A companhia Noisette, que apresentou ontem e anteontem, no Festival Internacional de Londrina (Filo), o espetáculo ''Além Mar'', é de nacionalidade belga. Inusitadamente, entretanto, os integrantes do grupo são todos brasileiros e, mais que isso, mantêm estreitas relações com a cidade que acolhe o Filo. Membro da Noisette, a atriz Fernanda Coelho tem também uma forte relação com o evento do qual participa pela primeira vez após deixar o Brasil. Ex-integrante do grupo Proteu, ela ajudou a consolidar o festival antes de se aventurar por terras européias.
Nascida em Bauru, Fernanda veio para o norte do Paraná no início da década de 80, para atuar no Proteu, companhia que fez história na cidade sob o comando de Nitis Jacon. ''Assisti a um espetáculo deles e 'me ofereci' para integrar o grupo'', conta. A partir daí, a atriz desenvolveu uma sólida carreira teatral, com participação em todas as montagens do Proteu e, paralelamente, atuando na organização do Filo.
''Na época, o Proteu é quem fazia o festival. Participei de todo o processo de internacionalização e tenho muito orgulho disso'', recorda-se, acrescentando que o grupo era uma verdadeira escola aberta de teatro. ''O trabalho era muito colaborativo e criativo. Atuávamos em espaços abertos ou fechados, em bares e na rua. Buscávamos profissionalização e qualidade, ajudando a consolidar tradição teatral em Londrina'', revela.
Fernanda trabalhou com o grupo até a montagem de ''Jennifer'', no início da década de 90, sob direção do paulistano Roberto Lage. Com o fim do Proteu, ela dedicou-se por bastante tempo ao grupo de teatro da terceira idade do Sesc, além de desenvolver projetos na Rede Cidadania.
Nessa época, a vontade antiga de morar fora do Brasil começou a tomar força. ''Eu só não tinha coragem de 'zerar', de deixar coisas para trás e recomeçar em um lugar novo'', conta Fernanda, que resolveu viajar à Espanha ''para ver no que dava''. ''Minha única certeza é que voltaria a trabalhar com teatro.''
Na Europa, antes do que esperava, os fatos começaram a conspirar a seu favor. Ainda em terras ibéricas, ela se encontrou com a atriz Jéssica Arjona e o ator Luiz Renato Ferreira, ambos de Londrina. Com amigos em comum na Bélgica, eles decidiram ir para Antuérpia, a cidade belga, onde já estava o bailarino londrinense Alysson Pedrão. Ao mesmo tempo, a atriz e produtora Lili Almeida deixou a Itália e juntou-se ao grupo, dando início à formação atual da companhia Noisette.
Com apoio da Federação Latino-Americana, que viabiliza a produção de projetos artísticos e culturais de grupos da América Latina na Bélgica, eles conseguiram aprovar a montagem do espetáculo ''Além-Mar'', baseado no livro ''Estaleiro das Almas'', da escritora londrinense Karen Debértolis e com fotos de Fernanda Magalhães.
O grupo iniciou a produção, mas como tinham urgência de fazer teatro, resolveram montar paralelamente uma performance de rua, chamada de ''Encontros e Desencontros''. Baseada em trechos de obras literárias, a montagem fala sobre as sensações de ser estangeiro. ''Nos apresentamos por quatro dias em frente a um museu e surpreendemos por sermos independentes'', diz.
''Encontros e Desencontros'' chamou a atenção do produtor Guy Swars, de uma ong cultural chamada Kopspel. A organização passou a apoiar os projetos do grupo em parceria com a Federação. ''Desenvolvemos as idéias e eles buscam financiamento, dão apoio logístico e circulam o espetáculo'', conta Fernanda. Foi graças a essa parceria, inclusive, que o grupo conseguiu realizar o lançamento do livro ''Estalagem das Almas'', com exposição das fotos de Fernanda Magalhães e presença das duas autoras na cerimônia de abertura.
Após a estadia no Brasil, por conta das apresentações no Filo, os integrantes do Noisette já estão comprometidos com a montagem da performance de rua ''Acaso'', baseada em haikais, que estreará no dia 26 de julho, no festival multimídia Sfinks. ''Faremos oito apresentações em dois dias. Considero uma superconquista, será mais uma passo na trajetória que estamos construindo'', acredita.
O espetáculo está sendo produzido em parceria com a academia de moda da Antuérpia. ''Alguns alunos farão figurinos representando cada estação do ano, que serão avaliados como trabalho de conclusão de curso'', antecipa.
Os cinco integrantes da Noisette moram no mesmo prédio, em uma região privilegiada da cidade belga, o que propicia a troca constante de idéias e reforça o trabalho colaborativo que marca a história dos grupos de teatro londrinenses - que agora fazem escola pelo mundo. Na Bélgica, Fernanda ainda não vive apenas do teatro, mas trabalha na produção de espetáculos realizando serviços diversos.
A vinda para Londrina nessa temporada do Filo tem significado especial para a atriz. ''É uma honra participar das comemorações de 40 anos do festival'', alegra-se. A passagem pelo Brasil tem também o objetivo de recarregar as energias antes do retorno à Bélgica. A saudade dos amigos e da família é grande, mas por enquanto não trará Fernanda de volta. ''Quando optamos por viver fora da terra, passamos a ser estrangeiros em qualquer lugar. Por enquanto, as coisas estão acontecendo na Europa. Ainda não tenho intenção de voltar.''

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