A mãe, Maria da Graça, é comerciante; o pai, Francisco, é técnico orçamentista. Sempre gostaram de rock’n’roll. O irmão mais velho, Humberto, de 14 anos, treina nas equipes de base do Corinthians, e a única música que fala ao seu coração é a da torcida gritando gol. Mas desde que, há três anos, descobriu a música erudita, Hugo Campanha da Silva, 12 anos, paulista de Itanhaém que hoje mora em São Paulo, decidiu que vai ser maestro.
Aluno dos cursos de Música Antiga, de Elimar Machado, e de Flauta, de Helcio Muller, do Festival de Música de Londrina, Hugo se apresentou sábado passado, na Catedral, e tem nova apresentação marcada para sábado que vem.
Ele conta que descobriu a música ‘‘meio que por acaso’’. Ainda morava em Itanhaém quando o maestro Eduardo Martinelli foi à sua escola, divulgar uma oficina de flauta. Como as vagas eram limitadas, pedalou sua bicicleta mais depressa na volta para casa e, mal entrou, já foi pedindo para a mãe ligar rapidinho e fazer sua inscrição, antes que fosse tarde. Eram sete vagas e ele foi o sexto a se inscrever.
‘‘Lembro-me daquele dia como se fosse hoje’’, diz Maria das Graças, que veio a Londrina acompanhar o filho em seu primeiro festival. ‘‘Ele estava vermelho, esbaforido. Eu só tive tempo de perguntar: tem que pagar alguma coisa? Ele respondeu que não e eu imediatamente peguei o telefone’’, conta.
O que Maria das Graças não imaginava é que o garoto fosse levar a música tão a sério. Tanto que nem se preocupou em comprar uma flauta para Hugo; ele usava a do professor. Mudou de idéia, no entanto, ao fim dos quatro meses de oficina, quando foi assistir ao filho tocar com a Orquestra de Câmara da cidade. ‘‘Fiquei arrepiada, não acreditava que era meu filho tocando. Foi uma emoção inesquecível’’, relembra.
Hugo passou, então a ter aulas de flauta (agora uma flauta só dele) com a professora Shirley Priscila Pereira, enquanto o professor Martinelli lhe ensinava violino. Participava de audições, tocava em solenidades – uma, inclusive, com a presença do ministro da Cultura, Francisco Weffort.
Na escola, os meninos torciam o nariz, as meninas ‘‘até que davam força’’. Mas quando foi tocar para eles, num evento organizado pela professora, ficou sem platéia. ‘‘Quando uma colega tocava violão, estava todo mundo lá, atento e aplaudindo. Mas, enquanto eu me apresentava, os alunos foram saindo da sala até ficarmos só minha mãe, a professora e eu’’, relata. Maria das Graças ficou revoltada e jurou que nunca mais o filho tocaria em qualquer lugar. Hugo, ao contrário, não parece muito chocado: ‘‘Cada um na sua’’...filosofa.
Por sugestão da professora Shirley, que achava que ‘‘Itanhaém estava ficando pequena demais para o talento do garoto’’, Hugo prestou concurso para bolsa de estudos na Escola Municipal de Música de São Paulo, para o curso de flauta. Eram 600 candidatos e uma vaga; e ele conquistou a vaga.
Não tinha mais jeito; a família mudou-se para São Paulo. E já que estavam lá mesmo, Hugo decidiu tentar outra bolsa, agora para violino. Quatrocentos candidatos e uma vaga. Novamente uma vaga para Hugo.
‘‘Ele provavelmente é o primeiro aluno da Escola Municipal de Música, que tem 30 anos e é um centro de referência musical no País, a conseguir duas bolsas de estudo’’, orgulha-se a mãe. Hugo está no segundo ano de flauta, como aluno de Marília Macedo, e no primeiro de violino, com o professor Márcia Fukuda.
Desde que se mudou para São Paulo, o Hugo tem mergulhado no mundo da música. Exceto pela manhã, quando faz a sexta série, dedica a maior parte do tempo à sua grande paixão. Todo domingo assiste à Sinfonia da Cultura, no Sesc Belenzinho e já tem cadeira cativa no Teatro São Paulo. Adora Bach, Beethoven e Vivaldi.
Já tem duas composições próprias, para flauta, e está compondo uma terceira, ‘‘com um sotaque bem brasileiro’’, como ele mesmo define. Aos seus dois grandes ídolos, os maestros Roberto Minczuk e John Neshling, somou mais um, que conheceu agora, no Festival de Londrina, o maestro Norton Morozowicz. ‘‘Gostaria muito de conhecê-lo’’, revela. Minutos depois, Morozowicz entra na Sala de Imprensa, onde Hugo dá a entrevista, e os olhos do garoto brilham. Os dois são apresentados e o pequeno músico toca para o maestro, emocionado e com ar solene. Depois, diz para Morozowicz: ‘‘Quero ser maestro. Tão bom ou melhor do que o senhor’’.
E se ele sonha em reger, também sonha com uma orquestra. ‘‘A Sinfônica de São Paulo’’, responde sem hesitar. E acrescenta ‘‘ou a Sinfônica de Nova York’’. Por que não?

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