Curitiba - A infância de Maíra Lour foi cercada de magia e arte. As brincadeiras rolavam nos camarins e com os figurinos de muitos teatros de Curitiba, incluindo o mais tradicional deles, o Guaíra. Na realidade, a proximidade com o mundo teatral aconteceu ainda na gravidez da mãe, a atriz, diretora e educadora Fátima Ortiz. Se do lado materno a influência cultural já era grande, a profissão do pai iria trazer de vez a arte para dentro da vida de Maíra, que é filha do ator e diretor curitibano Enéas Lour. Para completar, ela é sobrinha da atriz Regina Bastos e do premiado iluminador teatral Beto Bruel.
Seguir os passos da família não fazia parte dos planos de Maíra e, ainda na adolescência, ela se distanciou do teatro. Assistiu a muitas montagens sem se envolver, já tinha pretensões de tornar-se jornalista. Mais tarde veio a vontade de estudar Psicologia. Acabou se formando pedagoga e chegou a trabalhar como preparadora do elenco mirim da atriz Regina Vogue. ''Eu já estava no teatro, porém, achava que só lidava com pedagogia'', revela.
Na dúvida em escolher um futuro para a carreira profissional, fez três tentativas. Prestou vestibular para Letras, para se aprofundar no ensino da língua francesa; tentou entrar em um mestrado de educação, para prosseguir com a pedagogia, e fez a banca para tornar-se atriz profissional. Havia decidido seguir a profissão que desse certo em uma das três escolhas. Não passou no vestibular nem entrou no mestrado, mas foi aprovada com nota máxima na banca de atriz. O futuro estava lançado e a carreira de Maíra começava a ter um destino. ''Houve uma época em que achei que alguém na família tinha de ser 'sério' e trabalhar 'direito'. Mas é meu irmão que trabalha oito horas por dia com informática. Não fui eu quem desviou o caminho da tradição familiar'', brinca. No ano passado, ela se profissionalizou como diretora teatral.
Atualmente, Maíra é professora de teatro no Espaço Pé no Palco, administrado pela mãe. Além disso, é diretora da Súbita Companhia de Teatro, grupo formado por mais cinco atores. Eles irão apresentar neste ano, durante o Festival de Curitiba, os espetáculos ''Coração de Congelador'' (estreia) e ''Diga Aonde Dói''. Em seguida, o grupo segue para a Colômbia, onde irá participar do Festival Alternativo de Teatro de Bogotá. Como a organização do festival apoia as companhias apenas com hospedagem e alimentação, o deslocamento fica por conta do grupo. O aparente desânimo em não ir ao encontro por falta de dinheiro foi rapidamente eliminado. Eles criaram a campanha ''Leve a Súbita para a Colômbia''. Através da ajuda de familiares e da venda de camisetas, adesivos e broches, o grupo já conseguiu comprar três passagens. Agora irão realizar uma festa para tentar arrecadar o resto. ''É uma campanha afetiva, com as pessoas que gostam da gente e das nossas peças'', explica.
A montagem que os colombianos irão assistir é uma criação coletiva da Súbita, com textos próprios ligados ao tema da dor. Uma das características do espetáculo ''Diga Aonde Dói'' é retratar no palco as dores na vida cotidiana das pessoas. Não dor física, mas sentimental. ''Eu sinto muitas dores. Sinto dores existenciais, dores de existir no mundo. As dores estão nos questionamentos diários, na vida que se encaminha todos os dias''.
Na estreia desse espetáculo, a maior preocupação da atriz era com a reação da família. ''Quando vi meu pai na primeira fila, achei que fosse morrer. Eu tinha mais medo da aprovação da minha família do que do crítico teatral mais ácido que existe''.
Alguns poderiam até achar que a influência da família tornaria o trabalho de Maíra mais fácil, mas não foi bem isso que ocorreu. Antes da estreia, ela pediu ajuda para o tio Beto Bruel na iluminação. Ele instalou o equipamento, explicou para ela tudo o que precisava saber sobre luzes e foi embora. ''Me deu um beijo e disse que esse era o melhor presente que ele podia me dar. Afinal, uma boa diretora deve entender de iluminação''. Sem saber o que fazer, ela chorou sobre a mesa de luz, mas acabou dando tudo certo. E quando teve a mesma conversa com o tio para falar sobre o espetáculo ''Coração de Congelador'', já sabia exatamente o que queria.
Ainda em 2010, a Súbita irá fazer uma temporada com esse espetáculo em Curitiba. Depois disso começa mais um processo de criação de uma peça que também irá falar sobre o amor, chamada ''Monocárdio''. Mas o sonho de Maíra é trabalhar com os pais, e já está nos planos dirigir a mãe em um monólogo.
Enéas Lour também tem vontade de dirigir a mulher e a filha em uma peça que falará sobre relações familiares. Será uma boa oportunidade de o público tentar desvendar o segredo do sucesso de uma família que nasceu no palco e pretende ficar em cima dele durante o resto da vida.

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