''Eu ralei''
PUBLICAÇÃO
terça-feira, 07 de agosto de 2001
Roberta Brasil<BR>TV Press 
O novato Taiguara Nazareth sabe que os antecedentes são perigosos. Em Presença de Anita, minissérie que estreou ontem, ele aparece na pele de André, um empregado de porte atlético que vira objeto sexual da patroa Marta, interpretada por Vera Holtz. Ter um personagem de estréia que se envolve num obsessivo jogo erótico de dominação é agravado pelo fato de ser ex-modelo. Ou seja: o risco de ficar estigmatizado como um corpo sem cérebro, como aconteceu com Ricardo Macchi ou Paulo Zulu, não são pequenos. O ator, porém, não acredita nesse destino. Ele ressalva que se formou em teatro nos Estados Unidos e por lá mesmo iniciou a carreira de ator. Eu ralei. Não fui para a tevê saído do nada, como já disseram por aí, diz, sem esconder uma precoce revolta com a imprensa.
Taiguara deixou as passarelas em 1997 e mudou-se para os Estados Unidos, onde ficou por quatro anos. Lá, cursou a Faculdade de Teatro, em South East College, Nebrasca. Nos palcos americanos, encenou musicais e peças infantis. Em Nova York, trabalhou como garçom e barman para se manter. De volta ao Brasil, retomou as passarelas à espera de uma chance como ator. O convite para o teste da minissérie surgiu de última hora. Peguei o primeiro vôo para o Rio e fui direto fazer o teste. Tive de decorar o texto em cima da hora, conta.
Na trama protagonizada por outra estreante em tevê Mel Lisboa, a intérprete de Anita Taiguara Nazareth exibe sua boa forma na pele do empregado que faz o trabalho braçal da fazenda. Marta e Venâncio, personagens de Vera Holtz e Irineu Dias, são os patrões racistas de André, mas aos poucos o rapaz vai se tornando objeto do desejo de Marta. Ao descobrir o namoro dele com Neuza, empregada vivida por Joana Tristão, a autoritária fazendeira tenta se livrar da moça para ter controle total sobre André. O desfecho é forte e vai surpreender, anuncia Taiguara, com ar misterioso. A maior parte das cenas do ator foram feitas em Vassouras, município do estado do Rio. No Projac, centro de produção da Globo, no Rio de Janeiro, ele vem concluindo o trabalho em estúdio. Não tive tempo de me preparar. Comecei gravando justamente as cenas finais, com maior densidade, conta o ator, acrescentando que a falta de cronologia e continuidade nas gravações comum nas minisséries foi uma dificuldade a mais para ele, acostumado à lógica do teatro.
Sobre as temperadas cenas com Vera Holtz, Taiguara não fala mais. E tem seus motivos: ele não gostou da forma como a imprensa valorizou o apelo erótico do personagem. Quando ele disse que não se importava com cenas picantes, saiu publicado que o ator era um assumidíssimo homem-objeto. Isso queima meu filme como ator, reclama, já temendo o rótulo. Mas Taiguara não tem idéia de como o público vai reagir à minissérie. O espaço do negro na tevê ainda é muito restrito. Vai ser difícil virar galã, ironiza o ator, que, embora ansioso, evita alimentar expectativas. Já acostumado a uma certa exposição como modelo, Taiguara sabe que a repercussão de um trabalho na tevê é bem maior. No entanto, acha que está pronto para eventuais críticas à sua atuação. Contra a crítica eu tenho defesa, contra o elogio, não. Esse é mais perigoso porque enche a bola da gente, pondera o precavido ator.
Embora apaixonado por obras de época ele sonha encenar Othelo, de Shakespeare Taiguara tem reservas quanto aos papéis de escravo. Se fosse um personagem como o que o Norton Nascimento faz em A Padroeira, tudo bem. Mas para ficar no tronco, só levando chicotada, prefiro não fazer, afirma o ator, que já foi rei em A Cinderela e mágico em O Mágico de Oz, dois espetáculos que encenou nos Estados Unidos. Ao autodefinir-se como crítico e exigente com seu trabalho, o rapaz parece não estar exagerando. Ele fez questão de não assistir, de antemão, às cenas que gravou na minissérie, para não sofrer achando que poderia ficar melhor.


