Você já deve ter lido uma ou outra frase engraçada no ''momentos de histeria'' do Folhateen (suplemento da Folha de São Paulo). Ou se deparado, na livraria, com títulos esquisitos (Guia da Mulher Superior, Almanaque para Garotas Calientes, Manual para Moças em Fúria). Enquanto zapeava a TV, talvez tenha visto três garotas (normais até demais para os padrões televisivos) conversando sobre problemas femininos banais no quadro Telefone sem Fio, do programa Armazém 41, da GNT. Quem sabe até já navegou no site delas (www.02neuronio.com.br)
De qualquer maneira, se você é do tipo que gosta de se divertir com textos inteligentes, irônicos e que satirizam a vida das mulheres modernas (especificamente as dores e delícias vividas pelas solteiras de 30 e poucos anos), certamente já virou fã de Antonina Lemos, Giovana Hallack e Raquel Affonso ou, simplesmente, Nina, Jô e Raq, as cabeças pensantes do ''02 Neurônio''.
Jornalistas por formação e vocação, elas se dividem entre os projetos do grupo e os trabalhos individuais. Nina escreve para a revista TPM, Jô é editora de cultura do jornal carioca ''O Globo'' e Raq é diretora de alguns programas da MTV. Amigas inseparáveis desde a faculdade, nada escapa das farpas bem-humoradas que elas soltam ao falar sobre a eterna guerra dos sexos ou sobre a tara feminina por liquidações.
É delas a autoria de termos hoje usados pela mulherada descolada, como ''pretê'' (abreviatura de pretendente) e ''fashion descontrol'', cujo significado elas mesmas explicam a seguir. O papo com a Folha Gente aconteceu durante a São Paulo Fashion Week, onde duas integrantes dessa trindade feminina batiam ponto diariamente. Ao saber que se tratava de um jornal londrinense, Nina mandou saudações a amigos skatistas e disparou, sem rodeios: ''Sei que em Londrina tem rapazes muito bonitos e uma mega galera do rock. Ouvi dizer que é o paraíso dos pretês''. Foi nesse clima descontraído, entre um desfile e outro, que rolou a seguinte entrevista:


Folha Como vocês se conheceram?
Jô Eu e a Nina nos conhecemos em 1988, na faculdade de jornalismo, no Rio. Depois fiquei amiga da Raq, que tinha uma banda, era a rainha do rock, e apresentei pra Nina. Viemos a trabalho para São Paulo e tivemos a idéia de fazer um fanzine.

Folha Já era o início do ''02 Neurônio''?
Nina Era só pra gente se divertir, não era nenhum plano profissional.
Jô Começou com a idéia de fazer listas, coisas que a gente odiava, por exemplo.

Folha Por que ''02 neurônio''?
Jô É uma piada da mulher burra que só tem 2 neurônios. O zero na frente era pra ficar mais bonitinho no papel...

Folha Vocês têm essa ligação com moda porque curtem o assunto?
Nina Toda mulher ama comprar roupa e acompanha moda, a verdade é essa. Mas tem muita coisa na moda que a gente odeia profundamente, porque temos raízes punks. Gostamos mesmo de bazares porque não temos dinheiro para comprar Herchcovitch na temporada.

Folha De onde surgiu o termo fashion descontrol?
Nina De um amigo nosso, o Guto Barra, que é de Curitiba e hoje mora em Nova York. Ele tinha uma banda nos anos 90 e fez um show chamado fashion descontrol, que era ridículo, tinha cinco figurinos para cada música eles trocavam de roupa. E aí a gente roubou o nome com o consentimento dele.

Folha E o que é exatamente fashion descontrol para vocês?
Nina Se você está fashion, já está descontrol. Se sai para fazer compras, você não está no seu estado normal, está alterada por alguma razão. Ou aconteceu alguma coisa ruim ou alguma coisa boa. Você nunca faz compras candidamente, tipo: ''ah, eu tô tão calma hoje, tão serena, eu vou sair para fazer compras''...

