Qualquer pessoa que viaje para a Índia, mesmo para poucos dias de turismo, diz que volta ''diferente''. Conhecer o país cheio de cores, aromas e contrastes, com um povo profundamente religioso, é uma experiência impactante que mexe com qualquer um. Que dirá então quando o viajante é instrutor de ioga, profundamente dedicado ao seu ofício, que passou 78 dias conhecendo diversas regiões do país? Rodrigo Miró de Córdova acaba de voltar dessa viagem. E diz, com certeza inabalável, que mudou bastante sua forma de encarar a vida.
Sentado na antessala de seu estúdio de ioga, em um tranquilo bairro residencial de Curitiba, Rodrigo fala com voz pausada, sorvendo devagar uma das muitas xícaras de chá de ervas que consome ao longo de um dia. ''Estou menos exigente. Aprendi a observar e aceitar mais. Entendi claramente que a ioga une corpo e mente. Além disso, passar tanto tempo longe de casa e do meu trabalho me fez valorizar o que temos aqui no Brasil: nosso povo, a natureza, minha cidade, os amigos e a família'', relata.
Ele conta que sentiu saudades do seu ''cantinho'', e não é para menos. Rodrigo e seus privilegiados alunos praticam a modalidade Iyengar (nome do mestre indiano que a desenvolveu) em um lugar especial. Fica nos fundos da casa da mãe de Rodrigo. É um chalé de madeira, todo adaptado para as aulas. No ar, sempre há o cheiro gostoso de chá e algum incenso suave. O aconchego do piso e das paredes é envolto pelo silêncio e pelo verde do jardim bem cuidado. todo o ambiente favorece a meditação e a prática dos exercícios.
A rotina diária de Rodrigo, que mora perto do estúdio, é quase totalmente voltada para a ioga. Pela manhã e à noite, ele orienta três turmas. O período da tarde é reservado para aperfeiçoamento pessoal das técnicas Iyengar. Ele pratica com um grupo pequeno de pessoas, que estão se qualificando para atuar como instrutores. No tempo que sobra, ele se alimenta (pouco), bebe chá (muito), cuida da vida pessoal e, eventualmente, lê mapas astrológicos, quando requisitado.
Mas nem sempre foi assim, apesar de ter começado a praticar há 16 anos. Depois de formado em Administração pela Fesp, viajou a Barcelona para estudar Artes, uma de suas paixões. Em seguida, morou na Alemanha, onde fez um curso de design de jóias. ''Como eu continuava praticando ioga e outras pessoas da escola também queriam fazer, surgiu a proposta para que eu orientasse o grupo, em um espaço cedido pelo próprio instituto, em Hanau'', relembra. Rodrigo aceitou, e não parou mais.
De volta a Curitiba, depois de sete anos morando fora do país, abraçou de vez a carreira. Queria ficar mais perto da mãe, viúva, para fazer-lhe companhia. O chalé de madeira, que já havia sido estúdio fotográfico de uma das irmãs, transformou-se em local para as aulas. Hoje, afirma ter certeza de que este é seu caminho. ''A ioga praticamente apareceu na minha vida. Hoje sou feliz pelo que tenho de conhecimento e que posso oferecer aos demais''.
Terra de contrastes
Quase tudo que se ouve falar sobre a Índia é verdade. Rodrigo Córdova confirma, depois de passar mais de dois meses viajando pelo país, que o trânsito é mesmo caótico, que é uma terra de grandes contrastes entre miséria e opulência, que o povo é muito religioso. Mais do que isso, ele conheceu de perto coisas que turistas não veem. ''Toda aquela pobreza não gera violência. As pessoas são contemplativas, aceitam a situação em que vivem, sem desejar tirar dos que possuem mais''.
Ele conta que esse desprendimento impressiona as pessoas acostumadas a manter a higiene e a aparência bem cuidada. ''É comum as pessoas terem dentes ruins, pele feia, aspecto descuidado. Elas não ligam'', explica. E as condições de higiene, realmente, deixam a desejar. ''Não fiquei em hotéis cinco estrelas, não fiz turismo de luxo. Conheci de perto como eles vivem e posso dizer que tive sorte em não ficar doente, pois é comum estrangeiros passarem mal por causa da alimentação, falta de higiene e coisas assim'', observa, lembrando que teve o cuidado de beber água mineral ou chá.
O que resume bem a Índia, diz Rodrigo, é a quantidade de gente em todos os lugares. ''Tudo é muito cheio, as pessoas vivem espremidas e estão acostumadas com isso. O povo não tem espaço nem privacidade. Aqui no Brasil estamos habituados a ter espaço, é muito diferente. Sente-se no ar muita poluição, sonora, visual e demográfica''.
Tirando o lado ''mundano'' da viagem, Rodrigo se empolga ao falar das experiências que viveu como aprendiz de ioga e da cultura indiana. Conheceu templos incríveis. Ficou impressionado com o crematório ao ar livre que funciona na antiga cidade de Benares, hoje Varanassi - uma das mais antigas do mundo. ''Os idosos sonham em morrer nessa cidade, onde se limpam as impurezas do corpo'', explica.
Em Kajuraho, visitou templos tântricos imensos, lindas torres, com todas as paredes enfeitadas com esculturas. Banhou-se no Ganges como os indianos, e conheceu ainda o famoso rio em uma cidade mais ao Norte, onde ''o Ganges é limpo e verde, maravilhoso, em meio a montanhas''. Visitou também as cavernas em Ajanta e o Taj Mahal em Agra.
Rodrigo praticou ioga em vários lugares, mas fala especialmente do Instituto Ramamani, onde estudou durante 30 dias. Ali, em Pune, cerca de 100 quilômetros ao sul de Mumbai, vive o mestre B.K.S. Iyengar, criador da modalidade que leva seu nome. Saudável aos 90 anos, Iyengar não dá mais aulas - dois filhos dele levam a prática aos pupilos. Mas, toda tarde, ele aparece na biblioteca do instituto para ler e pesquisar. Foi em uma dessas ocasiões que Rodrigo encontrou-se pessoalmente com o mestre. Conversou com ele e conseguiu até fazer uma foto ao lado de Iyengar.
''Eu poderia ter viajado para a Índia em outras ocasiões, mas acredito que valeu a pena esperar. Tudo correu bem, fui no momento certo, sinto que estava preparado. E, claro, planejo outras viagens'', conclui. Por enquanto, os planos a curto prazo são manter as aulas para suas três turmas, construir um site próprio (por enquanto, Rodrigo está listado no website de professores credenciados de Iyengar no Brasil) e preparar uma palestra para contar o que viu e aprendeu nessa longa viagem.

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