Novela com Vera Fischer no elenco segue uma trajetória conhecida. Independentemente de ser ou não protagonista, a atriz acaba se tornando o centro das atenções. É o caso de ''O Clone''. Na novela de Glória Perez, que estreou ontem, ela interpreta a impulsiva Ivete, mas não chega a fazer parte do principal triângulo amoroso sobre o qual a trama se desenvolve. Mesmo assim, seja em gravações ou numa simples coletiva de imprensa, lá está Vera cercada de cuidados, rodeada por fotógrafos e assediada por fãs. Aos 49 anos, a atriz, que continua exuberante e virou uma espécie de musa da tevê, já se acostumou a essa rotina. ''Estou de bem com a vida, então tenho de estar em paz com as pessoas que me entrevistam, que me fotografam...'', avisa.
Mesmo no longínquo Marrocos, para onde embarcou para gravar cenas da novela das oito, ela chamou a atenção. Não que a atriz seja tão famosa assim no país do Norte da África. Mas o misto de beleza brasileira com charme europeu de Vera monopolizou a curiosidade do povo marroquino. Ainda mais com o cabelo loiro da atriz. ''Eles acham mulher loira uma graça. Eles vão atrás e fazem perguntas'', diverte-se. Até Glória Perez tirou proveito da atenção que Vera despertou. Nos primeiros capítulos da novela, Ivete e Leônidas, papel de Reginaldo Faria, estão em um mercado marroquino quando o vendedor oferece oito camelos para ''comprá-la''. Na ocasião, Ivete brinca com a situação: ''Só oito?'', indaga a personagem. ''Mas fora das gravações não tentaram me comprar não'', jura a atriz.
Foi esse jeito brincalhão da personagem que mais pesou na hora de Vera decidir fazer ''O Clone''. A atriz criou uma expectativa ao demorar em aceitar a convocação da Globo para fazer a novela - que já estava penando para formar elenco. Vera alega que queria descansar, mas acabou convencida pelo estilo da personagem. Tudo porque, ao contrário da contida Helena de ''Laços de Família'', a Ivete de ''O Clone'' é bem mais extrovertida. ''Gosto de personagens diferentes. Não dá para ficar só interpretando a certinha'', ressalta.
Você relutou em interpretar a Ivete de ''O Clone''. Por quê?
Eu estava cansada. Tinha feito ''Laços de Família'' e meu plano era descansar o ano inteiro. Mas não consegui levar adiante esse projeto de descansar porque esse convite foi muito sedutor.
O que mais a atraiu na novela?
Depois de ter feito a Helena, em ''Laços de Família'', que era uma mãe toda centrada e cheia de cuidados, pegar uma personagem mais destrambelhada e impulsiva como a Ivete é estimulante. Ela mete os pés pelas mãos, é bem-humorada, não tem instrução, fala bobagens. Acho legal pegar personagens diferentes. Não dá para fazer sempre a mesma coisa, sempre a certinha.
Mas, para quem queria descansar, uma novela das oito não é o mais recomendado...
Por incrível que pareça, estou tendo mais folga nessa novela. Pelo menos por enquanto. Até porque os personagens estão muito mais distribuídos. Na outra novela tudo ficava centrado em mim. Então, tenho muito tempo para me dedicar ao sítio que estou construindo e para o meu lado mãe. Estou podendo sair com meus filhos, brincar, ver filmes com eles. Coisas que normalmente são difíceis quando a gente faz novela. Durante essa novela acho que vou poder ter vida particular e vida profissional.
Você passou um mês gravando no Marrocos. O que achou do país?
Nunca havia ido a um país árabe. Fiquei apaixonada. São países de contrastes muito grandes e o Marrocos tem uma beleza árida, de deserto. Uma beleza muito misteriosa, principalmente nos olhos das mulheres. Tudo é muito honesto e muito sincero. As pessoas são sinceras e muito afetuosas. Foi muito bom gravar lá.
Você não tem traços de mulher árabe. Como foi a reação das pessoas?
Eles acham mulher loira uma graça. Acham um baratinho. Eles vão atrás, fazem perguntas, querem vender coisas. Tratam a gente muito bem. E trataram a equipe também muito bem, porque estão acostumados com as filmagens. Filma-se e grava-se muito lá. ''Gladiador'' foi filmado lá.