Folha O que é fashion descontrol na São Paulo Fashion Week?
Jô Isso aqui é um surto de loucura coletiva...
Nina Só os fotógrafos são normais... o resto é um horror, é um planeta com outras leis com as quais a gente não concorda muito.

Folha Quais?
Nina O que faz alguém ser hype? Por que uma pessoa senta na primeira fila? Por que as assessoras de imprensa acham que podem tratar mal jornalistas? Porque atrasar tanto um desfile por causa de uma gravação de novela?
Jô Vai ter desfile de Gisele, aí você vai, é esmagada na porta, todo mundo histérico para entrar, isso não é muito saudável... Daí você vê o desfile com uma mulher incrível, mais magra, mais rica. Entendeu? É um tipo de masoquismo coletivo.

Folha Quais são as coisas legais da Fashion Week?
Jô A gente adora o Sommer, o Ronaldo Fraga, o Alexandre Herchcovitch.
Nina A Costanza (Pascolato). Por incrível que pareça, ela é nossa fã. Na próxima temporada, vamos fazer uma camiseta com a frase ''Você não gosta de mim, mas a Costanza gosta''.

Folha Vocês se reúnem para escrever?
Jô Sempre estamos juntas. Quando eu estou no Rio, a gente fica no messenger e no telefone, qualquer meio de comunicação, telepatia, etc... A gente é meio telepática. As pautas vêm da nossa vida, do que está rolando, dos nossos problemas...

Folha O ''02 Neurônio'' é um um espelho da mulher de 30 e poucos anos, solteira, em crise... Vocês acham que as mães de vocês eram mais felizes?
Jô Acho que tem o bom e o ruim de cada época. A gente poderia ter menos problemas de outro jeito, mas somos apegadas ao nosso estilo de vida.
Nina A gente prefere ter problemas, mas com o bônus de ter uma vida incrível em alguns momentos. Essa é toda a temática do nosso último livro: como fazer 30 anos e não virar careta. O problema pode ser: meu marido ronca. Isso é um problema válido, que eu até já tive, é horrível, mas hoje em dia eu prefiro ter problemas do tipo: 'Aquela bicha voltou a me procurar; o que ele quer comigo se é gay?' Estes problemas, no mínimo, rendem histórias melhores.

Folha Os textos do último livro que vocês lançaram, ''Manual para Moças em Fúria'', são inéditos ou uma compilação do site?
Nina 20% das colunas da internet e 80% inéditos. Acho que este livro é o que mais gostamos porque a gente estava numa megacilada. Por acaso, nesse meio tempo, o mundo foi invadido pela Bridget Jones, por Sex and the City e virou uma megaindústria das mulheres solteiras que, na verdade, a gente acha um saco. A gente adora Sex and the City, óbvio, mas essa indústria, ficar glamourizando o assunto, já deu, sabe?

Folha A ''fórmula'' está desgastada?
Nina Mulher solteira falando de homem é uma coisa que já cansou. E era o nosso métier. A gente não quer ser hipócrita, ficar falando as mesmas coisas porque vai vender. Então, a gente conseguiu uma saída, nem sei se vai vender bem, mas foi uma saída sincera pra gente, que foi falar sobre o que nós estávamos sentindo. Tem um texto da Jô que é sobre a mulher desiludida, onde ela diz: ''Você acha que a vida de solteira é incrível? Larga o seu marido que a gente vai ficar com ele''. Por que é um saco, tem mulher casada que diz: ''A vida de vocês é tão engraçada, né? Vocês são tão divertidas!''. Nada disso, é só a vida, como a de todo mundo.

Folha Como está sendo a repercussão do programa na GNT? Vocês estão gostando de atuar?
Jô Não somos atrizes, somos patéticas...
Nina A gente começou a ser reconhecida na rua... É muito surreal estar dentro de um cenário, às vezes vem o superego e cai a ficha: ''O que eu estou fazendo aqui? Que ridículo''. Porque é tipo um teatrinho. Eu e a Jô nos conhecemos há 15 anos, não dá pra se levar a sério. É muito engraçado, a gente ainda tem muito ataque de riso.

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