Quando a corda se rompe
Elisiê Peixoto
Teve uma época em minha vida em que eu acreditava tanto nas pessoas que na primeira decepção eu quase morria de tristeza. E isso se prolongou durante muito tempo. Custei a aprender que até das decepções e das pessoas mal intencionadas devemos tirar algo de positivo.
Sabemos que com frequência pessoas cometem o mal e o justificam de forma ainda pior. Ou melhor, causam a decepção e depois, tentando consertar o estrago, pioram ainda mais a situação. Quantas vezes repreendemos pequenas coisas nos outros e ignoramos grandes questões em nós mesmos? Ou então, sentimos o quanto sofremos na mãos das outros, mas não nos importamos com o que os outros sofrem por nossa causa? As decepções com o caráter e atitudes das pessoas nos ensinam a ser mais criteriosos, a ter cuidado com as atitudes e palavras e a não julgar o outro com tanta dureza de coração.
A decepção, por qualquer motivo que seja e com quem for, é sempre dura demais. E decepção a gente tem sempre. E o que fazer quando ela invade nossos corações de uma forma que só quem passa por isso sabe como é? E quando é em relação a uma ou duas pessoas em quem você confiava tanto? Pode ser uma namorada, o marido, um colega de trabalho, pode ser até seu filho ou seu melhor amigo. Decepção acontece sim, é real, causa danos, deixa cicatrizes. Mas também ensina. As decepções que acontecem no decorrer da vida, comparo a uma escola. Porque o que a gente aprende na escola deve ser colocado em prática para não ser esquecido. A maturidade faz isto com a gente e quando a ‘‘corda se rompe’’, é bom estar preparado. Nada no mundo fará com que o chão se aproxime menos depressa quando você estiver caindo. Fingir que a corda ainda o sustenta e que a decepção não foi causada, faz mal para o corpo e para a alma.
Ainda tenho ilusões sobre determinadas mudanças de comportamento, sobre transformações de caráter. Eu mesma tenho constatado mudanças que só melhoraram minha vida e a de outras pessoas. Quando me decepcionava, a primeira sensação era sempre de enganada, hoje não. E a lição maior da qual tiro proveito é a de não repetir aquela atitude. Decepção não consegue se distanciar do verbo perdoar. Porque se não for assim, vamos armazenando um tanto delas que nos tornamos enfadonhos, chatos, amargurados e rancorosos.
Entendo que até com as decepções devemos descobrir uma maneira de ser felizes, mesmo porque ela nos dá a chance de crescer espiritualmente. Ficar decepcionada com a sua melhor amiga pelo resto da vida é ser vítima dos próprios problemas.
Num momento crucial da minha vida alguns amigos desapareceram. Foi uma das vezes em que ‘‘a corda se rompeu’’ drasticamente. Mas teve outras pessoas que permaneceram, falaram pouco, e simplesmente estiveram presentes. Isso eu aprendi com a decepção causada por aqueles em que eu confiava. Nunca subestime o valor da presença.
Muitas vezes quando nossos amigos atravessam momentos difíceis, fazemos tudo o que podemos para evitá-los. Às vezes é porque não sabemos o que dizer. E como li num livro sobre a amizade, pode ser que a nossa presença com as pessoas que sofrem nos lembre nossa própria vulnerabilidade. Seja qual for a razão, evitar as pessoas é errado. Esteja presente.
Ainda me incomodo com a falta de consideração, com a falha de caráter. E tenho minhas cordas rompidas como qualquer outra pessoa. Elas têm o seu lugar e a maioria das pessoas necessita ir lá de vez em quando para aprender. A decepção causa danos, sim. Mas também ensina que aquilo que nos machuca nem sempre pode ser curado com beijinhos.

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