O que mais chamou a sua atenção no Marrocos?
No comportamento do povo foram as rezas. Eles rezam e cantam cinco vezes por dia. E ainda usam alto-falante para rezar com volume bem alto. Na primeira noite, às três horas da manhã, eu acordei e levei um susto. Eles estavam rezando nas mesquitas, cantando e entoando as palavras do Alcorão. Isso para mim foi uma surpresa porque eu sabia que eles rezavam muito, mas não imaginava que rezassem às três da manhã. Isso é fantástico. Só existe nos países árabes.
E a questão das mulheres. Dizem que elas são muito cerceadas...
Há uma história das mulheres muçulmanas olharem para nós com outros olhos. Elas acham que nós é que somos infelizes. Vejo muita disparidade, acho que elas sofrem muito. Senti muito isso. Mulher ocidental sempre vai olhar para a oriental e achar uma diferença. Não me adaptaria jamais, acho um absurdo muitas coisas pelas quais elas passam.
Mas você compartilha da opinião da autora Glória Perez de que a novela vai ajudar a desmistificar a visão que temos do mundo muçulmano?
Acho que sim. O mundo vive de choques culturais então a gente precisa levantar uma bandeira e discutir. E estamos no início. Ainda não sabemos o que a Glória vai inventar daqui para a frente.
Você acha que novela tem esta função social? Levantar temas, como a religião muçulmana, clonagem, drogas...
Acho que sim. Tem de se falar do que está se falando hoje em dia. Claro que a Glória está pegando o lado Romeu e Julieta, do amor ancestral, e ao mesmo tempo falando sobre as drogas, o lado muçulmano. Ela está pegando uma miscelânea de coisas que compõem uma novela, que é uma obra de ficção. Acho que todos esses componentes têm de ser discutidos, analisados e vividos por nós.
A novela vai abordar o problema das drogas e você já vivenciou isso. Você acha realmente que a trama pode conscientizar as pessoas que são dependentes?
Sem dúvida. O alcance da tevê é impressionante. Isso vai alimentar milhões de pessoas e dar muita coragem para muita gente. Em ''Laços de Família'' teve a campanha da leucemia, que funcionou muito bem. Acho que todas as campanhas em novelas são muito bem aceitas.
Você tem dois filhos, sendo que a mais velha é adolescente. Como você trata com eles essa delicada questão das drogas?
A Rafaela tem horror de ouvir falar em drogas. Ela admite que os amigos façam porque diz que não pode obrigar os amigos a mudarem de comportamento, mas ela não gosta. Falamos abertamente com ela sobre isso. Ela viu tudo que passei. A gente sabe lidar com essa questão com nossos filhos por causa da vida que a gente passou.
Foram feitos muitos workshops pela Globo sobre a cultura árabe, só que sua personagem não é muçulmana. Como você compôs a Ivete?
Como a Ivete é uma pessoa que não tem muita instrução, busquei dentro de mim um lado bastante ingênuo e puro para botar verdade na personagem. Coloquei um lado criança também. Ela faz as coisas impulsivamente, se arrepende, pede perdão e chora como se fosse uma criança. É legal a gente buscar dentro de nós mesmos a composição do personagem. O ator busca muito pela alma. A gente pode decorar o papel, mas não há como estudar isso.
Na época de ''Laços de Família'' você comentou que a Helena era muito parecida com você. Em relação a Ivete de ''O Clone'' você encontrou alguma característica em comum?
A impulsividade dela. Tem muito a ver comigo. Digo que a Ivete é Áries, signo mais impulsivo do zodíaco. Faz primeiro e depois pensa. Sou um pouco assim também. Mas nessa parte extrovertida não sou tão parecida com ela. Sou mais tímida.
Em toda novela da qual participa você acaba sendo o centro das atenções. Como lidar com esse assédio?
Tudo depende da forma como você está com a vida. Estou de bem com a vida, estou em paz, então, tenho de estar em paz com as pessoas que me entrevistam, que me fotografam. Ou seja, tenho de estar em paz com meu meio ambiente. Estou em paz com isso. Quando não estamos em paz conosco, reagimos de outra forma.

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