ENTREVISTA: MAX GEHRINGER Saiba o que faz a diferença no mercado de trabalho
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de agosto de 2008
Marian Trigueiros<br> Especial para a Folha 
Max Gehringer é administrador de empresas e teve uma carreira bem sucedida como executivo e presidente de grandes empresas, como Pepsi-Cola, Pullman e Elma Chips. Em 1999, abriu mão do poder de alto executivo para dedicar seu tempo a escrever e a fazer palestras pelo Brasil. Por e-email, o consultor respondeu as principais dúvidas de jovens que ainda não iniciaram a carreira ou acabam de entrar no mercado de trabalho.
Você tem alguma dica para quem ainda não descobriu sua verdadeira vocação? O que fazer quando não se sabe qual rumo tomar na carreira profissional?
Vocação é uma palavra meio mística. Ela veio do latim, e significa ''chamado''. É aquela coisa de alguém ser convocado por uma voz interior, ou por um chamamento divino, para seguir um determinado caminho. Por isso, eu sempre achei que vocação se aplica mais ao clero do que à carreira. No mercado de trabalho, a coisa é mais racional. Um jovem deve avaliar bem as opções que o mercado oferece e aí se decidir por um curso.
Considerando o dinamismo do mercado, na sua opinião, quais são as profissões que estão em alta no momento. E daqui cinco anos?
Há estatísticas bem claras a esse respeito. Em relação ao número de formandos, as profissões que ofereceram mais vagas nos últimos três anos foram Engenharia, Administração e Informática. No outro extremo, em que há muitos formandos para poucas vagas, estão Direito, Jornalismo e Psicologia. Nada indica que esse quadro irá se alterar nos próximos cinco anos.
Quais as dicas de como proceder em uma entrevista e de como preencher um bom currículo?
No caso da entrevista, preparar-se bem, obtendo informações na internet sobre a empresa que está oferecendo a vaga. E usar números e fatos da empresa na hora de responder. É isso que impressiona o entrevistador, e não uma resposta certa para a pergunta ''Qual é o seu maior defeito?'', por exemplo. No caso do currículo, é preciso lembrar que empresas recebem dezenas de currículos todos os dias. Para não ser apenas mais um na pilha, o jovem deve escrever uma carta pessoal, de um ou dois parágrafos, explicando por que ele quer trabalhar naquela empresa, só naquela, e em nenhuma outra empresa do mundo. Essa pequena carta de apresentação é que faz a diferença, porque os currículos estão cada vez mais iguais.
O serviço de RH e as empresas especializadas em selecionar profissionais são cada vez mais atuantes e criteriosas. Seria possível traçar o perfil do profissional que as empresas estão procurando?
''O perfil'' é uma definição de cada empresa. Existem empresas que rejeitariam um candidato que aparecesse numa entrevista vestindo jeans e camiseta. Outras rejeitariam alguém que aparecesse de terno. Há empresas conservadoras e empresas liberais. Num processo seletivo, o candidato com mais chance é aquele que mais conseguir se parecer com a empresa. Por isso, é preciso pesquisar como a empresa é, e o que ela espera de seus funcionários. Uma boa maneira de fazer isso é conversando com pessoas que já trabalham nela.
O que as empresas priorizam e o que é mais valorizado hoje: talento, conhecimento teórico ou experiência?
A formação escolar ajuda alguém a ser admitido. Quem estudou em escolas com mais renome leva vantagem. Mas, depois que a pessoa é contratada, essa vantagem desaparece e o que conta são os resultados práticos. Mas é importante que o jovem comece a trabalhar o quanto antes, ali pelos 18 anos, para adquirir experiência. Em um processo seletivo, uma tonelada de diplomas não compensa a falta de um quilo de experiência prática.
Os jovens, cada vez mais buscam por cursos de especialização e aperfeiçoamento. Porém, as empresas não conseguem profissionais qualificados para preencher seu quadro de trabalho. Qual o motivo dessa contradição?
Estão faltando técnicos de nível médio, e sobrando formandos em cursos superiores. Pode parecer um paradoxo, mas um mecânico que fala inglês tem muito mais chances de conseguir um emprego do que um bacharel em Direito com MBA em Gestão de Negócios. Hoje, o maior índice de desemprego está na faixa dos jovens entre 18 aos 24 anos, com curso superior. Para técnicos dessa mesma faixa etária, sobram vagas.
Há diferença entre o profissional de hoje e o profissional do passado? O que mudou?
