Sempre que é convidado para participar de alguma produção de época, Murilo Rosa dá início a um rigoroso processo de trabalho. Antes de se preocupar especificamente com o personagem que vai interpretar na trama, o ator se debruça sobre o período histórico em que a novela é ambientada. Foi assim com a abolição da escravatura em ‘‘Xica da Silva’’, o ciclo do cangaço em ‘‘Mandacaru’’ e a Semana de Arte Moderna em ‘‘O Cravo e a Rosa’’. Depois de pesquisar sobre estes e outros assuntos em livros de História, Murilo tira eventuais dúvidas com a mãe, a historiadora Maria Luiza Rosa. Foi justamente ela que sugeriu ao filho de ler ‘‘A História da Vida Privada no Brasil’’, de J.M. Cardoso de Mello e Fernando Novais, para compor o valente Diogo de ‘‘A Padroeira’’, a novela das seis da Globo. ‘‘As produções de época mexem mais com a imaginação de quem faz e de quem assiste do que as tramas atuais’’, acredita.
Aos 30 anos, Murilo Rosa não esconde o entusiasmo ao falar das produções do gênero. E com toda razão. ‘‘A Padroeira’’ é a quinta novela de época que ele faz. Além de ‘‘Xica da Silva’’ e ‘‘Mandacaru’’, ambas da extinta Manchete, e ‘‘O Cravo e a Rosa’’, já na Globo, Murilo trabalhou ainda em ‘‘Força de Um Desejo’’, de Gilberto Braga. A cada novo trabalho, Murilo tem a oportunidade de exercitar as mais variadas habilidades, como tiro, dança, montaria e esgrima. As aulas de equitação, por exemplo, renderam um novo amigo ao ator: Jony, um cavalo preto da raça mangalarga marchador. ‘‘Já tinha intimidade com cavalos, porque meu pai possui uma criação no interior de Goiás. Mas Jony é especial: ele é bastante obediente’’, elogia.
Na trama de Walcyr Carrasco, Murilo interpreta o melhor amigo de Valentim, personagem de Luigi Baricelli. Filho de um rico fazendeiro de Guaratinguetá, em São Paulo, Diogo é apaixonado por Izabel, donzela vivida por Mariana Ximenes. A mãe da moça, porém, faz de tudo para separar o casal e mandar a filha para um convento. Com tamanha oposição, Diogo passa a desconfiar que a megera, uma beata interpretada por Elizabeth Savalla, esconde algo do casal. ‘‘Há um mistério que vai acompanhar o Diogo por toda a história. Parece até que os dois são irmãos...’’, especula.
Uma das preocupações mais frequentes de Murilo Rosa é a de não se repetir a cada início de novela. Por isso mesmo, ele procura fazer de cada novo trabalho o mais diferente possível do anterior. Para compor o visual rústico de Diogo, Murilo pôs interlace nos cabelos, tomou sol para escurecer a pele e deixou o cavanhaque crescer. Nada que lembrasse a figura bem-comportada do romântico Celso de Lucca, de ‘‘O Cravo e a Rosa’’, composta por cabelos louros, pele branca e óculos. ‘‘Escolhi essa profissão porque gosto de mudar de cara a cada novo trabalho. Às vezes, não parece nem que estou trabalhando. Parece mais uma brincadeira...’’, sorri.
Foi justamente o desejo de conciliar prazer e trabalho que levou Murilo Araújo Rosa a trancar a faculdade de Administração de Empresas, que cursava em Brasília, cidade onde nasceu, para tentar o Curso de Artes Cênicas. Até hoje, ele não esquece o dia em que teve certeza de que era aquilo que queria fazer. Um dia, durante uma aula, teve de fingir que era um cego, que estava tentando atravessar uma rua movimentada. ‘‘Tremia tanto da cabeça aos pés que fui o último a fazer o exercício. Mas, quando terminei, percebi que tinha tomado a decisão certa’’, orgulha-se.
Até se firmar como ator em ‘‘Xica da Silva’’, Murilo passou por poucas e boas em ‘‘74.5 - Uma Onda no Ar’’, na Manchete, e ‘‘Antônio Alves, Taxista’’, no SBT. De volta à Manchete em 1997, Murilo veio a conhecer o diretor que deu uma guinada em sua carreira: Walter Avancini. Foi ele que ensinou ao ator noções básicas de interpretação, como postura, dicção e expressão corporal. De lá para cá, os dois voltaram a trabalhar juntos em ‘‘Mandacaru’’ e ‘‘O Cravo e a Rosa’’. Visivelmente emocionado, Murilo sente dificuldade até de apontar a maior virtude do experiente diretor. ‘‘O Avancini é um dos melhores do mundo!’’, limita-se a dizer.

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