Foco cinematográfico
PUBLICAÇÃO
domingo, 25 de dezembro de 2011
Mariana Trigo <br> <br> TV Press 
A paixão pelo cinema, despertada ainda na infância, fez com que Alexandre Avancini seguisse a carreira do pai, o falecido diretor Walter Avancini. Como cresceu observando o mundo com a subjetividade de quem percebe as imagens com uma espécie de enquadramento cênico, acabou se apaixonando e se dedicando à televisão desde muito cedo. Diretor de ''Vidas em Jogo'', na Record, onde estreou com a produção ''Prova de Amor'', em 2005, após 22 anos na Globo, este paulistano de 46 anos iniciou na tevê como operador de VT em 1984. Com o tempo, passou a editor, depois a assistente de direção e só começou a dirigir em 1994, na novela ''Quatro por Quatro'', de Carlos Lombardi - com quem desenvolveu uma longa parceria e começou a se interessar pelas eletrizantes cenas de ação na tevê. Prova disso são as tomadas cada vez mais ágeis da fase mais policial de ''Vidas em Jogo'', seu primeiro trabalho com a autora Cristianne Fridman na Record. ''Conversamos o tempo todo sobre cada detalhe da trama. Sou o tipo de diretor que pergunta ao autor se pode mudar qualquer linha no texto. A novela é um trem com muitos vagões e essa parceria é fundamental'', ressalta.
Você sempre se destacou pelas cenas de ação. Começou a gostar desse gênero com sua longa parceria com o autor Carlos Lombardi, na Globo, que investia em produções com aventuras?
Sempre gostei mais de fazer externas porque nelas você pode exercitar uma linguagem cinematográfica. Usamos apenas uma câmara e é um exercício mais próximo do cinema. A mecânica da tevê, em estúdio, não permite muito isso porque gravamos 20 cenas por dia, com quatro câmaras simultâneas, enquanto no cinema se faz três cenas por dia, no máximo. A minha paixão é o cinema, tanto que minha referência, a cada cena, mesmo em novela, é do cinema. Mesmo o cinema industrial é artesanal. Hoje há uma convergência muito grande da tevê com o cinema. A nata dos roteiristas americanos está na tevê. Os seriados americanos são espetaculares, quase todos têm acabamento filmográfico. Na Record, usamos 95% dos equipamentos de cinema pela ''high definition'', pela qualidade, pela luz. O que diferencia é a dinâmica. Por isso que sempre gostei mais de fazer externa, que dá para brincar mais como no cinema.
Um dos motivos que o leva a fazer mais externas em locações é porque a Record não possui um parque de cidades cenográficas, como o Projac?
Na verdade, cidade cenográfica é uma faca de dois gumes, embora tenhamos algumas. A Record que não me ouça, mas não sou um grande defensor de cidade cenográfica. Acho que elas engessam a criatividade. Em termos de produção, é claro que facilita tudo. Óbvio que eu quero ter, mas acho que não tê-las é um diferencial das novelas da Record porque a gente grava muito na rua. Uma das grandes estrelas dos primeiros capítulos de ''Vidas em Jogo'' foi ter gravado no Centro do Rio, que é lindo. Até hoje gravamos no Centro as cenas de ação e perseguição. Isso traz um diferencial. Tudo bem que encarece o produto, atrapalha a produção, mas, por outro lado, a qualidade é bem melhor. Em ''Vidas Opostas'' passamos um ano gravando dentro de uma favela. Era uma mecânica muito difícil.
Você ajudou na implantação dessa nova fase da teledramaturgia na Record. Como foi no início, com a construção do RecNov, o complexo de estúdios da emissora, no Rio?
Quando vim, a Record estava com ''A Escrava Isaura'' no ar com um ibope muito bom, que chegava a incomodar a Globo. Percebi que eles não estavam para brincar. Visitei os estúdios da Record em São Paulo, encontrei muitos amigos e bons atores. Isso me deu uma segurança. Assinei o contrato e depois pensei: ''qual vai ser minha equipe?''. É meio cultural no Brasil as pessoas dizerem que fazem tudo sozinhas, mas não fazem. Você tem de escolher bem a equipe, fotografia, câmara, elenco. Tive um mês e meio para botar uma novela para começar a gravar, que era ''Prova de Amor''. Aí a Record me estimulou muito, me deu carta branca para a contratação das pessoas da Globo. Não tinha outro lugar de onde tirar. O fato do RecNov ser a 15 km do Projac facilitou muito. Conseguimos trazer centenas de pessoas do Projac, que é uma formadora de mão de obra de primeiro nível. Isso foi bom porque garantiu que fizéssemos a novela com a qualidade que eu queria. Hoje consigo fazer um produto excelente, que pode ser vendido para o mundo inteiro.
Por que você saiu da Globo depois de 22 anos na empresa para ir para a Record?
O que me atraiu na Record foi fazer uma coisa diferente do que fazia na Globo. Lá eu era diretor geral, que fica subordinado ao diretor de núcleo. Na Record não existe isso. O diretor geral é o diretor de núcleo. Temos o chefe de dramaturgia, que é o Hiran Silveira. Mas, como diretor na Record, tenho ampla autonomia, equivalente ao diretor de núcleo na Globo. O Hiran foi a pessoa que brigou muito pela nossa qualidade de equipe. Conversamos muito sobre isso e ele entendeu a necessidade de ter uma mão de obra muito boa. Fico muito feliz com nosso quadro de profissionais.
Na Globo você também estava se sentindo engessado artisticamente?
Estava. Isso foi uma outra questão. A Record é pioneira em abrir o leque. A dramaturgia ficou muito tempo confinada no modelo criado na época da ditadura, onde não se podia falar sobre nada. Não se conseguia produzir naquele modelo. Em 2005, veio a Record com ''Vidas Opostas'' com um protagonista que morava na favela. Nenhuma outra emissora havia abordado essa questão assim. Na Globo, havia uma dificuldade de fazer esse tipo de abordagem. ''Os Mutantes'' também teve uma história diferente. Como diretor, isso me atrai muito. Gosto de sair da mesma temática, das mesmas historinhas. Agora tivemos um bolão de pessoas ganhando na loteria, onde muitos personagens ficam milionários em ''Vidas em Jogo''. São histórias diferentes. Um outro diferencial é buscar novos assuntos. Ganhamos audiência com isso. Todo mundo reclama que as novelas na Globo são muito parecidas.
Na Record, você tinha uma grande parceria com o autor Tiago Santiago, com quem fez várias novelas. Quando ele foi para o SBT, você também foi abordado e quase fechou com a emissora. Por que decidiu continuar na Record?
A proposta da Record é muito segura. Fiquei muitos anos na Globo e realmente só saí porque a porta artística da Record me seduziu. Aqui fui bem recebido, sou respeitado, muito ouvido e isso me deixa feliz.
Logo depois dessa proposta, você renovou com a Record, que garantiu que a produção ''A Lei e O Crime'' iria virar longa. Ter a oportunidade de realizar seu primeiro filme influenciou na sua decisão de permanecer na emissora?
Isso não entrou muito na negociação. Na verdade, o processo do filme já estava rolando, as coisas estão encaminhando. Não posso adiantar muitas novidades, mas já tenho previsão de começar a filmar. Mas nunca vinculei a minha permanência na Record com a realização do filme. Isso não foi colocado na mesa, mas é claro que me interessa muito. O cinema é minha fonte de inspiração. Tenho muita vontade de poder tocar esse projeto e outros em parceria com a Record.


