Em busca do som da palavra
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sábado, 08 de março de 2008
Katia Michelle<br> Equipe da Folha 
Curitiba - Ele roubou o fogo das palavras. Mas foi absolvido. A poesia, aliás, é sua redenção. Uma relação que começou na infância, em Pato Branco, onde nasceu, e persegue Ricardo Corona até hoje, quando não se sabe quem foi aprisionado a quem: a poesia a ele ou vice-versa. Atualmente dedicando (muito) tempo a um mestrado em Poesia Sonora, na Universidade Federal do Paraná, o escritor dá uma pausa na agitada agenda cultural que mantém e nos inúmeros projetos de literatura para se dedicar à vida acadêmica.
Editor de duas das mais importantes revistas de literatura que surgiram na última década (Medusa, de 1998 a 2000 e Oroboro, de 2004 a 2006) e criador do selo Medusa, que em tempo recorde lançou 13 livros de poesia e artes plásticas, Corona é referência obrigatória quando o tema é a utilização de recursos sonoros e poemas. Um dos mais recentes reconhecimentos nacionais do trabalho do escritor partiu do músico Zeca Baleiro, que o convidou para fazer uma participação especial no seu show em Curitiba. Foi mais ou menos na mesma época em que o paranaense percorreu cerca de 15 cidades brasileiras com seu show/performance ''Tá Viva a Letra'', uma espécie de resumo/reduto da produção literária e sonora do poeta.
O gosto pela literatura falada não aconteceu por acaso. Filho de imigrantes gaúchos, ele passou a infância participando de festas com a presença de trovadores. ''A cultura popular é a minha referência. Nas festas de família, sempre tinha alguém para ler ou cantar em voz alta'', conta. Sétimo filho de uma família de oito irmãos, Corona lembra ainda que a mãe foi uma leitora voraz, o que o marcou muito na infância. ''Tenho essa lembrança de minha mãe sempre lendo. Até hoje tenho dúvidas de onde surgiam aqueles livros'', brinca. Mas se na infância a própria experiência com a literatura foi substituída pela música e pela cultura popular, na adolescência, Corona começou a colecionar referências literárias.
Ele mudou-se para Curitiba no final da década de 70, e morou na capital por dois períodos intercalados pela volta a Pato Branco. ''Naquela época era difícil se manter em outra cidade'', comenta. Decidiu por mudar para São Paulo, onde cursou comunicação na Febasp. Foi na capital paulista também que lançou seu primeiro livro de poemas, ''A'', pela editora Arte Pau Brasil. Outros livros vieram pela Iluminuras, também editora de São Paulo, como o ''Cinemaginário'', além da participação de antologias.
''Muita coisa aconteceu em São Paulo. Foi uma época muito fecunda'', diz o poeta. Sentido duplo. Foi lá que nasceu o único filho do paranaense, Cauê Corona, fruto do seu relacionamento com a artista plástica Eliana Borges, com quem é casado até hoje. Com ela, assinou a história infantil ''O Sumiço do Sol'' e tem outras parcerias importantes na sua produção literária, como o belo livro Tortografia, que teve a primeira edição pelo selo Medusa e a segunda, pela Iluminuras, em 2003.
Nos últimos anos, além da música e poesia sonora, Corona circulou por outras praças culturais. Traduziu e publicou, por exemplo, poemas de Jim Morrison, Allen Ginsberg, Imamu Amiri Baraka e Gary Snyder e teve poemas musicados por Vitor Ramil e Neuza Pinheiro, além dos também paranaenses Alexandre Nero e Grace Torres.
A produção intensa do escritor, não parece tirar seu equilíbrio e também não o faz querer repetir as experiências. Revela, por exemplo, que encerrou os projetos das revistas literárias que o projetaram para o cenário nacional, mas que quer intensificar cada vez mais sua pesquisa da poesia sonora. ''Eu entendo que a poesia é muito mais antiga que o que convencionamos chamar de literatura. O livro, por exemplo, é um fenômeno moderno em relação à poesia'', diz. Para ele, a poesia é uma linguagem que necessita de outros suportes. ''E o que gosto é dessa investigação'', revela. Pesquisa que não pretente parar. Corona não se encerra.


