Curitiba - Obedecendo uma trajetória secular de unir teatro à moda, o maranhense Paulo Martins começou sua carreira como ator e hoje é produtor de moda. Esse troca-troca é característica marcante em sua vida. ''Sou maranhense, mas de cultura paranaense. A minha formação é 100% curitibana, me considero um paranista, mas acredito que essa fixação venha da característica do povo do Maranhão que é a de ter uma identidade muito forte'', justifica entrelaçando o ontem e o hoje de sua vida.
Para quem não conhece Paulo Martins fica difícil acreditar que ele seja tão paranista assim. Seu biotipo, de cara, acusa que sua existência não é fruto das misturas raciais que colonizaram o Paraná.
Mas isso não tem nada a ver mesmo, ele é, sim, uma das figuras mais defensoras da moda regionalista. Paulo acredita que se pode vender características típicas do Estado na indústria da moda assim como Paris ''vendeu'' sua torre Eiffel estampada em camisetas, vestidos e souvenirs.
Um tema controverso. Agradando ou não sim porque existe uma corrente mundial que odeia o tema regionalismo ele está transformando o Paraná em mais um pólo de produção para a indústria têxtil. Junto com a jornalista Nereide Michel, há cerca de um ano, montou o Curitiba Fashion Art (CFA), um evento que mostra o que os criadores do Estado fazem.
''Custei muito a encontrar o que quisesse fazer. Sempre tive uma veia artística muito grande. Pensei em arquitetura, mas acabei me formando em Artes Cênicas pelo Teatro Guaíra. Virei ator, produtor de teatro, mas sempre com um olho na moda'', conta traçando ele mesmo a rota que o levou a viver hoje o tempo todo voltado para o tema.
Na época em que ainda vivia nos palcos começaram a surgir as primeiras faíscas sobre o que detonaria um processo irreversível em sua vida. ''Quando fazia teatro fui convidado para ser personagem de uma matéria no jornal que a Nereide trabalha. Quando fomos fazer a matéria vi que faltavam elementos e aí comecei a dirigir as fotos, fiz o figurino e depois disso acabei trabalhando com ela.''
Segundo Paulo, há 10 anos não existia um conceito de se produzir moda genuinamente brasileira. Na sua cabeça, sim. Sempre teve o sonho de fazer um evento com produção própria, onde cada estilista pudesse buscar elementos novos e culturalmente ligados a sua história para fazer roupas.
''Em 1994 fiz um projeto chamado Curitiba In Moda e apresentei para um shopping. Ele ia sair, colocaria marcas do shopping e outras daqui. Naquela época a confecção local era muito forte. Mas era muito audacioso e senti que houve um certo receio de apostar no novo. Não existia uma vontade política. Não havia desejo, A cidade estava voltada para outro foco: o de se transformar um pólo para montadoras.'' Desse jeito o sonho voltou para o prelo. ''Engavetei o projeto. Frustrado, mas engavetei.''
Depois disso, de ver que não teria como executar um projeto grande, Paulo começou o trabalho da ''formiguinha''. Carregou folha por folha para montar uma cultura na cidade que o levasse a chegar onde está hoje: prestes a realizar o terceiro CFA com o aval da Associação Brasileira da Indústria Têxtil (Abit) e da Federação das Indústrias do Estado do Paraná (Fiep).
Transformar essa idéia em uma realidade, que hoje atrai para cá jornalistas do Brasil inteiro e traz a partir do próximo evento (que acontece agora em março) um barracão de vendas voltado ao Mercosul (o Curitiba Fashion Business), custou anos de trabalhos picados. Foram muitos desfiles em shoppings. ''Desenvolvi uma cultura de moda. Antes as lojas não tinham sentido profissional. Era tudo muito amador. Hoje é diferente, melhorou muito. Eu encontrei também na Nereide uma parceira. Ela também queria desenvolver uma estrutura para mostrar a identidade da moda daqui.''
A busca por essa valorização do local é quase uma obsessão. ''Acho que você não pode ter sucesso em qualquer atividade se você não tiver sucesso na tua casa. Não podemos fazer uma moda igual à italiana, francesa ou americana. Se você vai à Índia vai querer trazer alguma coisa que te remeta até lá. Com a globalização, pensávamos que iríamos perder o nosso norte. Pelo contrário. Hoje as pessoas compram conceito e cultura. Eu acredito e afirmo que só vamos ter moda quando buscarmos identidade.''
Com tantos projetos realizados, Paulo Martins ainda esconde um desejo. Nada a ver com o teatro. Esse assunto de ter abandonado os palcos é coisa resolvida em sua vida. ''Não podia servir dois deuses. Então escolhi um.'' São coisas que pretende ver acontecer daqui para frente. Como ver os nomes da moda paranaense, que se identificam com sua filosofia, despontando nacionalmente. ''Curitiba pode ditar tendências. Quero que os olhos se voltem para cá. Temos um diferencial de comportamento e isso pode ser consumido lá fora.''

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