Hoje é dia de reverenciarmos os que depois de cumprirem sua jornada terrestre foram chamados para o alto, para o descanso eterno, junto ao Pai, que no final quer todos os Seus filhos juntos a Si, numa comemoração divina de ressurreição e eternidade.
Se elevamos nossas preces a Deus pedindo descanso e paz aos que se despediram, é preciso, em contraponto, meditarmos sobre a mortalidade da carne e sobre a imortalidade da alma. É dia de celebrarmos o dom bendito da vida, pois choramos e veneramos os mortos, mas quase sempre nos esquecemos de honrar e chorar pelos vivos. Nos esquecemos que o depois será reflexo do agora, que o que aqui fazemos será caminho para o que seremos. O homem, em sua falibilidade humana, medroso e despreparado para o desconhecido, tem que buscar no seu dia-a-dia um caminho, que de uma maneira ou outra o prepare para o outro lado, não só através das orações, mas também, e fundamentalmente, através seus atos, como cristão, fazendo de seu irmão, sem distinção de cor ou religião, a razão maior de sua vivência. Porque no final das contas, toda escolha tem sempre uma consequência. E cabe ao homem definir seu caminho, agir de acordo com sua consciência, preparar seu descanso eterno.
Elevamos quase sempre nossas súplicas ao Senhor, pedindo, pedindo, pedindo. Quando deveríamos, diuturnamente, elevarmos nossos obrigados por mais um dia, pelo sol, pela chuva, pela família, amigos e trabalho, pela vitória diária na batalha sem trégua que nos foi imposta pelo próprio homem, que com sua imperfeição consegue fazer, deste mundo maravilhoso, sítios de desolação, de descrença, de guerras, de ódios, de ciúmes, de desavenças. Se uns nascem em berço de ouro, outros numa palhoça, ou na porta de um hospital público sem ter mãos que os recebam; se uns são fisicamente perfeitos, outros imperfeitos; se uns são brancos outros negros; se uns são ricos outros pobres; se uns são belos, outros feios; a morte é, com absoluta certeza, o momento único e supremo do nivelamento do homem. Nada, nem ninguém, ciência alguma, consegue fazer deste ou daquele, mais ou menos. Somos todos mortais, absolutamente iguais, na medida mais justa de Deus, que ao nos chamar de volta junto a Si, o faz sem regalias nem privilégios. É neste momento, na despedida, no adeus, que os homens têm a certeza que são filhos do Eterno, únicos, iguais, irmãos, que responderão por seus atos perante a lei divina, sem simulações, sem soberba, sem engodo, sem advogado de defesa ou de acusação. É ele por por ele, na sua essência.
Num mundo onde o ter está a quilômetros do ser, onde o homem briga, luta, e até mata por bens materiais, por posições sociais, por poder, fazendo com que sentimentos medíocres e profundos fluam à superfície, um minuto que seja de reflexão, sobre nossa improbidade, sobre nossa pequenez, serve, certamente, de catarse. De expurgo.
Criaturas de Deus que somos, filhos do Onipotente, Onipresente e Onisciente, que tudo sabe, tudo vê, mas creio eu, muitas vezes nem tudo compreende, pois a imperfeição do homem chegou a níveis absolutamente grotescos e inumanos, devemos parar por um momento para, através do amor, do respeito, da fé, da meditação, da oração, da compreensão, da gratidão, nos purificar. Sem jamais buscar a perfeição, pois essa prerrogativa é exclusiva do Senhor. Nós, simples mortais, temos que aceitar e tentar superar nossas falhas, os sentimentos mesquinhos que rondam nossas almas, numa luta titânica na busca do direito ao perdão, à humanidade digna e ao descanso eterno.
Quem sabe hoje ao enfrentarmos o próprio eu, possamos nos recompor com nossa essência, santificada, mas conspurcada pela nossa imperfeição terrena. Quem sabe possamos dar a outra face, num ato soberbo e sublime de superação. Ao chorar os que se foram, talvez também seja necessário que choremos por nós mesmos, quem sabe as lágrimas sejam como água benta, purificando e abrindo corações, e ao abri-los, possamos descobrir em nós mundos jamais sonhados, caminhos jamais seguidos, possibilidades jamais tentadas. Somos mortais sim, mas somos filhos do Pai, e essa eternidade respinga em nós, como orvalho abençoado, germinando sentimentos e posicionamentos novos, de acordo com a vontade de Deus, que nada mais deseja senão que sejamos como um espelho, Seu reflexo em carne e osso, respeitando seu irmão como um igual e agindo como Seu filho.
O além vida é a mais terrível de nossas dúvidas, e talvez esteja aí o segredo da vida, pois ao homem pecador, talvez lhe tenha sido deixada a dúvida para que ele possa se penitenciar, se preparar, se fortificar para poder vivenciar o depois santificado. Mas, pobres de nós, imperfeitos e impuros, nos esquecemos das lições e dos princípios que nos foram legados, jamais impostos. Esta é sem dúvida a grande lição de bondade e liberdade do Pai: deixou ao homem o direito de agir em conformidade com sua consciência, com sua moral, com sua humanidade. O Paraíso foi para Adão e Eva, para nós, a Terra, rica, poderosa, maravilhosa, abençoada, farta. Cabe então, às nossas mãos plantar, fertilizar, aguar, e quem sabe brote daí a redenção e a paz que tanto buscamos.
Elevemos nossas orações aos nossos queridos que se foram, que descansam no ninho divino, mas façamos destas orações uma ponte para chegarmos até Ele, como seres vivos que precisam da fé para caminhar a trilha até o endereço final. Acendamos uma vela votiva para os que se foram, mas façamos desta chama uma luminária para nossos passos terrestres, para que, quando nos reencontrarmos, que seja nos céus, e todos juntos possamos brindar com o néctar abençoado, numa celebração sem começo, meio e fim. Para toda a eternidade. Assim seja!

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