"Até mesmo o agente de viagens não sabia onde ficava São Tomé e Príncipe, ele precisou olhar no mapa", conta a professora Eliane Oliveira, que há um ano e meio se mudou para lá com o marido Luciano. "Eu conhecia porque lá eles falam português", explica Eliane, que esteve em Londrina por uma curta temporada para defender o doutorado em estudos da linguagem na Universidade Estadual de Londrina (UEL)

Nascida em Curitiba, a professora se mudou para o norte do Paraná com os pais no início da adolescência. "Sou londrinense de coração", garante. Além do compromisso na UEL, a nova doutora também aproveitou para rever a família e os amigos, "comer muito pão de queijo, palmito e rúcula", entrega.

A mudança do casal para o continente africano se deu por meio do Programa Leitorado, do governo federal, que financia professores interessados em divulgar a cultura brasileira em instituições universitárias estrangeiras. A função de leitor, como é chamado o cargo de Eliane e seus colegas, é regulamentada pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE) desde 1999 e é uma parceria da Comissão de Aperfeiçoamento de Pessoal do Nível Superior (Capes) com o MRE.

Mas a escolha de São Tomé e Príncipe foi feita pela professora, que até então nunca tinha saído do Brasil. "Ficamos com medo, não conhecíamos nada do país, não conhecíamos ninguém lá. Mas me surpreendi. No segundo dia já parecia que sempre tinha estado lá", afirma. "O Luciano já é um são-tomense", brinca.

"Apesar da pobreza, é um lugar muito feliz, o povo é muito alegre, dança toda hora", relata a professora, que tem um contrato de dois anos e que pode ser renovado por mais dois. "Só devemos voltar mesmo em 2018. Quero muito terminar o trabalho que comecei lá", avisa. Sem livrarias, o país depende muito de centros culturais, como o oferecido pela embaixada do Brasil.

Mesmo com o doutorado ainda recente, Eliane planeja um pós-doutorado com as experiências vividas do outro lado do Atlântico. A sete horas de viagem de Lisboa, o país – formado pelas duas ilhas principais São Tomé e Príncipe e outras várias ilhotas – se tornou independente de Portugal há 40 anos. E hoje recebe muita influência do Brasil.

Vendedor no Brasil, Luciano deixou tudo para acompanhar a esposa na mudança. "Tenho feito muitos cursos no centro de formação de lá e faço trabalhos para a embaixada. Até montei um projeto de uma escolinha de futebol que está aguardando aprovação", detalha Luciano, que é formado em Educação Física. "Ele sempre me apoiou, me deu suporte, agora é a minha vez", explica Eliane. "Eu só voltei a estudar por causa do Luciano. Fui secretária durante muitos anos na Cativa, onde nos conhecemos. Ele me incentivou a fazer o vestibular. Mas combinei com ele que se não passasse na primeira vez, não tentaria novamente."

Não só passou no primeiro vestibular como foi procurar um estágio no primeiro ano do curso de Letras. "Sempre gostei de ler, até comecei o curso de Letras em 1990, quando tinha 20 anos, mas não continuei", conta Eliane. "Costumo dizer que não sou muito inteligente, mas que ganho pelo estudo. Sou muito estudiosa."

E mesmo com o diploma em mãos, não parou mais de estudar, engatando o mestrado e depois o doutorado, com as respectivas bolsas. Na UEL, a professora trabalhou com português para estrangeiros, segundo ela, um dos diferenciais do currículo. "Foi isso que me fez conseguir a vaga no Leitorado", acredita. "Foi muito interessante porque a gente tanto ensina quanto aprende. Pude conhecer o olhar do outro sobre o Brasil e sobre a língua", define Eliane.

Sociolinguista, a professora se encanta com as línguas crioulas faladas em São Tomé e Príncipe. "Não dizemos mais que são dialetos, mas fica mais fácil para as pessoas entenderem", ensina. A rica cultura do país também é um dos destaques da nova vida do casal. "Eles são muito artísticos", aponta Eliane, citando as esculturas em madeira.

A viagem para a África também serviu para uma descoberta familiar. "Nunca soube, mas era um sonho do meu pai conhecer o continente. Ele só contou quando eu estava indo para lá que até teve uma proposta de trabalho", emociona-se Eliane, que, de alguma forma, completou um ciclo. E agora embarca para dar sequência a um outro. "Mas vamos voltar para cá", avisa a professora.

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