ELISIÊ PEIXOTO - LONDRINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 26 de maio de 2001
Elisiê Peixoto 
Certa vez uma amiga falou-me algo que até hoje ecoa no meu dia-a-dia como uma verdade e que se torna um erro grave da maioria das pessoas que buscam a felicidade. Ela disse assim: Para sermos felizes com alguém precisamos parar de colocar apelidos bonitinhos nos hábitos ruins dessa pessoa. E é isso mesmo. Que mania a nossa de passar por cima de algumas situações, fazer vista grossa para algumas atitudes, de se fingir de surdo e mudo para não piorar as coisas e, principalmente, de viver arrumando desculpas para não complicar o meio de campo? Não escrevo isso apenas em relação ao parceiro, sendo ele ou ela, mas em relação aos filhos, amigos e companheiros de trabalho.
Tem gente que passa a vida toda ao lado de um colega de trabalho aguentando o mau-humor diário sem nunca se esquivar ou reclamar. Aí um dia, depois de 15 anos intermináveis, aquele que nunca abriu a boca faz uma grosseria que assusta e pela primeira vez se faz respeitar. Porque a cada resposta ríspida do colega mau-humorado, ela mesma arrumava uma desculpa para não se machucar. Um dia era porque o salário era pouco, outro dia, porque estava com dor de cabeça, outro, porque os filhos iam mal na escola.
Eu mesma já convivi com gente que nunca pediu desculpas por nada, nem por derramar café na sua roupa às 8 horas de uma segunda-feira. E a gente enfrenta isso procurando ter domínio próprio (quando a vontade é voar no pescoço do outro) e concluindo que a política da boa vizinhança ainda é o melhor caminho. Eu acho que vez ou outra, tudo bem você adotar o estilo deixa pra lá. Mas quando isso se torna uma atitude habitual, quem vai ter uma úlcera no futuro com certeza não é aquele que soltou farpas. É quem recebeu e nunca se impôs.
Viver arrumando desculpas para as coisas erradas que a pessoa (aquela ou aqueles com quem convivemos diariamente) faz, significa aceitar de bom grado tudo o que ela fará no futuro. E aí a gente não vai poder abrir a boca porque permitiu certas grosserias a vida toda. E por deixar coisas por fazer e por dizer. Por isso, ainda que doa, melhor abrir o coração e deixar registrado aquilo que machuca, ofende, entristece. Nunca engavetar.
Penso que a base dos relacionamentos duradouros está em dizermos o que sentimos, falarmos daquilo que não gostamos que o outro faça e de corrigirmos um hábito ruim do parceiro. Isto é demonstração de amor, de afeto, é sinal de que queremos bem àquela pessoa e que gostaríamos de tê-la ao nosso lado sempre. Caso contrário, muito mais fácil ao primeiro desapontamento, sair de fininho e cair fora do relacionamento.
Essa história de dar apelidos bonitinhos nos hábitos ruins da outra pessoa, principalmente quanto esta outra pessoa é um filho, marido ou esposa, detona a relação. Isto nunca vai fazer você ganhar o coração dela. Quando amamos e somos amados permitimos sermos corrigidos e aceitamos com humildade a correção. É com isto que crescemos.
Muitos de nós olhamos somente para aquilo que queremos e que precisamos em um relacionamento. E é aí que precisamos de outros olhos para não termos uma informação totalmente errada. Viver arrumando desculpas para o outro só para manter a relação é destruir uma coisa que poderia ser muito boa. É a mesma coisa que deletar uma atitude malcriada do parceiro, uma desobediência do filho, uma grosseria da namorada só para evitar brigas e por ter medo da relação desabar.
Quando a gente entra num relacionamento amoroso, por exemplo, as nossas necessidades nunca mais serão as mesmas de quando estamos sós. Por isso existem coisas que não podem ser jogadas pra debaixo do tapete. Chamar a atenção e falar algumas verdades ajuda no relacionamento, em qualquer um seja familiar, amoroso, amistoso, profissional. E o saber falar é ainda mais importante; com jeito, com amor, procurando respeitar sempre o outro e se fazendo respeitar acima de tudo.
Agindo assim, amanhã pelo menos você não vai precisar culpar qualquer outra pessoa por estar na situação que está. E se toda vez que uma atitude negativa de quem gostamos não for repreendida é porque temos medo. E medo não combina com paz, harmonia, tranquilidade, respeito e afinidade. Corrigir maus hábitos hoje serve como desafio para conquistar uma felicidade a dois, uma harmonia em família. Por isso vale a pena tentar.
Com Nêmora


