Curitiba - No livro que reúne os 60 designers mais importantes do mundo, ele está lá. Antonio Bernardo é o único brasileiro citado na recente publicação Modern Jewellery Design (Design da Joalheria Moderna), do alemão Reinhold Ludwig. Não por acaso. A trajetória do carioca filho de ourives, que abandonou o curso de Engenharia para se dedicar ao design de jóias, é repleta de prêmios internacionais e reconhecimento, mas o que o eleva à condição de um dos melhores do mundo é seu constante aprimoramento. Ele costuma dizer que não faz coleções, mas agrupa criações de peças que são quase como uma continuidade daquelas que já existiam. Na última terça-feira, ele apresentou a um seleto grupo as novas jóias, além de peças assinadas por ele e que vão integrar uma importante feira de Milão.
O evento aconteceu no Jardim Botânico, no Rio de Janeiro, onde Bernardo empresta seu nome ao orquidário, pois as orquídeas também são objeto da paixão do designer. Filho do ourives Rudolf Herrmann, ele e as três irmãs cresceram entre ferramentas de ourivesaria e relógios. ''Eu nasci nesse ambiente, mas não tinha a menor ideia de que isso se transformaria na minha profissão'', revela. A influência é utilizada por ele como uma explicação para sua atração pelo tema. O pai, no entanto, queria que Bernardo seguisse uma carreira formal e ele foi sendo conduzido para a formação acadêmica.
Escolheu a Engenharia Mecânica, mas antes mesmo de cursar o primeiro ano, fez uma viagem à Suíça e acumulou estágios em fábricas internacionais. ''Quando voltei para o Brasil senti um desnível muito grande entre o primeiro mundo e aqui e acabei me desinteressando pela faculdade'', lembra. O desinteresse se transformou em criatividade. E foi por acaso que ele desenhou - e encomendou - a sua primeira peça, um anel.
''Quando ficou pronto fiquei emocionado em ver algo que partiu do desenho se transformar em objeto'', conta. A partir daí, Bernardo não parou mais de desenhar jóias. E menos de uma década depois, ele passou por uma transformação: ''Eu desenhava, mas não sabia fazer e isso me incomodava. Até que um dia comprei ferramentas e comecei a fazer minhas próprias peças''. Até o final da década de 70, esse processo foi bem artesanal, feito em um ateliê dentro da casa do artista.
Mas não demorou a montar a primeira loja (agora já são cerca de 20, entre lojas e pontos de vendas, espalhadas pelas cidades brasileiras, Curitiba incluída). ''Todo esse processo foi orgânico, aconteceu de forma natural. Primeiro eu montei uma loja para atender a demanda e depois comecei a ver as peças copiadas em outros lugares''. Foi quando aconteceu uma coisa curiosa: um corretor ofereceu uma loja para o designer em Ipanema, região em que as pessoas mais diziam ter visto ''jóias'' suas, mas que na verdade eram cópias das suas criações. Bernardo aceitou. Começava assim seu processo de expansão.
E foi um pulo para seu trabalho começar a ser reconhecido internacionalmente.
Atualmente, ele coleciona prêmios no iF Product Design Award, competição anual realizada na Alemanha e considerada o Oscar do Design. Em 2004, ele recebeu o selo do iF com os anéis Ciclos e Expand, além de conquistar o troféu Prata. Em 2005, foi premiado com o anel Fold; em 2006, com os anéis Puzzle e Balanço e, em 2007, com o brinco Impulso. Também na Alemanha conquistou o Red Dot Design Award 2006, pelo anel Expand e, com outro anel - o Celebration, foi destacado como prêmio IJL 2004, na feira International Jewellery London.
Ser uma das personalidades que integram o livro Modern Jewellery Design é mais um reconhecimento. ''E significa ser reconhecido por quem sabe'', complementa Bernardo. O livro retrata a evolução do design moderno da joalheria de produção em série. Reinhold Ludwig, o autor do catatau de 400 páginas, foi durante as últimas três décadas o editor-chefe das revistas Scmuck Magazin e Art Áurea e acompanhou atentamente o desenvolvimento do design na joalheria moderna nos últimos anos. No livro ele faz, inclusive, uma retrospectiva das origens da joalheria moderna, citando movimentos como Art Nouveau, Art Deco, Bauhaus e Neue Sachlichkeit (Nova Objetividade).
Para Bernardo, o fato de ele ser o único brasileiro citado no livro não quer dizer que a joalheria nacional não tem boas apostas. ''Mostra que não existem outros brasileiros trabalhando dessa maneira'', complementa, modesto. Pai de duas filhas, que já começam a se interessar pela arte do pai, Bernardo divide atualmente a paixão pelas jóias com o amor pelas orquídeas. As plantas apareceçam na vida dele, também por acaso, há mais de 20 anos. Foi quando a primeira filha dele, Bárbara, hoje com 24 anos, nasceu e ele ganhou uma orquídea de uma amiga. Quando a floração da planta acabou, ele ligou para essa mesma colega perguntando o que ele podia fazer. ''Cuide da planta'', ela me respondeu. Com a casa ocupada com os cuidados ao bebê, ele se voltou também para os cuidados da orquídea e passou a pesquisar mais sobre a espécie tão peculiar.
O conhecimento virou verdadeira paixão e, quando ele soube, há dez anos, que o Jardim Botânico do Rio de Janeiro estava procurando parceiros para contruir e manter um orquidário, não se fez de rogado. Hoje Antonio Bernardo tem mais de 600 espécies da planta e realiza duas exposições anuais no Jardim Botânico. Atualmente, ele divide seu tempo entre as plantas e as jóias. Mas alguém duvida que as duas coisas guardam estreitas semelhanças?

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