Em nome do filho
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sábado, 10 de maio de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba- Um trágico - e inesperado - acontecimento pode ser encarado como um fim, mas também pode ser apenas o início de um longo e produtivo caminho. A segunda opção foi a escolha do advogado, professor e ensaísta pernambucano Marcos Vinicios Vilaça. Membro da Academia Brasileira de Letras, ele também é Ministro do Tribunal de Contas da União.
Pai de um dos galeristas mais importantes do Brasil, Vilaça deu novo rumo às artes plásticas brasileiras depois que a família perdeu, em circunstâncias que até hoje permanecem obscuras, o primogênito de três filhos. Marcantonio Vilaça foi encontrado morto no apartamento da família, em 2000, aos 37 anos.
A morte precoce do filho que amava as artes plásticas, e tinha uma das coleções mais completas e cobiçadas no meio artístico, fez com que a família iniciasse uma longa trajetória para manter viva a memória do colecionador. Só para se ter uma idéia, dois dos mais importantes prêmios de artes plásticas atualmente vigentes do País levam o nome do filho do ministro. Marcantonio também virou nome de escola e de três galerias, duas delas no Brasil e uma em Bruxelas. O Museu de Arte Moderna de Miami também escolheu o brasileiro para batizar uma das duas salas.
Foi uma das premiações em homenagem ao galerista, o Prêmio CNI Sesi Marcantonio Vilaça para as Artes Plásticas, que trouxe o ministro para Curitiba. Marcos Vinicios Vilaça acompanhou, na Capital, a abertura da exposição coletiva que reuniu as obras dos seis artistas contemplados na edição 2006/2008 do prêmio. A mostra está em cartaz na Casa Andrade Muricy. Lançado em 2004, pela Confederação Nacional das Indústrias e pelo Serviço Social da Indústria, o prêmio distribui um incentivo em dinheiro que totaliza R$ 150 mil, destinados a bolsas de trabalho individuais no valor de R$ 30 mil.
Além dessa homenagem, o presidente Lula e o ministro da Cultura Gilberto Gil assinaram, em 2005, a lei que criou o Prêmio de Artes Plásticas Marcantonio Vilaça. Questionado sobre se o trânsito facilitado como ministro no meio aristocrático e político ajudou a projetar o nome do filho e a criar os incentivos culturais, ele é categórico: ''Os projetos que criaram os prêmios não passaram por mim, foram iniciativas distintas'', explica. Da parte do ministro, ele comemora o fato de as premiações e outros projetos envolvendo o nome do filho serem grandes incentivos para a arte.
O ministro elogia a atuação do colega Gilberto Gil, mas faz uma ressalva. ''O governo não pode confundir cultura de massa com cultura popular''. A alternativa, conforme salienta Vilaça, está na educação. Foi esse o recurso que os pais do ministro usaram para despertar o pernambucano para o mundo das letras e das artes. Ele também lançou mão da educação para ensinar os filhos a gostar de ler e de observar. ''Como meus pais fizeram comigo, eu fiz com meus filhos''.
Nascido em Nazaré da Mata, interior pernambucano, Marcos Vinicios Vilaça é filho único. Seus pais o ensinaram desde muito cedo a apreciar a arte barroca e popular. ''Eles tiveram o cuidado de me colocar em contato com os mais variados estilos. Sempre tive um olho na arte popular e outro no barroco. Um ouvido na música erudita e outro na sanfona de Luiz Gonzaga''.
A educação juntou-se ao fato de que a família Vilaça transitava livremente no meio artístico e literário. Marcos Vinicios foi amigo do sociólogo Gilberto Freyre, a quem considera uma grande (e, por sinal, ótima) influência. ''Gilberto me pôs dentro da intimidade dos intelectuais'', conta. Depois que se casou com Maria do Carmo Duarte Vilaça e que teve seus três filhos (Marcantonio, Rodrigo e Ticiana), a educação aprendida em casa e o círculo de amigos intelectuais se estendeu para a própria família. Foi o que despertou, segundo acredita o ministro, o gosto pelas artes do filho primogênito. Ele lembra que no aniversário de 15 anos, Marcantonio pediu uma gravura do pernambucano Gilvan Samico, um dos mais importantes gravuristas brasileiros.
Foi com essa gravura - ''A Virgem da Palma'' -, que Marcantonio começou a sua preciosa coleção de obras de arte. Hoje, as centenas de obras estão divididas entre salas brasileiras e estrangeiras e muitas estão em posse da família. O ministro ressalta que as que estão expostas nas galerias e museus estão em regime de comodato. ''Doação eu não faço. As obras são minhas'', reforça. Acredita que, assim, pode manter a premissa defendida pelo filho de fazer as obras percorrerem diferentes locais. ''Meu filho entendia que a arte não era para ficar pendurada em uma parede e, sim, para circular. Ele acreditava que o museu só funciona se aliado a um programa didático''.
Atualmente, o ministro observa, sem tomar partido, uma disputa entre os governos de Pernambuco e Rio de Janeiro para criar condições para que toda a coleção adquirida por Marcantonio Vilaça seja exposta em conjunto. Enquanto isso não acontece, ele acompanha com gosto as iniciativas em homenagem ao filho. Ele e a mulher chegaram a publicar um livro: ''Mensagens a Marcantonio'', com prefácio de Ana Maria Machado. Mas quando o assunto são novas publicações, sobre o filho ou sobre qualquer outro assunto, o ministro cita uma conversa que teve com Raquel de Queiroz e uma frase dita pela escritora que ele toma para si: ''Se eu escrevo perco tempo de ler''. O tempo, neste caso, é sempre aliado.


