Na semana que passou recebi o telefonema de uma leitora que, cansada de exigir muito dela mesma, pediu para escrever qualquer coisa que amenizasse um pouco aquele fardo, aquele excesso de responsabilidade com tudo e com todos que há mais de 20 anos ela carregava nos ombros. E sem nunca pedir nada em troca. Aquela leitora simplesmente havia cansado e tinha muito medo de se dar o luxo de mudar. Mudar de vida, de situação, nem eu bem sei o quê e o porquê. Mas aquele telefonema falou tanto ao meu coração que considerei a atitude desta leitora (ao me ligar) um passo, ainda que meio tímido, para a mudança que ela tanto almeja. Aos 40 anos ela despertou. E deixou de olhar para fora e começou a olhar para dentro de si mesma. A gente acorda para a vida quando isto acontece.
Como jornalista e não psicóloga ou terapeuta, o que escrevo é baseado apenas na minha experiência de vida, como mulher e acima de tudo como ser humano que tem as mesmas emoções que a leitora em questão.
A gente tem uma dificuldade danada para dizer não. Confesso que cansei de entrar em fria ao assumir compromissos em excesso. E ao dizer sim, quando na verdade queria sair correndo e gritando: não, não e não. Quantas vezes acabei indo a lugares para agradar a outras pessoas independente daquilo tudo me chatear. Aí, um dia, mais ou menos igual a esse que a leitora me ligou, dei um basta. E percebi que ‘‘a solução é evitar reações por reflexo condicionado e estabelecer limites’’. Ninguém me disse. Li numa revista na qual o tema do artigo era ‘‘ menos stress, mais autoconfiança’’. E sabe de uma coisa? Depois que comecei a questionar se era do meu interesse dizer sim ou não, as pessoas começaram a me respeitar mais. Afinal, se eu não gosto de badalação aos finais de semana, optando por uma sessão vídeo e pipoca na minha casa, e com os meus filhos, qual é o problema? Aprenda. Tem momentos na vida em que um não é totalmente justificável.
Também já tive aquelas fases de ceder tudo para evitar discussões, para não ser chamada de chata de carteirinha. Cedia na hora e sofria depois. Anos a fio fazendo isso, cheguei à conclusão que daqui a pouco esta atitude iria me render uma gastrite. E a dor seria só minha. No dia em que cheguei em casa espanando a criançada da minha cama e fechando a porta do quarto com chave, assustou. Mas ganhei respeito dos meus filhos na medida em que respeito também a privacidade deles. Roberta e Fernando têm o quarto deles. E eu o meu. E é assim nas mínimas coisas.
Eu hoje até aceito meus defeitos, porque eles fazem parte da minha individualidade. E aceitando os meus, passei a aceitar os dos outros também. Quando não aceitamos as próprias limitações, acabamos nos violentando. Eu nunca fui uma pessoa zen, tranquila, daquelas que dormem dez horas por dia independente da preocupação que tiver. Até tentei, mas não mudo. Continuo ansiosa, querendo resolver tudo ontem, e acabo atropelando as pessoas e falando demais. Paciência, quem for meu amigo sabe que determinadas coisas melhor nem me contar. Também gostaria de ser mais disciplinada com algumas coisas na minha casa. Mas com dois filhos em idades tão diferentes, impossível. Tem dia que toalha seca no banheiro é raridade e a compra no supermercado sempre chega desfalcada. Por puro esquecimento. Deixei de me cobrar determinadas atitudes que não se encaixam no meu estilo de vida. O importante é que meus filhos gostam de mim do jeitinho que eu sou. Atingir a perfeição é impossível.
Deixar de ser dura demais com você mesma. É esta a questão, o caminho para ser mais feliz. Quando aceitamos as gordurinhas extras adquiridas no final de semana, quando matamos a vontade de comer um saco de batata frita, quando deixamos de ir a um compromisso enfadonho só para ficar em casa de pijama. A gente é mais feliz, sim, quando deixamos para lavar no outro dia a louça suja amontoada na pia da cozinha, quando espalhamos o jornal pelo quarto, banheiro e sala, sem aquela paranóia de deixá-lo impecável no canto do sofá. Somos mais felizes quando não cozinhamos no domingo e despachamos filhos e marido para o restaurante. Ou quando dividimos obrigações, porque se dividimos o mesmo teto, também dividimos responsabilidade. Ser menos dura consigo mesma representa autenticidade e impõe respeito. É assim que a gente decide a maneira como quer se tratada pelo resto da vida.

Jasmin: novo espaço

mockup