‘‘O maior erro do homem é tentar tirar da cabeça aquilo que não consegue tirar do coração’’. Minha filha Roberta comentou comigo esta frase enviada a uma amiga por um namorado arrependido. E eu achei uma frase tão forte, com um apelo tão significativo, que acabou me inspirando a escrever esta crônica, num dia chuvoso, quando a gente se sente meio melancólica. E como acontece no dia a dia de qualquer pessoa.
Tentamos esquecer algo muito ruim ou pessoas que nos causaram mal. E, na maioria das vezes, sem sucesso. E enquanto ficamos preocupados com isso, a situação não muda. Você pode até viajar para a China, mas a mágoa vai com você. Aí, de um dia para outro, como num passe de mágica, aquela lembrança desaparece completamente. É porque você conseguiu finalmente enterrar dentro do coração, a decepção que dava sinal de existência cada vez que a ferida sangrava.
E quem nesta vida já não teve uma pessoa escondida num coração magoado, que quando resolvia se manifestar fazia a emoção ceder lugar para a razão. Eu não escrevo isso me referindo a um amor não correspondido, apenas. Me refiro àquelas situações malresolvidas em família, entre pais e filhos, entre amigos, entre companheiros de trabalho.
Uma vez fui diretamente atingida por um companheiro de trabalho. Foi algo que me feriu tanto, que precisei de algum tempo para voltar a encará-lo sem hipocrisia, sem rancor. Percebi que cada vez que me encontrava com ele, eu me lembrava do que havia acontecido e ficava com raiva. Na minha cabeça ele continuava sendo aquele falso amigo, o que resultava em mais mágoas no meu coração. Foi assim durante um tempo. Passamos a nos encontrar muito pouco em função de ajuste de horários. E foi bom porque um dia me dei conta de que havia esquecido tudo. Foi quando o encontrei na escada, olhei nos olhos dele e lhe desejei um ‘‘bom-dia’’, espontâneo e de coração. Foi um alívio me livrar daquele peso.
É mesmo impossível tirar da cabeça aquilo (ou aqueles) que a gente ainda guarda no coração. E não significa apenas esquecer, mas apagar. Apagar algo de ruim que aconteceu há tanto tempo, apagar de vez aquela pessoa que prejudicou a sua vida e, principalmente, apagar as frases de baixa estima que tanto te humilharam. Isto me faz lembrar de uma conhecida que, de tão rancorosa, lembra data, local e o que foi dito há décadas, com todas as letras. E que acha muito importante guardar tudo na memória para descarregar o ressentimento no momento que ela julga oportuno. Sabe aquele tipo de gente que ‘‘ressuscita morto’’, tira coisa velha do baú, lembra de situações que não tem a menor importância no atual contexto? Ela é assim. Vai morrer seca de tanta raiva guardada no coração.
Também não vamos apelar. Nem ser hipócritas para afirmar que nos livramos facilmente da tristeza. A gente não tira do coração hoje e apaga da mente amanhã. Só a pessoa mais insensível do mundo consegue tal proeza. E acho que nem ela.
Eu ainda não sei exatamente qual o caminho mais fácil para apagar algo ou alguém que deixou marcas ruins. Mas é fato que desejar o mesmo e ficar esperando uma reviravolta só alimenta o ódio. E isto não é bom para ninguém.
Se serve como consolo, ainda não vi uma pessoa deixar de colher, um dia (mesmo que demore) o imenso mal que ela causou à outra. A justiça cabe a Deus. Não a nós, que fazemos tudo errado.
Quando a gente escuta alguém dizer para você dar a volta por cima, e ignorar as atitudes más de uma pessoa, significa que a arte de triunfar está em começar de novo. E deixar para trás aquilo e aqueles que não nos merecem. É isso aí.

Soja para a saúde

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