Vladimir Brichta não alimenta, fora da novela, o estilo malandro e conquistador que tira a beata Genésia do sério, em ''Porto dos Milagres''. Uma evidente timidez deixa claro que o malicioso e desinibido Ezequiel Baruque vive apenas na imaginação dos autores Aguinaldo Silva e Ricardo Linhares. A não ser, é claro, pelo sorriso maroto, que é dele mesmo, e que tanto tira a personagem de Julia Lemmertz do sério quanto causa furor nas mulheres vidradas na telinha. Nada disso, porém, causa espanto a Vladimir. Talvez por conta da longa estrada que já percorreu no teatro, ele não vê a fama como meta e acha que artista tem uma responsabilidade social a cumprir. ''Num país com tantos problemas, toda pessoa pública deve ajudar de alguma forma ou, pelo menos, não dar mau exemplo'', diz o ator.
Aos 25 anos, Vladimir está no primeiro trabalho na tevê, mas já sobe profissionalmente num palco há nove anos. Se dependesse só da vontade dele, no entanto, teria começado ainda mais cedo. Aos cinco anos, esse mineiro, nascido em Diamantina mas que cresceu em Salvador, já frequentava um grupo de teatro da escola. Aos 16 anos, fez um curso profissionalizante e, em seguida, ingressou na faculdade de teatro. Mas trocou a sala de aula pela prática. ''Tenho quase formação acadêmica'', valoriza o ator, com um leve sotaque baiano.
Vladimir mudou-se para o Rio no início deste ano. O ator já tinha sido aprovado num teste para interpretar Ezequiel, em ''Porto dos Milagres'' e veio em temporada com o musical ''A Máquina'', dirigido por João Falcão. A peça - que passou por Recife, Curitiba, São Paulo e Rio - ficou um ano e meio em cartaz. Mas, até a estréia na tevê, o ator teve de aprender como administrar a própria ansiedade. Isso porque seu personagem só iria entrar no meio da trama. A espera, entretanto, foi recompensada. ''Pegar o bonde andando valorizou minha atuação porque as atenções se voltaram para o personagem. Era a novidade da hora na novela'', valoriza o ator, que aceitou o papel confiando que ''daria conta do recado''.
Passados quatro meses, Vladimir está mais que à vontade na pele do sedutor balconista do Farol das Estrelas. Depois de muito suar a camisa - sempre colada ao corpo -, Ezequiel finalmente conquista Genésia. A beata namora o rapaz e aceita seu pedido de casamento, mas avisa: vai esperar até a noite de núpcias para entregar-se aos ''prazeres da carne''.
Quando não está gravando, Vladimir prefere relaxar ao som de Lenine, Chico Buarque, Caetano Veloso e Gilberto Gil, ou então embarcar numa boa leitura. ''Eu leio de tudo, de biografia a romance, estudos sobre países, enciclopédia, revista, jornal. Tenho muito prazer em ler'', jura o rapaz, que divide com a esposa, Ana Paula, um apartamento na Lagoa, bairro da Zona Sul do Rio de Janeiro. Segundo Vladimir, a felicidade só não é completa porque o ator sente a falta da filha, Agnes, de três anos, fruto do primeiro casamento. ''Minha primeira esposa faleceu e eu fiquei com a guarda da Agnes. Mas ela foi passar as férias com a avó em Aracaju e, desde então, não me deixam ver minha filha'', lamenta Vladimir, que luta na Justiça pelos seus direitos como pai.
Trabalho não deve faltar ao ator com o fim de ''Porto dos Milagres''. Vladimir já foi convidado para fazer ''Viva Zapata'', filme de Luiz Carlos Lacerda. Se confirmar, o ator vai interpretar um personagem cômico, que se envolve com uma rumbeira cubana. Já no teatro, ele começa a ensaiar ''Polaróides Explícitas'' - do autor inglês Mark Ravenhill. ''A história se passa no submundo londrino, mas tem muito a ver com a gente porque fala da fragilidade nas relações humanas. É um texto forte e bem-humorado, ao mesmo tempo'', explica.

Vladimir Brichta é daquelas pessoas que olham nos olhos quando falam. Bem articulado e sempre preocupado com a questão social, ele defende o conceito de ''ator-cidadão'' que, através de seu trabalho, contribui para uma sociedade melhor. Herança de família: Vladimir é filho de militantes de esquerda, que resistiram à Ditadura Militar. ''A experiência deles ficou muito forte em mim. Aprendi que preciso acreditar numa causa e lutar por ela. Isso me dá paz de espírito'', revela.
Atualmente, a luta é contra toda forma de discriminação. ''Qualquer sociedade que queira melhorar precisa banir os preconceitos, sejam de natureza racial, social, artística, o que for'', afirma. Mas essa bandeira tem uma motivação pessoal. Vladimir acredita que tem sido discriminado na luta pela guarda da filha devido à profissão que exerce. Por ser artista, ele não teria estabilidade financeira e emocional, e ainda estaria cercado de ''más companhias''. ''É o que argumentam contra mim'', desabafa.
Até na profissão, a ''paternidade'' parece ser o mais importante para o ator. ''Antes achava que Hollywood era o sucesso. Hoje sei que vou me realizar quando for pai do meu trabalho. Quero ser dono da minha história'', sonha Vladimir.

mockup