Expressando o poder do feminino
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sexta-feira, 27 de julho de 2018
Lais Taine<br>Reportagem Local 

Da criança gorda na escola, adolescente fora do padrão, das novas perspectivas em uma viagem para Holanda ao estudo de formas de expressão, trabalho em comunicação visual até chegar à consultoria de imagem. Para atingir o nível de conhecimento sobre o universo feminino é preciso mais que técnica, é preciso usar a memória e a sensibilidade. Mila Codato, 40, vai além, faz do trabalho uma arma política para encorajar mulheres.
"Meu trabalho oferece ferramentas para você exercitar o seu amor próprio", comenta durante a conversa com a reportagem da FOLHA na recepção do condomínio onde moram os seus pais. A londrinense já está há mais de 20 anos fora, mas sempre que pode vem visitar a família e as memórias que a fazem chorar e rir ao mesmo tempo. Com o brilho no olhar de quem encontrou o essencial da vida no litoral de São Paulo, vive a intensidade de trabalhar com amor.
Uma questão que parece desconexa. A consultoria de imagem carrega o estigma de superficialidade da nobreza à elegância para quem tem muito dinheiro e tempo para gastar. "O meu maior desafio é tirar esse lugar do supérfluo, superficial, beleza, consumo, porque não é, é muito profundo, é mudança de vida. É um trabalho político", defende.
As impressões sobre o trabalho têm muito a ver com a forma como é transmitido. Codato vai contra a onda do consumo desenfreado e leva as clientes a refletirem sobre si mesmas e a olharem o que já possuem no guarda-roupas. "O que passa na TV é um desserviço para a gente. Invalidam tudo, é muito humilhante você olhar a roupa de uma pessoa e dizer que feio, que brega, é totalmente desrespeitoso. Cada mulher é um universo e eu sou muito contra essas receitinhas", brinca sobre todas terem que ter uma calça jeans e camisa branca, coisa que ela mesma não tem.
MATURIDADE
Chegar à conclusão de que cada mulher pode ser o que quiser, inclusive se expressar por meio de suas roupas, foi um exercício de maturidade que ela credita, em tom de brincadeira, à terapia. Não que não seja, mas é que Codato viveu essas questões que incomodam as mulheres. "Há consequência em ter sido uma criança gorda na escola. Me vestir na adolescência também foi um desafio, porque eu sempre fui grande, eu precisava peneirar roupas, pesquisar, lidar com meu corpo fora do padrão. Foi uma escola e tanto, mas eu sofria muito, chorava antes de ir para a balada", recorda.
Um intercâmbio na Holanda a fez enxergar um mundo diferente. "Vi outras possibilidades. Foi uma escola de comunicação não verbal, porque eu não falava holandês e tinha que entender todas essas dinâmicas", relata. Beleza que aprendeu a admirar dentro da própria casa. Uma família de intelectuais em que as reflexões sobre a vida sempre estiveram muito presentes. "A gente tem um olhar para a beleza, todo mundo gosta de design, arte, o belo é apreciado. Então, para mim, a contemplação é uma conexão com o divino", afirma.
Londrina lhe rendeu experiência até a idade da formação. Codato foi para São Paulo estudar comunicação visual, trabalhou com layout em agências e no mundo corporativo, mas sentia falta da relação interpessoal. Quando ficou incumbida de encontrar uma profissional para uma pessoa próxima que desejava passar pelo processo de consultoria de imagem, se deparou com Ilana Berenholc. "Foi ela quem trouxe a consultoria de imagem para o Brasil e me apaixonei. Há muito tempo eu estava procurando outros vieses que me ajudassem a trabalhar ainda com as linhas, formas, cores, composição, mas que trabalhasse mais com gente", afirma.
MATERNIDADE
Foi com Berenholc que a londrinense teve formação e trabalhou por um tempo até oferecer serviços de consultoria de imagem. Nesse meio tempo, a maternidade. Uma mudança de vida que a fez olhar a mulher de forma diferente. "Eu estava com 32 anos, tive depressão pós-parto, eu não estava preparada. Senti dificuldade na nova rotina, com as mudanças com o próprio corpo, me senti desconectada. É uma mudança muito grande, aquilo que eu gostava já não me agradava mais, foi um renascimento", recorda.
Da dificuldade surgiu o workshop para mães, aberto depois para outras mulheres que não se sentiam bem. Há 12 anos no mercado, Codato atua exclusivamente com o universo feminino. "Eu descobri que todas as mulheres sofrem. Desde as que usam 34 até o 60. Todas estão insatisfeitas. Eu já sentia isso na pele, mas eu achava que era uma coisa minha e percebi que, na verdade, essa é a forma de o mercado funcionar, porque enquanto nós estivermos insatisfeitas, a gente vai comprar", lamenta.
Mais que uma consultoria, um clube para que todas percebam o mundo a sua volta e se encorajem para serem livres com o que são. "Eu desloco o prazer da compra, que é a satisfação de um desejo, para o vestir. É quase uma sensação de compra no próprio guarda-roupa", explica. Para compreensão de como funciona, inclui essa questão em um contexto. "A gente é muito privada de prazer enquanto mulher. A gente não pode sentir prazer, então sobram válvulas de escape muito pequenas, ou é comida ou a gente desconta tudo nas brusinha nova", ri ao mencionar o meme da internet. "Não é fácil e muitas mulheres não têm essa consciência."
LITORAL
As redes sociais da consultora são cheias de incentivos e críticas ao mercado da beleza. A consultora que fez do trabalho uma política também está vivendo há cinco anos no litoral de São Paulo, em Ubatuba. Cultiva flores, sua atividade de lazer, talvez por influência do marido, Fabio de Oliveira, 38, que é biólogo, enquanto ensina os dois filhos, Aurora, 8, e Dante, 4, sobre arte de uma maneira lúdica. Uma vida simples e rica. "Eu não estou rica, mas o que eu estou vivendo considero riqueza. Estou me sentindo realizada, vivo uma vida simples, consigo me sentir importante fazendo o que eu faço", revela.
Como nem tudo são flores, reforça que a vida é real. "Mas é livin la vida loca, eu lavo louça, não tenho empregada, cuido dos filhos, trabalho, dou aula", brinca. Ao mostrar o cabelo sem pintar, afirma que essa questão de amor próprio e autoestima é um exercício diário, e depende da valorização de cada imperfeição. "Para mim, a consultoria é para promover a liberdade de expressão, não é caixinha. É poder de escolha, não opressão. Porque não existe mundo perfeito, a gente é humana, é vida real. Se você não lava a louça, alguém faz isso por você e isso tem impacto na vida dessa pessoa", afirma.
LONDRINA
Nos poucos dias que tirou para visitar a família em Londrina, Codato aproveitou o momento para um encontro (sim, ela trabalhou nas férias) e também levar os filhos aos locais que remetem à memória afetiva. "Fomos no Zerão, no lago Igapó, então para mim
", emociona-se no meio da frase. Chorando e rindo do choro, continua: "é muito gostoso ver meus filhos curtindo isso. É sobre ter um carinho, eu cresci aqui, vivi aqui", limpa as lágrimas.
Transmitindo simplicidade, autenticidade e o poder que uma mulher tem para revolucionar o mundo, conta sobre os projetos sociais que tem em Ubatuba, uma forma de valorizar a mulher por meio de ensaio fotográfico com imagens sem retoques. A sua fala é uma aula sobre a importância das mulheres se conhecerem e se sentirem belas com o que elas são e com as experiências que carregam. As dela estão, nem que seja um pouquinho, aqui em Londrina.