Até a década de 1980, um profissional entrava numa empresa pensando em ficar nela até a aposentadoria. A carreira era, portanto, delegada a uma empresa. Hoje, cada um cuida de sua vida e as mudanças de emprego se tornaram rotineiras. Há 30 anos, um profissional passava por três ou quatro empresas na vida. Atualmente, o tempo médio em uma empresa é de dois ou três anos.
Quais as qualidades mais admiradas atualmente num profissional e que impulsionam sua carreira?
O mais importante é entender o que a empresa espera do funcionário, e superar os objetivos que foram dados. Todos os profissionais bem sucedidos que eu conheço começaram cumprindo essa regrinha simples. Os que empacaram na carreira foram os que fizeram o contrário, aqueles que ficaram falando o que eles esperavam da empresa, como reajustes ou promoções, sem demonstrar na prática, através de resultados, que mereciam isso.
Inovação e resultados são algumas das características das organizações no mercado atual. De que forma os profissionais precisam se preparar para enfrentar esse mercado e como é possível as pessoas se manterem motivadas neste mundo de competitividade? Quais são as principais responsabilidades, atribuições, dificuldades e desafios que jovens encontram no início da carreira?
O conselho que eu dava aos jovens que ingressavam nas empresas em que eu trabalhava era este: dê um passo de cada vez. Se alguém lhe der um trabalho simples e chato, mostre entusiasmo e disposição para executá-lo. O jovem terá alguns meses para conseguir a confiança dos superiores. Os que ficam fazendo reclamações do tipo ''estudei a vida inteira e meu chefe só me manda tirar xerox'', não conseguem essa relação de confiança.
O medo do desemprego preocupa jovens profissionais e até mesmo quem ainda não ingressou nas universidades. Existe algum segredo para se diferenciar num mercado competitivo? O que é preciso fazer para se manter no mercado? Planejar a carreira é uma saída?
O segredo chama networking, a palavra inglesa para ''contatos''. Atualmente, entre 70% e 90% das vagas, dependendo da área e da empresa, são preenchidas por indicação direta. O jovem deve, o quanto antes, identificar pessoas que poderão ajudá-lo com essas indicações. Os professores são uma ótima fonte de referência. Como também são os vizinhos, parentes, e amigos dos pais. Esperar se formar para só aí começar a mandar currículos é a alternativa que dá menos resultados.
Existe algum tipo de comportamento e atividades durante a vida acadêmica que beneficie a vida profissional após a graduação?
Sim. Fazer parte do diretório acadêmico ou da empresa Junior são atividades extra-curriculares, que poderão diferenciar jovens que cursaram a mesma faculdade. Prestar serviço voluntário a uma ONG também é um belo diferencial, porque cada vez mais empresas estão se voltando para a responsabilidade social. O importante é não se ater apenas à presença nas aulas.
Que erros, tanto profissionais quanto pessoais, da juventude podem interferir na vida profissional?
Ser impaciente é um. Ser muito crítico com relação ao chefe direto é outro. Os dois juntos são uma desgraça para a carreira.
Existem perspectivas de sucesso e prosperidade financeira àqueles que desejam ingressar em carreiras menos formais, ou seja, àqueles que não desejam trabalhar no mundo corporativo, mas seguir em outros campos como música e artes?
Sim, mas aí entra uma palavra que as empresas gostam muito de usar: talento. A verdade é que um administrador não precisa ser necessariamente talentoso. Ele poderá aprender a executar bem um trabalho e, com o tempo e o aprendizado, irá progredindo na carreira. Um músico ou um artista plástico precisa demonstrar que tem talento desde o primeiro dia. Se não tem, é melhor se incorporar ao mercado formal de trabalho.
Qual o seu conselho àqueles que desejam obter sucesso no caminho escolhido?
Nunca desanime. Uma carreira profissional terá muitos momentos em que parece que nada está acontecendo e nada vai acontecer. Haverá muitas decepções ao longo do caminho. Não existe o trabalho perfeito na empresa perfeita. O importante é nunca deixar de estudar e de aprender, e não desistir quando um obstáculo aparece, porque muitos deles aparecerão.
Na sua opinião, o que é um profissional de sucesso?
Aquele que vê o trabalho como um meio, e não como um fim em si mesmo. Aquele que sabe aproveitar os frutos do trabalho para desfrutar a vida. Essa é uma lição que já tem 3 mil anos, e está na Bíblia, no livro do Eclesiastes.


