Doutor laboratório
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sábado, 05 de março de 2016
Karla Matida<br>Reportagem Local 
Nascido em Barcelona, o médico Luiz Parellada Ruiz trocou a Espanha pelo Brasil por uma avaliação errada do pai. "Ele acreditava que a próxima grande guerra na Europa seria nuclear e quis se mudar de lá. Ele errou, não teve a guerra, mas por outro lado foi bom porque tivemos uma boa acolhida", diz.
A mudança do médico, na verdade, não se deu junto com os pais e os dois irmãos mais novos, que atravessaram antes o Atlântico. "Eu estava comprometido com o serviço militar", lembra. Ainda no país natal, Parellada cursou a faculdade de Medicina em Zaragoza, "uma das mais antigas do mundo", conta. Assim como a decisão de mudar de continente, a escolha do curso universitário também foi do pai.
"Ele fez Medicina até o terceiro ano, quando chegaram as cirurgias e ele desistiu. Mas quis que eu fizesse", explica. Mesmo que não tenha sido por vontade própria, tornar-se médico mostrou-se um acerto logo no primeiro ano de faculdade. "Foi quando eu entrei num laboratório e nunca mais saí. Isso foi em 1950", diz Parellada, sócio do Lab Imagem.
Na tradição espanhola, ao contrário dos brasileiros, o sobrenome do pai vem antes do sobrenome materno. Já os três filhos nascidos em terras verde-e-amarelas foram registrados nos costumes locais, assim como os outros sete sobrinhos. "Meu irmão veio criança, então não tem sotaque", avisa Parellada. "O (idioma) espanhol tem cinco sons. Você sabe quantos são em português? São 17", diz, divertindo-se com as variações das vogais.
Mas se não conseguiu se adaptar na fala, a gramática não foi problema. "Escrevo bem em português", garante. Foram cerca de quatro anos de estudos do idioma para poder revalidar o diploma, após a chegada ao País, em 1957. "A primeira parte do teste era português, geografia e história", conta o médico, que acabou optando pelo Recife para dar continuidade ao processo. "Era menos burocrático que em Curitiba" lembra.
"Quando minha família chegou em São Paulo, recomendaram que meu pai viesse para Londrina. Por aqui precisavam de topógrafos como ele", relata. Em um dos hobbies do médico, a profissão do pai pode até ter servido de inspiração. "Na Espanha chamam de recortable, no Brasil não existe uma palavra específica, chamo de recorte e cole", explica Parellada, sobre o hobby de levar edificações icônicas e históricas para o papel. "Tem muito isso nos museus na Europa. Se chegar em Barcelona, vai ser a Sagrada Família para recortar e colar", avisa.
Com habilidade e paciência, o médico transformou a antiga estação ferroviária de Londrina, hoje Museu Histórico, em um desses joguinhos de montar. A perfeição do trabalho ultrapassou o círculo da família e amigos no centenário da imigração japonesa. "Me pediram para fazer o Kasato Maru", lembra Parellada, sobre o navio que trouxe os primeiros japoneses para o Brasil. "O Banco Real, que havia comprado o Banco América do Sul, o banco dos japoneses, fez 10 mil cópias para distribuir", afirma. "Como era um banco que tinha encomendado, cobrei. Mas em geral faço pra quem me pede", avisa. Até o icônico Memorial Ucraniano, no Parque Tingui em Curitiba, já ganhou a versão recorte e cole do médico.
Outro hobby de Parellada que ganhou fama é a gastronomia. "Como fiquei sozinho na Espanha precisei aprender a me virar na cozinha", conta. Há 14 anos, criou os cursos de culinária no Lab Imagem, que acontecem sempre aos sábados às 11 horas. "Comecei fazendo um prato típico, aí outro falou que queria fazer uma receita da família e assim foi", lembra. "O prato espanhol mais conhecido é a paella, mas o prato da Espanha é a tortilla de batatas", ensina. Não por acaso, a receita ilustra a capa do primeiro livro do laboratório, uma compilação de todas as receitas feitas durante o ano. Cada aula costuma atrair entre 30 a 40 pessoas, segundo Parellada. "Quem sabe uma receita gosta de compartilhar."
"Não tenho capacidade para cozinhar para muitas pessoas, não poderia ter um restaurante porque aparece um querendo um prato, outro querendo outro", diz o médico, que levou a precisão e organização do laboratório para a cozinha. "Já fiz paella para 30 pessoas, mas o ideal é cozinhar para umas seis pessoas", contabiliza. "Minha filosofia é que quando se quer algo complicado, vai no restaurante", brinca. "Quando se faz salgados, dá para mudar ingredientes e medidas. Nos doces, isso não pode acontecer. Tem que seguir a receita. Gosto de fazer tanto salgado como doce, mas minha esposa faz um pudim de claras que não tem igual", declara orgulhoso.
O médico, que completa 84 anos no mês que vem, costuma visitar a terra natal todos os anos. "Visito meus primos que ficaram lá", conta Parellada, que não fica apenas na cidade onde nasceu, aproveitando para viajar por todo o país. "Usando uma citação bíblica, a Espanha soube aproveitar a época das vacas gordas e hoje tem os melhores índices", exemplifica. "Como em toda a Europa, os melhores meses para visitar a Espanha são maio e setembro". Uma dica? "A Andaluzia", ensina, citando as cidades de Sevilha, Granada, Córdoba e Malaga. "Tem muita história por lá", garante.


