Dupla afinada no sabor
PUBLICAÇÃO
sábado, 17 de setembro de 2005
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Filhos e netos de fazendeiros, os irmãos Eduardo e Luis Fernando Consalter não se imaginaram donos de um negócio próprio, o que dirá de um restaurante que já há alguns anos é referência da boa mesa em Londrina. ''Minha família nunca tinha vendido nada que não fosse produzido nas fazendas'', lembra Eduardo, voltando no tempo que ainda era estudante de agronomia, no final dos anos 1980.
Ele tinha 19 anos quando resolveu largar a faculdade e ir para a Itália ''Buscava aventura'', conta. Escolheu Florença por influência de uma prima, que havia morado na cidade, que é o centro da bela região da Toscana. ''Estranhei no começo, mas me apaixonei em pouco tempo'', explica Eduardo, que logo arrumou um trabalho em um hipódromo. Com os cavalos de corrida, viajou pelo país. ''Descobri um novo mundo'', diz. ''Experimentei muitas coisas que não existiam aqui naquela época'', explica ele sobre os sabores diferentes que provou. Quando Eduardo voltou para o Brasil, foi a vez do irmão mais novo partir para Florença, empolgado com a experiência do mais velho.
Depois de um ano e aí já era o início da década de 90 os dois estavam reunidos novamente, mas com muita vontade de voltar a morar na Itália. A mãe da dupla, é claro, pressentiu esse espírito de aventura nos filhos e resolveu intervir. Ou melhor, investir. ''Soubemos de um restaurante italiano que estava à venda'', lembram os irmãos, que ficaram empolgados com a possibilidade. ''Pouco antes, eu tinha ido para Brasília, onde um primo tinha uma pizzaria. Era pra ficar uma semana, passei três meses'', relata Luis Fernando. ''Já havia uma afinidade'', explica.
O restaurante La Gôndola nasceu em 1982, na Avenida Higienópolis. Por questões contratuais, foi se estabelecer, pouco menos de 10 anos depois, na Avenida Santos Dumont. ''Naquela época era um lugar que ficava longe de tudo'', lembra Eduardo. ''Dava para entender porque não ia bem'', completa. O espírito jovem e uma paixão à primeira vista pelo lugar levaram os irmãos a fechar a compra, mesmo com os problemas pelos quais o restaurante passava.
''Ele (restaurante) estava ruim, mas já tinha um caminho'', justifica Eduardo, que garante ter sido melhor ter comprado um restaurante que já existia do que abrir um outro. Durante um ano, os dois continuaram servindo o mesmo ''cardápio extenso''. Foi em 1993, com a chegada de um outro jovem londrinense que havia passado alguns anos em Londres , que aconteceu a primeira virada. ''O Marcelo Fernandes reduziu o cardápio, mas o que ele deixou pra gente foi a questão de não perdermos a identidade italiana do restaurante'', relatam.
Dupla de fácil convívio, principalmente entre os dois, Eduardo e Luis Fernando souberam dividir as tarefas. ''Foi algo que aconteceu naturalmente'', diz Eduardo, que foi para a cozinha e deixou o trato com os clientes e a administração com o irmão. ''Cada um tem a sua aptidão'', completa. Apesar de estar entre as panelas, ele não se diz um chef de cozinha. ''Não estou nem perto disso''. Como não? ''Para mim um chef é um doutor que entende tudo'', define. Nomenclaturas à parte, Eduardo cozinha mesmo todos os pratos.
Aliás, não só cozinha como também cria os equipamentos que o rodeiam. Em 1997, surgiu uma oportunidade de um estágio na Itália, que acabou não se realizando quando ele lá chegou. Com muita sinceridade, passou por vários restaurantes e pedia para conhecer o funcionamento das cozinhas. Acabou se estabelecendo em Modena. ''Voltei com a fissura de ter tudo igual ao de lá. Vim com tudo fotografado na minha cabeça'', afirma Eduardo, que trouxe também muitas frigideiras na mala. O que acabou se tornando algo recorrente nas viagens dos irmãos.
''Aqui não tinha o que eu vi por lá então mandava fazer'', conta Eduardo, que desenvolveu muitos equipamentos e panelas. Além dos apetrechos, a viagem à Itália trouxe também a idéia das verduras grelhadas. ''Nem em SP faziam isso naquela época'', garante. ''Minha mãe nos criou sem fritura em casa. Nosso hambúrguer era mais feio, mas ela já sabia que era mais saudável'', sorri. Unindo essa lembrança ao que aprendeu na terra dos ancestrais, Eduardo deixou o restaurante livre do cheiro de óleo.
A Avenida Santos Dumont viu o La Gôndola passar por ampliações e viu também outros restaurantes chegando, na cola do sucesso do pioneiro. ''Desde o primeiro dia fizemos reformas'', conta Luis Fernando. De proprietários de um terreno, os irmãos acabaram se tornando donos de três. ''Agora está de bom tamanho'', avisa Luis Fernando. São 2400 mestros quadrados com espaço suficiente para estacionamento, duas adegas climatizadas e um bar, construído em 1998. ''Dá prazer ter algo bonito. Nossa disponibilidade nem é tanto financeira, mas é a vontade de ter algo bonito'', explicam.
Do mesmo jeito que gostam de mudar a decoração, ampliar, reformar, os irmãos também mexem no cardápio constantemente. ''Às vezes é só um acompanhamento'', contam. Mas agora a mudança é mais expressiva. Cerca de seis pratos novos estão sendo lançados nesse final de semana. As receitas que levam peito de pato e costeleta de cardeiro foram inspiradas na última viagem de férias de Eduardo e a família para o Sul do País. ''Conheci um chef português em Bento Gonçalves (RS) que tem um jeito de cozinhar muito parecido com o meu'', conta.
''Na verdade, quem quer só receitas vai na Internet e pega todas. Vou atrás da filosofia'', diz Eduardo, que voltou para o Rio Grande do Sul acompanhado do irmão, que visitou novos fornecedores. ''Há ingredientes interessantes e diferentes por lá'', explicam. Bom, a mãe dos dois, Josina, não deve ter do que reclamar. Só talvez o fato dos filhos trabalharem muito. A carga horária chega às 16 horas diárias. ''Mas revezamos bem isso'', diz Luis Fernando, que passou nove anos sem saber o que era um final de semana livre.


