ELISIÊ PEIXOTO - LONDRINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 16 de junho de 2001
Elisiê Peixoto 
Há coisas na vida que não devem ser apagadas. Porque fizeram bem, acrescentaram. De repente um velho amor que nos deixou boas lembranças, a juventude deixada para trás com satisfação, um passado interessante que até nos permite reviver. Pode ser a recordação de uma amizade que nos fez sorrir e nos permitiu chorar, a lembrança dos filhos pequenos e presentes o tempo todo, dos almoços com toda família reunida quando os avós ainda eram vivos, as primas jovens, os primos solteiros. Existem coisas que dão saudade porque nos emocionam, tocam fundo no coração e nos dão a sensação de ter valido a pena.
Conversando com um amigo jornalista, ele confidenciou que tem momentos de saudosismo necessário todas as semanas. É quando se lembra do tempo em que, apaixonado pela primeira namorada, fabricava versos horríveis (segundo ele mesmo) e sem coragem de lê-los para a amada, os guardava para si. Mas as lembranças são tão boas que ainda não conseguiu se desfazer dos versos de pé quebrado. Depois de 10 anos, ele ainda os lê com satisfação.
Acreditar nas coisas boas da vida nos dá novo ânimo, repõe as energias. Quando nos sentimos tristes, enfadonhos, mexer no baú das coisas boas ainda é um bom paliativo. Tudo bem que passado é passado, mas um tempo bom, mesmo que ele tenha sido pequeno, faz acreditar que tiramos da vida o que ela tem de melhor.
Em O Caminho de Toda Carne, Samuel Butler afirma: É melhor ter amado e ter perdido, do que nunca ter perdido nada. Frase sábia de quem já foi ou é muito feliz. Conheço pessoas que passaram pela vida sem ter vivido um fato inesquecível, uma paixão. Tem gente que nunca fez uma viagem de sonhos, não tomou banho de cachoeira, não se declarou para alguém, nunca tomou chuva. Nem tem um velho amor que possa recordar, não fez uma travessura da qual possa rir. Nunca subiu em árvore, nunca roubou um beijo. Tem gente que passa pela vida sem viver. Aí quando é para recordar, se lembra daquilo que deixou escapar, das coisas que deixou de fazer. E se lamenta.
Quando a gente recorda as coisas boas da vida, quando nos lembramos dos detalhes de uma época que marcou nosso coração e nossa mente, dá vontade de fazer de novo. É como um banho de chuva depois da estiagem. Sabe aquela sensação de que pode acontecer novamente? E principalmente, de como toda aquela situação fez bem?
Encontrei por acaso uma amiga da época de adolescência no aeroporto. Nossas vidas tomaram rumos diferentes e foi tão bom aquele encontro. Durante duas horas a gente riu, chorou, se emocionou. Lembramos das paixonites crônicas, das festas tão esperadas, das travessuras entre amigas, da sensação da boca seca e do coração disparado cada vez que o namorado aparecia. A gente lembrou das aulas matadas na faculdade para conversar na escadinha perto da cantina, tomando Coca-cola, comento pastel e construindo futuros. E chegou a conclusão de que a vida é muito boa, passa rápido e tem que ser aproveitada com toda intensidade. Naquele curto espaço de tempo as lembranças mais arrancaram boas gargalhadas do que lágrimas. E eu tenho aprendido a dar valor a isso.
Tem gente que diz que fugir do passado, negar as coisas negativas que aconteceram, evitar pessoas que não acrescentam nada é puro escapismo. E há terapeutas que reforçam o fato de você ter que conviver com isso. Discordo. Fatos tristes, gente que te magoou e te deixou indefesa têm que ser esquecidos. E devem ser que nem foto antiga que a gente guarda na gaveta e esquece. Às vezes, quando você vai procurar algo e precisa revirar tudo, encontra o retrato. Dá uma boa olhada e tem a certeza de que aquele ou aquela, situações que lembram aquele momento da foto, você não quer mais para a sua vida. Sabe o que eu acho mesmo? Foto antiga, quando não fica no porta-retrato lembrando tempos bons, serve para espantar barata no fundo da gaveta. Quem nem recordações tristes. Não servem pra mais nada.
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