Encontro fashion
PUBLICAÇÃO
sábado, 28 de outubro de 2006
Ana Clara Garmendia<br> Equipe da Folha 
Paris- Dia desses, durante uma passagem relâmpago por Curitiba, estive na loja do estilista Roberto Arad. Lá, como sempre acontece, vi umas bolsas interessantíssimas. Eram peças simples, de formatos diferentes, mas feitas com aros de cetim colorido que, costurados uns aos outros, remetiam a formas estéticas parecidas com o trabalho que Paco Rabanne começou na década de 70 (foi ele quem colocou novos materiais na moda como um plástico à base de acetato de celulose não inflamável, e também trabalhou muito com metal nas roupas). Quem faz essas bolsas, Arad??? O Marcos Novak.
José Marcos Novak é um paranaense nascido em Astorga, com uma vida cheia de bons casos para contar até chegar nos dias de hoje, quando suas bolsas, além de serem vendidas em boas lojas de Curitiba, acabam de desembarcar na Ellus 2nd Floor, em São Paulo. Para quem não sabe, esse é um projeto da grife paulistana que abre as portas para novos talentos brasileiros. E Novak é um deles.
As tais bolsas, além de serem esteticamente lindas, tem um outro apelo por trás: são feitas em parceria com uma cooperativa, a Coperáguia. Mas sua história precede os dias de hoje na vida do arquiteto que queria ser padre.
Desde criança, uma relação com estética, espírito de comunidade e arte, já era processada em sua mente. Astorga é uma cidade pequena cercada de fazendas e sítios com gado e plantações de café e uma imensa igreja ao centro, que meu pai e meu avô ajudaram a construir. Minha infância, como era de se esperar, se passava entre o campo, as plantações de café e as missas e procissões. Havia uma estreita ligação entre a minha família e toda a liturgia da religião católica. Minha mãe era professora de catequese e comentarista nas missas. As pessoas tinham o hábito de se vestir muito bem para esses encontros. Roupa nova, sapato novo, eu me lembro bem, eram reservados para a missa de domingo. Havia um certo glamour nesses encontros, conta.
Além dessa liturgia toda havia ainda o contato com uma tia que costurava. Era junto a ela que o menino via a arte da construção de roupas se consolidar diante seus olhos. Ela era a melhor costureira da cidade, morava num sítio em que eu passava as férias... Ficávamos no atelier dela. Eu com os pincéis e tintas e ela junto à máquina de costura, cortando, costurando, forrando botões... Tive uma inclinação muito forte para o desenho que ela me ensinava.
Passado esse tempo, aos 14 anos, Novak foi para o seminário. Um encontro forte consigo mesmo e uma época que marcaria o resto de sua vida. Levei para lá minhas telas, tintas e pincéis, mas não era possível fazer nada de arte. Muito trabalho e orações. Odiava jogar futebol (todas as tardes eram para o futebol). Um verdadeiro inferno. Queria fazer outras coisas, mas nada era possível. Fiquei no seminário dois anos e saí. Mas foi o tempo em que as maiores mudanças internas aconteceram. Vieram as grandes reflexões sobre o bem e o mal....
Depois disso, veio a mudança com os pais para Curitiba, onde vive até hoje. Marcos estudou desenho industrial, mas acabou fazendo também arquitetura na Puc, onde se tornou professor. E assim começaram as bolsas... Como a Puc é do lado da Vila Torres, uma região carente de Curitiba, Novak começou a atravessar a rua e ir até lá. Abri um atelier na própria vila e iniciei um contato com o clube de mães. Comecei vendendo os produtos que elas faziam para as minhas alunas. Eram bolsas feitas de restos de tecido. Ao sair de lá, Novak já tinha a idéia de continuar a trabalhar com cooperativas. Acabou abrindo outro atelier com uma sócia e começou a criar, sempre pensando no material reciclável. Ele tem a premissa de não trabalhar com o couro... apenas explorar o tecido.
Para Marcos, esse conceito nasceu junto à Vila Torres. Com o tempo, a sociedade acabou e ele abriu sua própria empresa a MNOVAK, onde agora trabalha com a Coperáguia. São as mulheres dessa instituição que executam todas as peças. E é aí que entra o lado fascinante, que vai além da beleza das bolsas. Desenvolvemos um trabalho para ser executado em grupos dessa natureza, ou seja, não se necessita muita habilidade para fazer certas tarefas, pois criamos um pequeno módulo coberto com fita que não requer muito conhecimento para se executar. Apenas amor... Precisamos, sim, de habilidade. Todas as peças são feitas artesanalmente.
Com essa linha de pensamento, o arquiteto acabou dando um rumo novo à vida das mulheres que trabalham com ele. Precisamos explorar mais a boa vontade das pessoas do que necessariamente o conhecimento pré-adquirido. Mais o amor do que capacidade profissional e é isso o que mais pode contribuir em nossa vida.
Tendo essa filosofia em mente, Novak abre campo para um trabalho novo, sem imitações e que tem um segredinho guardado a sete chaves: ele não conta para ninguém qual o material que usa como base para os tecidos que vão formar as bolsas. Bobagem... O resultado é uma combinação perfeita entre o fashion e o trabalho comunitário. Mais moderno impossível...
Mais sobre
- Expansão? Curitiba é um ponto de partida, mas acreditamos que São Paulo e Rio são os melhores centros de consumo do produto. Já estamos preparando um projeto com exportação.
- Moda? Adoro moda. Fico perplexo com a arquitetura das roupas, os tecidos, o corte... Sempre adorei o Balenciaga e sei que ele é atualmente um ícone. Vi um vestido de noiva que ele fez numa exposição na Oca, em São Paulo. Mínimo, sem nenhum ornamento, apenas um corte perfeito.
- Adoro também o Paco Rabanne, a quem coloco como a principal inspiração nas bolsas... e o Paul Smith... Como foi a surpresa, quando abri um blazer dele e vi o forro! Que cuidado, quantas cores e padronagens... uso e abuso dessa referência nas bolsas.
- Também adoro as coisas feitas por anônimos, aquelas que se confundem com os séculos de trabalho humano onde não há o criador, a assinatura, mas o próprio trabalho.
- Moda para mim é a capacidade de ver a roupa como extensão de si mesmo transfigurada na necessidade da sociedade em que se vive. Afinal, não se veste o que se quer vestir, assim, apenas pelo desejo. Obedecemos regras, mas se a gente não quebrar algumas estamos perdidos... moda é uma síntese entre você e os outros.


