ELISIÊ PEIXOTO - LONDRINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 03 de março de 2001
Elisiê Peixoto 
O núcleo familiar, o que temos de mais importante, está desaparecendo; vivemos isolados, esquecendo que o bem-estar vem dos amigos, da família, das conversas no botequim da esquina. Quem chama à atenção para esta situação da vida moderna é o cirurgião plástico Ivo Pitanguy, em recente entrevista. Pura realidade. A condição da vida atual parece não favorecer muito as relações de afeto, aquela troca de carinho e de respeito que cada um deveria ter como lema.
No dia-a-dia, o que mais tenho notado é que cada vez mais as pessoas têm se isolado e buscado relações superficiais, fechando as portas para qualquer possibilidade de algo mais concreto. Acho até que homens e mulheres têm as melhores das intenções, mas não conseguem romper o medo do desafeto. Então acabam entrando numa relação, seja ela de amor ou de amizade, não esperando absolutamente nada, e até preparados para uma desilusão.
Ivo Pitanguy disse mais, que ao invés de procurá-lo para uma cirurgia plástica, há pessoas que deveriam tentar uma terapia, uma psicanálise, porque é disso que elas precisam, de um tratamento na alma e não necessariamente no visual. São pessoas que escondem o que têm de melhor caráter, princípios, educação e mostram apenas um corpo sarado, bem feito ou bem produzido.
Quantas vezes estamos rodeados de amigos ou até mantendo uma relação amorosa, mas nos sentindo completamente só? A solidão muitas vezes é fruto de um mundo de aparências, onde um corpo bonito e um saldo bancário positivo são o suficiente. Mas a gente sabe que relacionamentos movidos apenas pela atração física ou por aquilo que a outra pessoa pode proporcionar financeiramente tem tempo curto ou um final triste. Ninguém consegue manter uma relação assim por muitos anos e ser feliz. A base de toda relação é amor, em primeiro lugar. E que resulta em atenção, cumplicidade e fidelidade.
As pessoas deveriam ter mais disposição para romper o medo de uma situação nova. Se esconder em relações instáveis e que não acrescentam absolutamente nada é muito bom enquanto você não volta para casa sozinho com aquela sensação de que nada foi acrescentado: nem de positivo, para se ter bons sonhos; nem de negativo para tirar alguma lição. É fato: há mulheres e homens que, durante uma relação, não acrescentam absolutamente nada. Apenas alguns momentos na cama ou numa mesa de bar onde a ordem é jogar conversa fora.
O escritor José A. Bonilha, em seu ensaio Mulher: Teu Nome é Amor, afirma que amar é mais que um sonho e que todo mundo tem direito à realização afetiva. Vai mais longe, diz que a essa realização é um direito do ser humano e que não há lei determinando quem pode amar e ser amado. Mas a gente também sabe que evitar relações com pessoas irresponsáveis e descompromissadas com a vida significa não ter uma futura dor de cabeça. Isso não é fugir de uma relação ou de não apostar na pessoa, é apenas evitar desilusão. Meu pai já dizia: a pior solidão é a solidão a dois. E com pessoas assim a gente mais vive só do que acompanhada porque nada rende a longo prazo.
Homens e mulheres solitários ou mesmo aqueles que estão com alguém mas continuam se sentindo sós deveriam cultivar a curiosidade por algo diferente, apostar mais nas pessoas, ter tolerância para conduzir uma boa relação, crer no próprio potencial e não apenas em suas qualidades físicas e profissionais. Eu penso que este é o começo para uma relação de amor sincera e intensa.


