Paris- Poucas pessoas no ramo da fotografia têm a sensação de ter conseguido quase tudo na profissão como o carioca João Carlos de Medeiros tem. Uma vida cheia de encontros, dos bons, o fizeram um dos poucos fotógrafos brasileiros a traçar carreira internacional sem nenhum empurrão do mercado brasileiro. Desse jeito mesmo, ele foi o único brasileiro a fazer capa da então bíblia da moda na época (e que continua para muitos a ser até hoje), a revista Vogue, e mais tarde a revista de moda mais vendida na França, Femme Actuelle (mais de 1,5 milhão de cópias vendidas em 86).
Histórias como a dele mostram que o talento independe de nacionalidade e que quem realmente trabalha com seriedade consegue um lugar onde quer que esteja. João Carlos saiu do Brasil numa época difícil. Era 1968 e as coisas não estavam nada boas nem na política e muito menos no astral de gente que, como, ele, tinha uma mentalidade progressista. Mal sabia ele que jamais regressaria, a não ser para fazer alguns trabalhos e passear.
Sendo assim, dentro do famoso lema ''Brasil Ame-o ou Deixo-o'', João Carlos resolveu deixar. Veio para a Europa com a vontade de fazer suas fotografias, de trabalhar e de não ter que retornar com fracassos financeiros. Na chegada de uma longa viagem de navio (foram 14 dias) uma pausa para conhecer belas cidades e se familiarizar com a língua. Napole, Toscana, Portofino. Depois a chegada em Milão. Sem conhecer ninguém, logo foi se enturmando e participando da efervescência de um tempo em que a fotografia moderna começava a se estruturar.
Foi num jantar entre amigos que conheceu um dos principais fotógrafos da cidade e, durante um papo, mostrou seu interesse pelo trabalho. ''Gostava de fotografar, mas para mim. Quando conheci o Burkhard recebi o convite para ser seu assistente. Mas ele deixou claro que não me pagaria. Ninguém pagava assistente naquele tempo''. E foi assim que João Carlos aprendeu técnicas de luz, enquadramento e todos os truques que mais tarde o levariam a entrar para o ramo da publicidade e da moda como um profissional respeitado. Durante três anos trabalhou com o primeiro mestre. Morava ali mesmo no estúdio e, com o tempo, faria mais amigos e acabaria abrindo seu próprio estúdio no prédio ao lado.
Desses primeiros tempos, João Carlos aprendeu que para se dar bem por aqui teria que ser o mais profissional possível. Por isso mesmo foi desenvolvendo um faro forte não só para pegar os melhores ângulos dos produtos ou modelos, mas também para organizar seus trabalhos. Em todas as coisas que fazia cuidava dos detalhes para que nada desse errado, ou seja, nunca deu ''sorte ao azar'' como se diz na linguagem popular. Ao contar sua trajetória, ele diz que conheceu muita gente importante, mas não gosta de citar os nomes dos inúmeros amigos famosos que fez durante suas andanças por meio do glamour que une até hoje a moda, as artes e os esportes como a Fórmula 1 (pela qual ele tem profundo interesse). Fittipaldi, Alain Prost e, é claro, Airton Senna foram alguns das celebridades a que teve acesso, mas isso não são coisas que lhe interessem contar, o que ele gosta mesmo é de falar da fotografia.
Depois que entrou no mercado, João Carlos vivenciou muito. Viagens para Ásia, Índia e África. Fotos de todos os tipos desde as naturezas-mortas até para clientes potentes como o grupo Palmolive e Pirelli. O primeiro lhe garantiu um prêmio no ramo da publicidade por uma foto feita para um creme de barbear. Coisas simples mas que, para quem conhece fotografia, podem ser justamente as mais difíceis de fazer.
Sobre as viagens, várias passagens engraçadas. Como a temporada na África em meio a animais ferozes e imprevistos como o amassamento de roupas de linho que tinham sido levadas para ser fotografadas. Ao ver as peças, João Carlos se recusou a fazer o trabalho para a revista americana Harpers Bazaar. ''Eu não quis fotografar ao ver o estado que as roupas estavam''. Sem medo de perder futuros trabalhos, o fotógrafo agiu de acordo com sua conduta de sempre tentar fazer ''o melhor possível''.
Anos mais tarde, ele viria para Paris. Aqui abriu seu estúdio e continuou a fazer grandes trabalhos. Sempre com a característica de ser extremamente cuidadoso e de não ter medo de ir atrás daquilo que queria. ''Acho que você só pode dizer que alguém é melhor ou pior do que os outros se todos estiverem no mesmo nível, trabalhando nas mesmas condições''.
E com essa mentalidade acabou conquistando um espaço que muita gente não consegue, muitas vezes por não ter a coragem de enfrentar as feras do mercado. Decidido a trabalhar com o que havia de melhor no métier parisiense, João Carlos produziu e fotografou sua namorada/modelo e foi até a redação da revista Vogue levar suas imagens. Resultado? Suas fotos lhe renderam bons trabalhos e a modelo chamou a atenção do agente de Helmut Newton, um dos maiores nomes da história da fotografia. Hoje, quem vai a Berlim pode ver a modelo Sirkku no museu que leva o nome do gênio alemão da fotografia que influenciou e influencia ainda muita gente que quer fazer uma boa carreira na arte de eternizar imagens.
No campo da fotografia, João Carlos foi ainda mais além. Fez cinema e chegou a fotografar para o longa-metragem Jesuite Joe, de Hugo Pratt, criador do personagem mítico das histórias em quadrinhos para adultos, Corto Maltese.
Essa mão que João Carlos acabou dando à modelo acabou por ser uma frequente em sua vida. Assim como ele alavancou carreiras, teve quem entrasse no seu caminho para lhe devolver gentilezas feitas sem nenhuma intenção. ''Minha vida é marcada por coincidências e encontros. Sempre ajudei quem achei que precisava e que, sobretudo, tinha vontade de evoluir nos seus projetos''.
A lei do retorno sempre valeu para ele e por agir assim caiu nas graças do então poderoso diretor artístico da Vogue francesa entre o período de 1974 a 1988, Paul Wagner. ''Ele viu minhas fotos e me chamou para trabalhar''. Essa época foi considerada por muitos um período de ouro da publicação por ser de absoluta responsabilidade dos fotógrafos o resultado da imagem. Um tempo onde os recursos digitais ainda não estavam lado a lado a comprometer a verdadeira reputação dos fotógrafos. Hoje é muito difícil saber onde termina o talento e onde o começa o retoque dos computadores. Mas João Carlos de Medeiros não se preocupa com isso. Adaptado às evoluções naturais do seu trabalho, ele fechou seu grande estúdio em Paris, no bairro de Montmartre, há dois anos, para entrar também num novo processo de trabalho. ''Agora quero fotografar somente o que me der muito prazer, sem o corre-corre de desfiles ou de sets de filmagens. Fazer fotos que me transmitam algo''.

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