Esculpindo sonhos
PUBLICAÇÃO
domingo, 07 de fevereiro de 2010
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
O escultor curitibano Luiz Gagliastri coleciona prêmios e títulos de peso. No ano passado, foi homenageado pela Academia Francesa de Artes, Ciências e Letras com uma medalha de ouro pelo conjunto da sua obra. Convidado para ser membro da consagrada instituição, ele também integra o Centro Internacional de Escultores dos Estados Unidos. Respeitado internacionalmente, o artista começa a se tornar conhecido no Brasil depois de se ver envolvido em um fato curioso.
Uma gigantesca obra de autoria do curitibano, instalada na cidade paulista de Americana, foi demolida apenas um ano depois de inaugurada. O episódio vai virar caso de Justiça e o autor promete entrar com ação contra a prefeitura da cidade. Enquanto isso não acontece, porém, projetos assinados pelo escultor ganham cada vez mais força, assim como a projeção do artista.
Com duas grandes obras que devem ser inauguradas ainda este ano - um monumento em Arapongas, em homenagem póstuma ao empresário Adriano Romero, e um portal em Pinhais, na Região Metropolitana de Curitiba - além de uma grande exposição em São Paulo, Gagliastri quer concluir o que antes considerava um sonho: a transformação do seu ateliê em um centro cultural. O espaço, de 37 mil metros quadrados, instalado ao lado do Alphaville Graciosa, em espaço privilegiado de Curitiba, já abriga casa, forno e algumas obras gigantescas do escultor espalhadas pelo jardim (como a matriz de 8 metros de altura das esculturas que foram polêmicas em Americana).
A meta agora é terminar o lago e espalhar novas esculturas pelo terreno. O espaço, conforme adianta o artista, será aberto a visitantes e terá até mesmo uma loja. ''O espaço já é considerado um ponto turístico de Pinhais'', comemora o escultor. De bem com a vida e com a profissão que escolheu ele está numa das melhores fases da vida, conforme relata. Depois do episódio (a polêmica em Americana) que o deixou deprimido e preocupado com o futuro da carreira, ele salienta: ''É como se diz por aí. Do limão, a gente deve aprender a fazer uma doce limonada''. Ele fez.
Contratado para fazer o projeto do portal da pequena cidade paulista, ele viu seu projeto, literalmente, desmoronar, depois que a prefeitura da cidade ordenou a demolição do portal, pago com dinheiro público. ''A justificativa é que as esculturas eram gordas e estavam nuas'', reclama o escultor. O episódio ainda vai render muitos desdobramentos, que ele promete revelar em breve. Até lá, é bom ficar de olho na história do escultor, que deve ganhar ainda mais holofotes.
Nascido em Curitiba, Gagliastri passou a infância na cidade de Lages, em Santa Catarina. Com mais três irmãos, ele foi o único a interessar-se por arte desde a infância. ''Quando era criança eu já esculpia em sabonetes e passava o tempo inteiro criando formas'', conta. Autoditada, ele defende que o talento é algo inato. ''A arte é uma coisa que está latente. Ou você nasce atista ou nunca será um artista. Um dom é diferente do que você pode aprender na escola'', enfatiza.
Mas quando chegou a hora de escolher uma profissão, Gagliastri enfrentou o preconceito. ''Naquela época ninguém podia viver de arte. Ser artista era sinônimo de ser homossexual ou drogado'', conta. Para tentar aplacar os ânimos familiares e da sociedade em que vivia, ele até tentou cursar Engenharia, mas não concluiu o curso. Em vez disso, optou por sair do País e dedicar-se integralmente ao seu talento.
Na década de 80, logo depois da sua primeira exposição individual em Curitiba, ele seguiu para Nova York, onde morou por quase uma década. Foi lá que aprendeu novas técnicas no Johnson Atelier e no Sculpture Center de Nova Jersey e tornou-se membro do Internacional Sculpture Center e do grupo de artistas da United Nations of America (UNAC-UNA).
Gagliastri classifica a experiência como fascinante. ''Curitiba é campeã mundial do autofagismo. Se não tivesse saído da cidade, não teria me tornado quem eu sou'', acredita. Obstáculos? É claro que ele os enfrentou, mas conclui, com a experiência e serenidade de quem alcançou o sucesso: ''Os obstáculos foram a garante sorte na minha carreira''.


