Mania feia essa nossa de transferir a culpa dos nossos erros para outras pessoas. Essa mania de querer aliviar a nossa responsabilidade sobre algo no qual pisamos na bola declaradamente. Quando realizamos um mau negócio (a culpa é sempre do outro), quando casamos com a pessoa errada (o outro não colaborou para dar certo), quando erramos na criação dos filhos (certamente porque o outro não ajudou), quando não optamos por filhos (o outro nunca quis) ou quando somos infelizes na profissão (os pais forçaram a fazer aquele curso). Por que será que a gente tem tanta dificuldade de assumir um erro? Será que a sensação de fracasso é algo tão devastador?
Todo erro tem consequência. E toda consequência tem um preço. Que deve ser pago por uma única pessoa: a que errou. Eu tenho pago o preço por muitas coisas, inclusive por confiar demais nas outras pessoas e até mesmo na própria intuição. Mas a maturidade tem dessas coisas; você adquire bom senso e humildade para reconhecer que o presente é fruto daquilo que você plantou um dia.
Conviver a vida toda com pessoas que não se adaptam ao seu estilo de vida e com caráter tão diferente do seu só vai lhe render mágoas que custam a sarar. Bobagem ignorar o mau caráter de uma pessoa só porque ela convive com você. É errado a gente não questionar o porquê de determinadas atitudes com medo de ofender ou de contrariar. Pior ainda é se sentir traída pelo parceiro e deixar quieto porque ‘‘ruim com ele, pior sem ele’’. É o maior absurdo que eu já escutei em toda a minha vida. Porque se sujeitar a viver com uma pessoa que te deixa doente e não te respeita perante os olhos de Deus significa total falta de integridade moral. Ninguém nasceu para ser traída, humilhada. E se você se permite a isso, creia, o preço a ser pago vai ser alto e merecido.
É a mesma coisa quando somos teimosos. A gente erra, faz de novo, erra de novo e depois não quer pagar pelo erro. Muito mais fácil transferir a culpa para qualquer um. Muito melhor escutar que não tivemos culpa, que o erro foi a consequência de um todo e aquela bobagem toda que não acrescenta nada.
Tenho visto pais que continuam a passar a mão na cabeça dos filhos adultos, no sentido de aliviar a carga dos erros. Como se isto bastasse. Um homem que não assume suas limitações quando moço e que sempre foi poupado pelos pais, certamente vai se tornar um adulto fracassado. Quando os pais morrerem ele perde a identidade. E vai ficar à toa e sem prumo. Melhor deixar ele quebrar a cara, pagar o preço e tentar se corrigir.
Ao conversar com uma amiga solteira ela finalmente reconheceu aquilo que todo mundo sabia. Durante os últimos dez anos a escutei dizer que não havia se casado porque não tinha encontrada algum homem que valesse a pena. Agora, aos 36 anos, pela primeira vez reconheceu que amargava uma solidão porque nenhum homem, ao longo de todos estes anos, servia para ela. Em todos ela encontrava algum defeito, ninguém estava à altura. Agora paga o preço e prometeu que vai tentar mudar para não chorar as pitangas lá na frente.
Tem homens e mulheres que optam em viver sozinhos. Não nasceram para o casamento, não nasceram para dividir nada, ou até já passaram por uma experiência a dois, desastrosa. Estes, sim, assumem e pagam o preço de viverem sozinhos o resto de suas vidas. Mas pelo menos não deixam para trás filhos mal resolvidos e parceiros magoados. Aí, acho até que vale a pena assumir a posição de ‘‘só eternamente’’.
Dia desses meu filho esqueceu na escola sua pasta de coleção de magic’s cards. Com mais de 300 cartas compradas com a mesada nos últimos dois meses. Ao chorar e gritar dentro do carro, já contabilizando o prejuízo, não dei ao meu filho uma palavra de consolo. Apenas disse que se a pasta tivesse sumido o preço estava sendo pago pela própria desobediência. Ele havia sido proibido por mim de levar a pasta à escola. Mas Fernando teve sorte, encontrou a dita cuja. E intacta. De qualquer forma, valeu. Prometeu nunca mais levá-la à escola porque amargou por alguns instantes o preço pago pela própria culpa.
Há coisas na vida que somos os únicos responsáveis. Pela própria felicidade, por exemplo. E quando nos tornamos infelizes, ninguém deve pagar por isso, apenas nós mesmos.
Tenho tentado não precisar pagar mais pelos próprios erros. E para isso me mantenho afastada daquelas pessoas que não acrescentam nada, se julgam únicas no mundo, sem defeitos, soberbas. Para não sofrer com meus erros tenho escutado mais, falado menos, pensado mais, agido menos. E tem dado certo. A arte de viver sem culpas se baseia em errar cada vez menos. Ou, pelo menos, em tentar acertar vez ou outra.
Meu filho Fernando, com 9 anos, outro dia disse algo na mesa do almoço ao derramar uma jarra de suco sobre a toalha, pratos, comida, etc. ‘‘Mãe, calma, sem nervosismo. Depois de ter feito um estrago, todo mundo fica mais sabido’’. Foi a coisa mais inteligente que eu escutei na semana.







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