixonado pelo que faço. Mas vejo que hoje essa profissão no Brasil é complicada. Existem cada vez mais sommeliers, mas que não se dedicam como deveriam se dedicar. Muitos trabalham em importadoras de vinho. Existe o domínio da venda do vinho mais do que servir o vinho. É uma pena! Muitos são formados em associações, mas sem experiência, sem se apronfundar. Não são tantos os bons sommeliers hoje no País, poucos vão para frente. Os restaurantes também não dão apoio, exigem uma pessoa especializada mas não pagam por isso. Sabendo o básico tem muita gente no mercado. Há também muitos profissionais que não querem trabalhar à noite, de fim de semana e feriado, e essa profissão exige isso'', explicou ele para a reportagem da FOLHA, em recente passagem por Londrina.
Experimentando em torno de 20 mil amostras de vinho por ano, alguns cuja garrafa chega a custar 30 mil euros, Manoel explica que para apreciar o sabor e entender a bebida dos sentidos não basta apenas sacar a rolha, não trata-se de algo tão simples assim. E confirma: nem todo vinho bom é caro.
''Para saber o que está tomando é preciso seguir a literatura e, a partir daí, começar a saber sobre as marcas. Conhecer previamente e saber que tal produtor é de determinadas marcas e decorrar isso. Provar, claro, é fundamental. Buscar a diversidade de países, uvas, safras. Fora isso, provar com mais pessoas para trocar impressões. Com isso você aprende muito. Conversar sobre vinho é importante. Quanto a preço, essa é uma história bastante discutível. Nem todo vinho bom é caro e nem todo vinho caro é bom. Porém, a maior parte dos vinhos caros têm um porquê de serem caros. Os vinhos excepcionais, em geral, são caros, infelizmente''.
Há 19 anos no grupo Fasano, Beato, no alto dos seus 47 anos é autor do livro 'Guia de Vinhos Larousse', um best seller que vendeu mais de 80 mil exemplares. Além disso comanda o programa 'Adega Musical' na rádio Eldorado FM, que mistura vinho e música. Nas horas que lhe sobram, ele roda o Brasil ministrando palestras sobre o ato de beber, decifrar e definir essa bebida tão mágica.
''O vinho no Brasil é algo que vem crescendo qualitativamente. Tenho feito algumas degustações às cegas misturando vinhos brasileiros, italianos e franceses. Os brasileiros vêm se saindo muito bem, quando não, melhores que os outros. O que acontece no Brasil é o seguinte: temos potencial para fazer bons vinhos, mas a maior parte não faz. Tem muita gente fazendo vinhos ruins e pegando carona nos que são bons. A maioria, infelizmente, é porcaria. Mas se existem 10 vinhos bons, é porque há a possibilidade de se fazer um bom vinho'', disse.
Profissionais do vinho
Sommelier trabalha com o serviço de vinho. É encarregado de conhecer vinhos e assuntos relacionados ao produto, podendo cuidar da compra e armazenamento, além de elaborar cartas de vinhos em restaurantes;
Segundo a Associação Brasileira de Sommeliers, cerca de 200 profissionais somente estão cadastrados e regularizados no Brasil para executar a função;
A profissão foi regulamentada no último dia 6 de julho;
Entre elas, nos últimos cinco anos, houve um aumento de 250% na procura feminina pelo curso de formação dessa atividade;
Os vinhos chinelos são os mais consumidos no Brasil;
Recentes pesquisas feitas no Brasil mostram que o vinho está em segundo lugar, com 25%, na preferência de bebidas alcoólicas do brasileiro. Perde para a bebida fermentada, que tem 61%.
Fonte: Diageo e Senad (Secretaria Nacional Antidrogas)


