Glória Perez costuma comparar o último capítulo de uma novela ao naufrágio do Titanic. ''Morrem todos de uma vez e você fica sozinha'', brinca. A comparação procede. Depois de meses convivendo com personagens irreais, muitos deles, reconhece a autora, tornam-se mais reais do que amigos, vizinhos e até mesmo familiares. Por isso, a sensação que ela tem é um misto de alívio e estranhamento. Alívio porque o tão esperado 'fim' encerra uma intensa atividade física e mental e estranhamento porque sabe que nunca mais tornará a ver aquelas pessoas. ''No caso de América, a sensação de alívio foi maior que a de estranheza, porque já tenho uma minissérie para escrever no ano que vem'', avisa ela, uma das poucas autoras da Globo a escrever sozinha. ''Só sei fazer assim. Não sei dividir fantasia. Tenho até uma equipe de pesquisadores, mas, na hora de escrever, prefiro fazer sozinha''.

Mas por pouco, América não afundou de verdade. Antes mesmo de a novela estrear, Glória Perez enfrentou a ira de supostos defensores de animais, que a acusaram de fazer apologia à violência contra os bois de rodeio. Quando a novela estreou, o motivo da discórdia foi outro. Ou pior, outros. Descontente com o rumo que a novela vinha tomando, pediu a cabeça do diretor Jayme Monjardim, com quem havia trabalhado em O Clone. Entre outras coisas, a autora não aprovou o tema de abertura da novela, os takes pantaneiros e, principalmente, o tom lacrimoso da protagonista Sol, interpretada por Deborah Secco. ''Isso nunca tinha me acontecido antes. Eu escrevia uma novela e via outra no ar, completamente diferente. Ou saía um ou saía outro'', recorda.

Entre mortos e feridos, salvaram-se todos. Até Monjardim, escalado para dirigir a próxima novela de Manoel Carlos. Já Glória Perez festeja os 61 pontos de média e 80% de share alcançados no capítulo do dia 24. Até o final da novela, ambiciona chegar aos 70. A empolgação é tanta que a autora faz ouvidos de mercador a eventuais críticas, como o interminável vaivém dos personagens entre Rio, Miami e Boiadeiros e, pior, o fato de todo mundo em Miami, inclusive os americanos, falarem português fluentemente. ''O gênero é inverossímil por natureza. Criticar a inverossimilhança de uma novela é o mesmo que criticar um soneto por ter rima'', argumenta. ''E se eu sinto que o público não está gostando de uma determinada história, não mudo a história e, sim, o jeito de contá-la'', acrescenta.

Desde que despontou na Globo, em 1983, como colaboradora de Janete Clair em Eu Prometo, Glória Perez não parou mais. Por intermédio de uma amiga, nora de Janete Clair, descobriu que a famosa novelista estava à procura de um colaborador. Na mesma hora, mandou para ela a cópia de um roteiro que havia escrito, por conta própria, para o seriado Malu Mulher. ''Foi aí que ela pediu para ir até a sua casa para me conhecer. Se não gostasse de mim, eu seria capaz de me jogar debaixo de um trem'', exagera. Mas Janete gostou. Um final feliz para Gloria.

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