ELISIÊ PEIXOTO - LONDRINA
PUBLICAÇÃO
sábado, 04 de novembro de 2000
Elisiê Peixoto 
Aquele que não pode perdoar destrói a ponte sobre a qual ele mesmo tem de passar. O pensamento, de George Herbert, abre uma das partes do livro que estou lendo, intitulado Maravilhosa Graça, de autoria de Philip Yancey. E que caiu como luva num daqueles dias em que você pensa em fazer tudo para se vingar, menos perdoar aquele que te magoou profundamente. Perdoar é difícil, sim. Em certas situações a gente considera quase que impossível.
O ato de perdoar verdadeiramente nasce da alma, livra da angústia e daquela sensação horrorosa de que nunca mais você vai se recuperar. Perdoar da boca pra fora é fácil. E esse papo de perdoar sim, esquecer nunca, não existe. Ou a gente perdoa, esquece e deixa a ferida cicatrizar de vez, ou assume a falta de perdão e sofre as consequências deste mal.
Aí a gente se pergunta: Como perdoar alguém que te prejudicou tanto, foi infiel ou te caluniou? Dar a outra face, passar por cima, superar e não rodar a baiana é o certo? É. Eu sei quanto custa a gente perdoar aquela amiga que roubou o teu namorado ou aquele colega de trabalho que puxou seu tapete e ficou com a sua promoção. Eu sei como é difícil perdoar as palavras ásperas e doídas ditas num momento de muita raiva. Quem nesta vida ainda não teve dificuldades de perdoar, ou pelo menos, de não armazenar rancor, aquela coisa ruim que fica remoendo o coração e a razão?
Dias atrás encontrei com uma amiga que durante muitos anos dividiu comigo segredos, alegrias e tristezas. Nossa amizade terminou do nada, sem maiores explicações. O contato foi ficando cada vez menor, cada uma tomou um rumo diferente. E toda vez que eu a encontrava tinha a sensação de que algo havia deixado de ser falado. Afinal, entre amigos de verdade, nada é ocultado. Enfim, ficamos anos sem conversar. Recentemente uma situação nos colocou frente a frente, e tudo foi esclarecido. Ela se magoou com algo que falei e que não representava nada para mim. Mas a falta de perdão durante uma década deixou uma feridinha aberta no coração que vez ou outra sangrava. Desperdício completo de tempo.
Fazer a nossa parte. Acho que esta é a principal atitude de quem quer perdoar e ser perdoado. Mesmo que a outra pessoa te dê as costas, não importa, a gente tem que tentar esquecer. É a mesma coisa quando você enterra um cão raivoso. Não se pode deixar a cauda dele para fora. Quando conseguimos superar a mágoa entendemos que o perdão é uma característica do forte e não do homem fraco.
Tenho um amigo que confessa: Tirá-lo do sério ao ponto de perder o sono por qualquer situação é impossível. Durante muitos anos ele foi rancoroso, bravo, malcriado, incapaz de pedir desculpas. Com isso só perdeu; amigos, dinheiro e família. Mas a vida ensinou. E hoje faz coisas como abençoar um cidadão que corta a sua frente no trânsito quase causando um acidente grave. E o faz de coração. Qual a receita? O exercício diário do perdão.
Ao invés de uma palavra áspera faça um elogio. Ao invés de responder com grosseria, silencie, deixe pra lá. A outra pessoa perde o rumo, fica envergonhada e reflete. Esse meu amigo vai mais longe e afirma que enquanto guardamos ressentimentos, a outra pessoa está lá fora dançando, se divertindo. Acho que o perdão é mais do que um sentimento. É uma força que desencadeia admiráveis resultados. Outra coisa: aprenda que o troco nunca deve partir de nós, cabe a Deus, somente a Ele, dá-lo por nós. É algo que tenho visto diariamente sem precisar mover uma palha. Quando se perdoa, aí sim, Deus corrige e age por nós.
Leilão Diamante


