Quando o músico e compositor Robinson Borba assumiu, no último dia 10, o cargo de diretor-técnico de desenvolvimento da Companhia de Desenvolvimento de Londrina (Codel), não houve conhecedor da história cultural da cidade que não estranhasse. Robinson Borba, o autor de ''Mente Mente'', gravada por Ney Matogrosso e que frequentou as FMs pés-vermelhas em meados da década passada interpretada pelo Chaminé Batom? Robinson Borba, aquele mesmo que é regularmente citado nos mesmos parágrafos que Arrigo Barnabé e Tetê Espíndola?
Antes que alguém se pronuncie a respeito de uma suposta onda de músicos assumindo cargos públicos (vide a nomeação de Gilberto Gil para o Ministério da Cultura), é importante lembrar que os personagens de músico e engenheiro são interpretados irmanamente por Robinson há cerca de 30 anos, quando sua graduação no ensino superior em Curitiba já coincidia com a paixão irresistível pelo violão.
''Ao mesmo tempo em que exercia a engenharia, estava participando de festivais, imerso em toda aquela agitação. O Arrigo Barnabé era meu amigo de infância. Eu não via nenhum impedimento, nenhuma incongruência em me dedicar ao mesmo tempo às duas atividades. Me parecia natural estar envolvido com tudo'', lembra o compositor.
Por levar as duas carreiras a sério demais, Robinson por vezes foi obrigado a optar entre uma e outra. Entre 1980 e 85, o engenheiro foi sobrepujado por uma dedicação ''integral'' à música, como lembra o compositor. Naqueles cinco anos, Robinson criou o selo ArtZoo, em São Paulo, produziu discos de Arrigo e de Tetê e gravou seu único álbum, ''Rabo de Peixe'', lançado em 1984. ''Nesta época, produzi uns duzentos shows do Arrigo. Mas o meio artístico começou a me decepcionar, a me cansar. Foi quando decidi voltar à engenharia'', explica o músico.
Em 1986, Robinson fez mestrado na Universidade de São Paulo (USP), em Engenharia Urbana, com estudos sobre o mercado imobiliário e o meio ambiente. Ao longo dos anos, foi acumulando currículo nas duas carreiras: como engenheiro, passou pelo Banco do Brasil, Banespa, criou um curso de especialização na Pontifícia Universidade Católica (PUC) do Paraná. Na música, fez trilhas para teatro, seguiu fazendo shows e realizou um amplo trabalho de pesquisa sobre a música sertaneja. Robinson até se aventurou por outras artes, ao escrever um roteiro de cinema.
O retorno para Londrina, cidade onde Robinson nasceu e na qual não morava há 23 anos, foi proporcionado por um encontro com o prefeito Nedson Micheleti há quatro meses, quando o músico contou sobre sua recém-apresentada tese de doutorado, que versava sobre cidade cognitiva. Nedson gostou e o convidou para o cargo na Codel. ''O fato de eu pensar como músico e poeta me dá uma visão mais abrangente, não só o ponto de vista de um engenheiro'', acredita o compositor, que estava dando aulas de planejamento urbano na Universidade Tuiuti do Paraná (UTP), em Curitiba.
De fato, a forma como Robinson explica seus objetivos no novo emprego deixam escapar uma ponta de sensibilidade incomum no linguajar de homens de terno e gravata. ''Não deixando de lado outros aspectos da atividade industrial, como o empresariado, o que pretendo fazer em Londrina é estimular um senso de cooperação que leve ao desenvolvimento econômico. A cidade, historicamente, foi construída a partir disso. Faltava água num bairro e a população realizava um mutirão, não esperava o governo resolver. A própria Sercomtel nasceu assim. E isso se perdeu completamente ao longo das décadas'', lamenta.
Robinson acredita que cooperativas e fábricas possam ser criadas em regiões carentes a partir dos talentos naturais de seus moradores, seus potenciais, de forma ''a gerar um modelo de colaboração que leve ao desenvolvimento''. Ele cita bairros pobres como Monte Cristo e Santa Fé, na zona leste, como possíveis primeiros pontos de atuação deste esforço. ''Será um trabalho de dentro da comunidade, e não de cima para baixo. Por mais que alguém tenha sido criado sem recursos, nenhuma pessoa é desqualificada a ponto de não poder ajudar com alguma coisa'', argumenta.
No relatório do Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) dos municípios brasileiros, divulgado recentemente, Londrina ficou em 10º lugar no Paraná e em 189º em todo o Brasil. Em março, a Codel deve realizar seminários para discutir formas de melhorar estas colocações. Ao ser entrevistado pela Folha, Robinson pediu para ser fotografado no Museu Histórico de Londrina. ''Este local lembra o empreendedorismo original da cidade, a forma como a cooperação comunitária ajudou para o seu desenvolvimento'', justificou o compositor.
O cargo na Codel, por hora, acabará dando férias forçadas ao músico. ''É muito trabalho'', diz Robinson, que explica que há anos tenta finalizar seu segundo álbum, o sucessor de ''Rabo de Peixe'' que foi relançado em formato digital em 2001 e mereceu shows de divulgação na cidade no ano passado. O segundo disco ganhou um ritmo de produção mais acelerado no segundo semestre do ano passado, mas ainda está longe de ficar pronto. ''Tenho esperanças de completá-lo até o final do ano'', suspira.

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