Esses brilhantes objetos de desejo
PUBLICAÇÃO
domingo, 20 de dezembro de 2009
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Filha mais nova de oito irmãos, a mineira Mary Figueiredo Arantes nem imaginava que era ''fashion'' fazer suas próprias bijuterias e customizar as próprias roupas. ''Éramos pobres mesmo, e eu fazia isso porque precisava. Hoje descobri que a necessidade é mãe da inventividade'', conta uma das designers mais conceituadas do País. Em três décadas de carreira, ela deixou a confecção caseira para produzir em escala gigantesca. Suas cobiçadas peças são vendidas em toda o Brasil, além de países como Canadá e Japão. E desde que seus acessórios passaram a ornamentar as personagens das novelas globais, suas criações também viraram objetos de desejo.
Nascida na pequena cidade de Rio do Prado, no Vale do Jequitinhonha, e hoje radicada em Belo Horizonte, desde criança Mary tinha à disposição a matéria- prima necessária para a sua criação. Filha de um alfaiate, os restos de tecidos, miçangas e fios eram comuns na casa da menina. Nas mãos dela se transformavam em verdadeiras obras de arte. ''Acho que foi minha maneira de criar minha identidade. Aquela menina simples precisava, de alguma forma, ser alguém no mundo'', analisa. A menina simples cresceu e apareceu. Mary chegou a cursar Odontologia, mas sem nunca deixar de desenvolver suas peças. As amigas começaram a cobiçar as criações e, a partir daí, não demorou que ela passasse para uma produção mais profissional.
Como dentista, ela trabalhou apenas três anos após a graduação e não por acaso se identificou com os trabalhos manuais. ''Na faculdade, o que eu mais gostava de fazer eram as próteses. Era elogiada por isso'', conta com bom humor iluminado. Mas Mary acabava trocando o trabalho como dentista com as vendedoras das suas bijuterias ou atendendo as amigas e vendedoras gratuitamente após o expediente. A odontologia passou a ser um hobby e não o contrário.
Depois que decidiu dedicar-se exclusivamente a sua produção, os pedidos também aumentaram. Ela começou a vender em uma loja em Ipanema, no Rio de Janeiro, e não demorou para suas peças começarem a aparecer nos personagens das séries e novelas da Rede Globo. A atriz Marília Pêra foi a primeira a usar a grife Mary Design no seriado ''Quem ama não mata'', na década de 80, e hoje a protagonista Helena (Taís Araújo), de Viver a Vida, aparece em várias cenas utilizando os inconfundíveis acessórios assinados por Mary. No seu showroom, em Belo Horizonte, a designer se divide entre atender as lojistas de todo o Brasil e separar peças para editorias de revistas nacionais e internacionais.
Sua mais recente coleção, apresentada durante o Minas Trend Preview, evento de moda que mostra as tendências do inverno 2010, Mary mostrou peças inspiradas na comida. ''Quando eu casei, meu marido chegava para o almoço e a mesa estava sempre repleta de miçangas, contos e cristais. Almoçávamos num cantinho da mesa, cercados por aquele brilhante menu. Foram tantos anos assim envolvidos que eu passei a ver as bijus como alimentos'', conta. Coleções antigas dela já foram inspiradas nos negros, na literatura de cordel e até no escultor Frans Krajcberg, uma de suas paixões.
''É preciso reinventar a maneira de fazer as coisas em cada coleção'', salienta. Para desenvolver a mais recente, ela contou com a ajuda de deficientes visuais, num encontro inusitado que marcou a forma de trabalho da designer. ''Eu cheguei a pensar em desistir do tema no meio do caminho. Então um amigo me deu ideia de levar as peças para os deficientes visuais 'sentirem''', conta.
O objetivo era mostrar, com o trabalho, que existem outros sentidos e outras formas de visualizar um objeto. O resultado é uma coleção repleta de texturas e tecidos torcidos e trançados que elevam as bijus a um patamar além de simples acessórios. São peças que revelam uma maneira de pensar, de ser e de fazer a arte. ''Eu quero humanizar as coisas. Quero que meu trabalho seja visto como uma bandeira'', ressalta a artista, complementando que ''o corpo humano é o melhor suporte para uma obra de arte''.


