Espírito mambembe
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sábado, 23 de julho de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Até parece que Antonio Tibery nasceu com rodinhas nos pés, de tanto que viaja. Hoje, quase não pára em sua casa, em São Paulo, por conta dos trabalhos em outros estados. Mas, mesmo antes de se formar arquiteto e conquistar um nome que hoje é reconhecido em todo o Brasil, Tibery já viajava muito.
Nasceu em Três Lagoas, no Mato Grosso do Sul, e foi cursar faculdade em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. O último ano de estudos foi em Mogi das Cruzes, São Paulo. De lá para a capital paulista foi um pulo. Aliás, um senhor salto, considerando que com o diploma recém-conquistado ele já tinha um convite para estagiar num dos mais conceituados escritórios de arquitetura do País. ''Em 1989 fui convidado para um estágio com João Armentano'', lembra Tibery.
A relação com Londrina, onde esteve recentemente, para a abertura da 10 Mostra de Decoração & Interiores (MD&I), tem a ver com a irmã, a artista plástica Wania Tibery. Ao voltar para São Paulo, o arquiteto não deve passar muito tempo em casa. ''Tenho um trabalho para começar em Presidente Prudente e outro no Rio de Janeiro'', conta Tibery, que será o responsável pela nova morada do ator Angelo Antonio. ''Já tinha feito a casa dele com a Letícia Sabatella'', lembra.
Os dois anos no escritório de Armentano foram especiais para o arquiteto sul-matrogrossense, que na época sequer pensava em seguir carreira solo. ''Mas durante o Plano Collor a crise atingiu muita gente e eu fui obrigado a me mexer'', explica. ''Não dizem que há males que vêm para o bem?'', argumenta Tibery.
Com os contatos que já tinha passou rápido da fase de ''engatinhar'', como ele mesmo diz. ''O setor de interiores é um mundo fechado e é muito difícil se abrir para novos talentos'', garante o arquiteto, que acabou conquistando seu espaço. Com muito respeito. Ele já está na sétima participação da Casa Cor de São Paulo. ''Antes era mais difícil de ser selecionado, havia um número limitado de vagas e critérios rigorosos'', explica.
Há quem brinque que Tibery já virou ''sócio'' da Casa Claudia, porque seus trabalhos estão sempre nas páginas dessa revista de decoração. Esse respaldo da imprensa especializada acabou abrindo outras tantas portas para o arquiteto. ''Com isso, cada vez mais posso fazer o que gosto porque o cliente já vem ao meu encontro conhecendo o meu trabalho'', afirma.
Apesar de gostar de desenhar desde a infância as telas eram as paredes do quarto onde ficava de castigo , a arquitetura foi só a terceira opção para Tibery. Pensou em fazer medicina, mas desistiu na primeira cirurgia que assistiu. ''Era uma cesárea'', lembra o arquiteto, que também pensou em ser advogado. ''Mas em Porto Alegre, onde fui morar com uns tios, descobri que poderia estudar à noite, e o curso de arquitetura parecia bacana. No primeiro ano, já sabia que era o que eu queria'', diz.
O nome nas páginas de revistas também atraiu uma clientela estrelada. De Antonio Fagundes a Regina Duarte, passando pelo diretor de teatro Jorge Takla, de quem partiu o convite para que Tibery assinasse o cenário do espetáculo ''Vítor ou Vitória'', com Marília Pêra. ''Gosto muito de iluminação'', avisa o arquiteto, que adoraria fazer outros trabalhos no palco. ''Mas infelizmente as produções no Brasil têm muitos problemas'', completa.
A diferença em trabalhar com artistas é que o processo de criar intimidade com o cliente não é completo. ''Eles não tem muito tempo, e se eles estão em evidência, fica difícil ir à uma loja porque o assédio é grande'', diz. Com os clientes que não são famosos, ''há uma intimidade muito estreita entre a gente. Até porque eu sei até onde eles vão guardar as cuecas'', brinca Tibery.
Em Londrina, além da participação na MD&I, onde assina o Ateliê do Artista em parceria com a irmã artista plástica, o arquiteto também deixou marcas nas moradas dos familiares. ''Além das duas casas da Wania, também fiz o projeto para três sobrinhos. Falta só um, que estou tentando convencer'', avisa. Como um trabalho sempre puxa outro foi assim em Brasília, onde ele começou com um projeto e hoje já são 13 apartamentos com sua assinatura , é bem capaz que ele passe a visitar a cidade mais e mais vezes. ''Já tenho uma boa equipe de mão-de-obra aqui'', conta.
Mesmo sem rodinhas nos pés, Tibery vai longe nos seus planos para o futuro. ''Quero ir para o Japão'', confessa. ''Eu estou sempre olhando tudo, fotografando tudo. No Japão, as coisas acontecem muito rapidamente'', diz, encantado. Há alguns anos, como um dos muitos prêmios que já recebeu, o arquiteto ganhou uma viagem para a Austrália. Voltou inspiradíssimo e quer logo repetir a dose no outro lado do mundo.
Na sua prancheta só falta aparecer o projeto de um restaurante. ''Não sou de ir para festas e boates. Quando saio de casa é para comer, e aí fico reparando. Num restaurante, as pessoas querem estar cercadas de um cenário bacana e de uma luz bem tratada'', ensina. Não parece nada complicado para quem já projetou um cemitério. ''Foi para uma amiga minha, a Mara Carvalho (atriz). Quando o pai morreu, ela percebeu que a cidade em que ele foi enterrado, Ourinhos (SP), tinha necessidade um cemitério''. Apesar de ter feito todas as pesquista, o projeto acabou não sendo levado adiante pela atriz'', lembra. ''É bem mais difícil criar para mortos do que para vivos'', garante. ''São muito detalhes'', diz.


