A capacidade do esporte em transformar vidas fez surgir para dezenas de brasileiros uma nova oportunidade nos Emirados Árabes. Foi assim que Pedro Peres, de 27 anos, foi parar do outro lado do mundo. Nascido em Campinas, no interior de São Paulo, Peres morou por alguns anos em Londrina, antes de embarcar, em 2012, para uma verdadeira aventura. "O jiu-jitsu mudou a vida do filho do Sheikh Mohamed Bin Zayed [príncipe herdeiro de Abu Dhabi] e, por isso, desde 2006, ele decidiu que o esporte viraria matéria obrigatória nas escolas e nas Forças Armadas dos Emirados Árabes", explica Peres. Encantado com a mudança de atitude do filho adolescente, antes rebelde, o Sheikh enxergou na arte marcial uma forma de transformar o país.

"É um país muito novo, um pouco fechado para o mundo e onde ainda há a questão da falta de informação. Também há um grande problema de obesidade, por isso o Sheikh pensou que o jiu-jitsu seria uma boa forma de reeducação desse povo. Não somente devido à parte física, mas pela questão dos valores que a arte marcial traz", conta Peres.

Para promover essa "revolução do esporte", os árabes vieram buscar mão de obra principalmente no Brasil. "O jiu-jitsu nasceu no Japão, mas teve o estilo adaptado no Brasil através da família Gracie. Por isso, sempre digo que o berço do jiu-jitsu é o Brasil", afirma. Segundo Peres, atualmente há 180 faixas pretas brasileiros, inclusive ele, ensinando a arte marcial nos Emirados Árabes. "Há alguns professores de outras nacionalidades, mas a grande maioria é de brasileiros."

Para Peres, essa grande quantidade de professores do Brasil faz com que a adaptação dos novos profissionais seja tranquila. "Ajuda muito. Faz com que a gente não se sinta sozinho. Além disso, conversamos bastante em português", conta. O professor garante ainda que nunca sofreu pelas diferenças culturais entre os dois países. "Eles são bastante tolerantes com estrangeiros."

Se as conversas informais são sempre em português, nas aulas a língua oficial é o inglês. "Quase todos os árabes falam inglês, mas quando alguém não entende, tem um tradutor", diz. Peres conta também que o estilo da aula é o mesmo ensinado no Brasil. Atualmente lecionando para jovens de 15 a 18 anos, Peres fala que o maior desafio foi trabalhar com as Forças Armadas dos Emirados Árabes. "Na Base Militar é um pouco complicado. Como os oficiais precisam estar lá às 5h da manhã, há um problema motivacional. Além disso, por ser algo obrigatório, imposto, eles acabam ficando desmotivados", explica o professor.

Hoje, além de dar aulas das 7h às 14h, de quinta a domingo, Pedro Peres se dedica às competições de jiu-jitsu. Segundo ele, a paixão pelos esportes, principalmente pelas lutas, vem há muito tempo. "Comecei a lutar porque via o Royce Gracie no UFC, todo magrinho bater nos maiores", conta. "Mas o esporte me trouxe muitas coisas. Além da profissão, tem toda a questão do estilo de vida saudável e de cuidar do corpo e da mente", valoriza.

Lutador de jiu-jitsu desde 2001, Peres chegou a pensar em seguir outra carreira. "Me mudei para Londrina para fazer matemática na UEL (Universidade Estadual de Londrina), mas desisti logo no primeiro ano e entrei no curso de Educação Física da Unopar", relata. Em Londrina, Peres também deu aulas da arte marcial por um bom tempo em uma academia.

A graduação, porém, não foi concluída devido a oportunidade de trabalhar nos Emirados Árabes. "Eu já conhecia o projeto, tinha inclusive um amigo de Londrina que estava por lá, e resolvi me inscrever", relembra. Depois de um teste seletivo em São Paulo, Peres mudou-se para Abu Dhabi. "Pretendo continuar por lá por um bom tempo ainda", diz o professor, que além do salário, tem a moradia paga pelo governo. Nos 30 dias de férias que tem por ano, porém, Peres faz questão de voltar às cidades que marcaram sua vida, inclusive Londrina. "Gosto de sempre vir para o Brasil."

mockup