Duro de laçar
PUBLICAÇÃO
sábado, 09 de abril de 2005
André Bernardo<br> TV Press 
''As ong's não têm a menor noção do que acontece nos rodeios''
Entrevistar o ator Murilo Benício é tão difícil quanto montar o touro Bandido, o mais temido do Brasil. Guardadas as devidas proporções, os dois são igualmente ariscos. Tímido e reservado, o intérprete de Tião, de ''América'', raramente encara o interlocutor, fala num tom inaudível de voz e não disfarça a pressa em dar por encerrada a entrevista. Não é à toa que Murilo, num raro momento de bom humor e descontração, garante que virou ''amigo de infância'' de seu mais novo colega de trabalho. ''Respeito muito os animais. Sempre que vou montar em um cavalo, faço um carinho antes, deixo ele me cheirar, vou com calma. Com touro, é a mesma coisa. O Bandido já virou um velho conhecido. Dividimos o mesmo camarim'', brinca.
Antes de fazer a novela, Murilo admite que não tinha a menor intimidade com o universo country. O mais longe que chegou foi aprender a montar a cavalo, ainda criança, em seu sítio em Nova Friburgo, região serrana do Rio. Por isso, resolveu passar uma semana na fazenda de Tião Procópio que inspirou o personagem do ator e foi três vezes a Barretos, no interior de São Paulo. Lá, conversou com peões, brincou em touros mecânicos e gravou cenas da novela. Nessas horas, certificava-se, inúmeras vezes, de que o brete da arena estava bem fechado. ''Suava frio só de montar nos touros parados. Deus me livre de montá-los de verdade!'', garante.
Na trama de Glória Perez, Tião sonha em se tornar o melhor peão do Brasil. Apesar de experiente, o rapaz cai do cavalo quando Sol, interpretada por Deborah Secco, resolve trocá-lo pelo sonho de fazer fortuna nos Estados Unidos. Murilo já viveu situação parecida, aos 18 anos. Mesmo sem falar uma palavra em inglês, resolveu que queria ser ator de cinema. Na Califórnia, fez de tudo limpou chão, entregou pizza, foi garçom , menos atuar em cinema. Dois anos depois de participar de uma oficina atores, estreou em ''Fera Ferida'' e não parou mais. ''Apesar das dificuldades, realizei meu sonho de estudar teatro e falar inglês. Hoje, não troco minha carreira no Brasil por nada neste mundo'', assegura.
Ao falar das dificuldades em compor o personagem Tião, o ator confessa o medo que sente ao entrar na arena. ''Sempre que gravo uma cena dessas, os peões ficam rindo de mim. Paciência! Mas eu só imito que estou em cima do touro quando a cena é na arena. Não chega a ser um touro mecânico, mas é como se fosse. Mesmo assim, eles ficam meio inquietos. Alguns chegam a dar chifradas para trás. Você não imagina a adrenalina em que eu fico... Deus me livre de montar neles de verdade...
Murilo revela que não conhecia o universo dos rodeios e ficou impressionado com o que viu em Barretos, com a simplicidade e serenidade dos peões. ''Eles não passam de moleques, são todos muito jovens. Fiquei impressionado também com o amor que eles têm pelos animais. Como toda pessoa desinformada, eu achava que as pessoas maltratassem os bois. Fiquei surpreso ao constatar justamente o contrário. Eu mesmo testemunhei uma discussão entre um tropeiro e um peão, que queria montar no touro dele com uma espora mais pontiaguda que a habitual. Como aquela espora machucaria o animal, o tropeiro não deixou e pediu que ele usasse uma roseta mais grossa''.
Sobre as ong's ligadas à defesa e proteção animal, que pregam que a novela incentiva os maus-tratos a animais, o ator diz que ''essas organizações não têm a menor noção do que acontece nos rodeios. Não imaginam o amor que os peões têm pelos animais que eles montam. Essas denúncias não fazem o menor sentido. Estive lá, ajudei os peões a amarrar os touros. Quando você amarra a cintura do touro, não pega em absolutamente nada. O animal, simplesmente, sente um incômodo e resolve pular. A propósito, não é todo touro que pula. Há touro, por exemplo, que você abre a porteira e... nada. Ele continua parado. Essa é a melhor resposta de que não existe nada machucando o animal.''
Caçula de uma família de quatro irmãos, Murilo Benício resolveu que queria ser ator aos 8 anos, depois de assistir a ''Luzes da Ribalta'', de Charles Chaplin. Até então, o menino sonhava em seguir a profissão de bombeiro, corporação que ele visitou, dois anos antes, com a turma do colégio. Logo, a mãe do rapaz, Berenice, resolveu matricular o filho no Tablado, na Zona Sul do Rio. Durante dois anos, os dois atravessaram a Ponte Rio-Niterói na esperança de o menino vencer a timidez e a gagueira nas aulas de teatro. ''Minha mãe é a minha maior incentivadora. Ela guarda tudo o que sai publicado a meu respeito'', entrega Murilo.
Com oito novelas e sete filmes no currículo, Murilo Benício também já atuou no exterior. O sonho de trabalhar em Hollywood só veio a ser realizado em 2000, quando os produtores da Fox convidaram o ator para contracenar com a atriz espanhola Penélope Cruz na comédia romântica ''Sabor da Paixão'', de Fina Torres, depois de vê-lo em ''Orfeu'', de Cacá Diegues. Ano passado, nova experiência no exterior. Desta vez, na Holanda, onde rodou ''Paid'', de Laurence Lamers. ''Sempre que me chamarem, eu vou. Mas não tenho a pretensão de fazer carreira no exterior. Meu lugar é aqui mesmo'', pondera.
O fascínio de Murilo pelo cinema é antigo. Apaixonado pela Sétima Arte, aponta os filmes ''2001 Uma Odisséia no Espaço'', de Stanley Kubrick, e ''O Poderoso Chefão'', de Francis Ford Coppola, como os seus favoritos. Mas ele mesmo só viria a pisar num set aos 24 anos, quando foi escalado para fazer o Frei Ambrosius em ''O Monge e a Filha do Carrasco'', de Walter Lima Jr. Na época, passou 15 anos dias em um convento em Santa Catarina. No ano seguinte, seguiu caminho parecido para interpretar o pistoleiro Toninho de ''Os Matadores'', de Beto Brant. Durante quatro meses, conversou com diversos assassinos profissionais. ''Mantive um contato estreito e profissional com eles'', ressalva.


