Em território alheio
Superadas as dificuldades de adaptação a primeira, de ser capaz de se expressar em língua estrangeira, de ler seu meio ambiente, e a mais difícil, a cultural Christine ainda sente falta de algumas coisas do seu país de origem. Entre elas, o jeito de ser do brasileiro, cita, referindo-se à afetividade, criatividade, independência e adaptabilidade do povo. Para ela, em termos de comunicação pessoal, o brasileiro é infinitamente mais sofisticado do que o americano. Segundo Christine, essa sofisticação, às vezes confundida com falta de assertividade, de objetividade ou mesmo enrolação, na verdade ajuda a preservar as relações. Quando venho ao Brasil tento me lembrar disso, pois acho que hoje sou uma pessoa mais direta, observa.
Do país que a acolheu, Christine admira a capacidade de organização. Se eu tenho um problema e encontro duas pessoas com o mesmo problema, nos unimos para trocar informações. Essa habilidade do americano de se organizar socialmente é fantástica. Há estudos mostrando, por exemplo, que mulheres que participam grupos de infertilidade engravidam duas vezes mais. Acho que um dos motivos é o fato trocarem informações e experiências sobre questões referentes ao problema, sugere.
Christine era professora da Universidade de Londrina quando viajou para os Estados Unidos. Já foi contratada pela Universidade de Michigan a única, entre exatos 50 pedidos de bolsa de estudo e emprego que enviou que lhe deu uma resposta positiva. Sempre conto essa história a estudantes e profissionais em início de carreira. Inscrevi-me para 50 lugares, recebi 49 nãos e um sim. Para se chegar aonde se quer chegar é preciso planejamento, muito trabalho e uma persistência doentia, ensina.
Para a cientista, é superimportante, em qualquer carreira bem-sucedida, a existência de um mentor. Quando estava no Brasil, tive dois mentores: Henrique Krieger e Moacyr Mestriner, ambos da Faculdade de Medicina da USP. Eles acreditaram em mim, me incentivaram. Isso foi fundamental. Hoje, tento ser uma mentora para os jovens que estão tentando se estabelecer. Eu nunca me esquecerei de quanto foi importante o apoio deles, reafirma.
O Brasil que ela deixou, na época (ela saiu daqui no dia 18 de abril de 1986) era um país ainda sofrendo com a morte de Tancredo Neves, um país enlutado e deprimido. Ao mesmo tempo, um país entusiasmado com as Diretas Já, com a democracia, mas ainda com uma certa dúvida se os militares iriam se acomodar, se o País iria voltar à vida civil, relembra.
Hoje, Christine vê o Brasil de uma forma um pouco diferente do que os brasileiros vêem. Ela explica: Os brasileiros estão muito descrentes em relação ao rumo das coisas, provavelmente com razão. Mas, pessoalmente, estou muito otimista. Acho que o País caminha para a normalidade política e econômica.
Outra grande mudança que Christine aponta nesses 15 anos diz respeito à imprensa: Eu vejo um papel muito importante da imprensa, denunciando a corrupção, o coronelismo. Vejo o povo nas ruas, clamando por seus direitos. Isso é muito sadio, observa.
O Brasil mudou, Christine mudou. Mas ela confessa que, até hoje, mesmo atuando entre os melhores profissionais e nos centros mais avançados, não conseguiu superar a grande emoção que sentiu quando começou o trabalho de pesquisa no Laboratório do HU.
Isso mesmo, o laboratório do Hospital Universitário de Londrina. Naquela época (1982) não havia pesquisa básica no Laboratório do HU; havia apenas a pesquisa clínica. Consegui uma verba do CNPq para iniciar um projeto aqui, que se transformou em minha tese de doutorado. Junto com o pessoal da Imunologia e Moléstias Infecciosas, fizemos um trabalho incrível. Foi um trabalho de time, de um pelo outro, lembra Christine.
Segundo ela, foram coletadas amostras de sangue de 200 pessoas, o que serviu de base para sua tese e para outras teses, de outros profissionais. Sempre que penso no futuro, me lembro dessa experiência para ver se consigo repetir a emoção. Estar na Harvard me dá satisfação pessoal, mas aquela pesquisa no HU foi o máximo, empolga-se.





