Fátima Bernardes não se esquece da emoção que sentiu na última Copa do Mundo, no Japão, quando fez uma entrevista exclusiva com os jogadores dentro do ônibus da seleção, logo após a final contra a Alemanha. ''Tive a oportunidade de falar em primeira mão com os pentacampeões'', orgulha-se a editora e apresentadora do Jornal Nacional, da Globo. Também memorável para ela foi a entrevista com o atacante Ronaldo, no dia seguinte à conquista do pentacampeonato. Nesse tipo de matéria, durante as coberturas de grandes eventos esportivos, Fátima se esforça para mostrar o lado mais simples, o dia-a-dia, as fragilidades e as inseguranças dos ídolos do esporte.
É justamente essa visão incomum do cotidiano dos craques que a jornalista pretende novamente revelar em sua terceira cobertura de Copa do Mundo. Com embarque marcado para o próximo dia 30 para a Alemanha, essa vascaína fanática, que completa 40 anos no final deste ano, assume que sua paixão por futebol acaba influenciando em cada reportagem sobre o assunto. ''Sofro como uma condenada a cada jogo. Essa emoção, principalmente quando temos vitórias do Brasil, acaba fazendo com que a cobertura fique mais saborosa'', acredita a jornalista carioca.
Eleita musa pelos jogadores na última Copa, Fátima diz que está preparada para uma jornada legal de trabalho. ''Acho que vai ser satisfatório se for igual à última vez, quando pude fazer muitas reportagens depois de um longo período em que fiquei distante das ruas. Fico no estúdio direto. Quando vou fazer uma reportagem, pareço um trem pegando o embalo. Vou engrenando, engrenando, e as coisas saem cada vez mais facilmente. Estou preparada para estar na batalha de novo e isso me deixa muito feliz.
Dramática mesmo, para ela, é a etapa de preparar as malas. ''Fico muito ansiosa pela partida. Esse é o momento mais difícil para uma mãe. É mais complicado do que estar lá, pois na Alemanha já vou ter várias questões do dia-a-dia para resolver no trabalho, mudar muito de cidade, de hotel... Esse estágio anterior, de preparação de mala e separação das coisas, é difícil porque meus filhos estão com oito anos e já sabem que 40 e poucos dias é muito tempo. Sofro por mim e por eles''.
Depois de cobrir duas Copas, Fátima reconhece que agora está mais tranquila com o evento. ''Mas preciso ver como funciona essa seleção a cada dia. Na última Copa, a cobertura foi elogiadíssima porque todos os dias algum jogador nos dava entrevistas. Nós mantínhamos um contato permanente e eu assistia aos treinos sem impedimentos. Isso não costuma acontecer com outras seleções. O (correspondente) Marcos Uchôa, que mora na Inglaterra e cobre os times adversários, diz que os jornalistas ficam abismados quando ele confirma que na Seleção Brasileira todos dão entrevistas. Também já sei a rotina que vou ter em dia de jogo, os flashes durante o dia para a programação e que preciso assistir ao jogo e separar uma reportagem sobre isso. Na outra Copa, eu participava da mesa-redonda que o Galvão Bueno comandava. Também tenho de apresentar o Jornal Nacional. É tanta coisa... mas dá, porque eu já consegui fazer. Agora, têm coisas que ficam mais práticas, como saber que é melhor não levar muita bagagem além do uniforme''.
Na última Copa, Fátima se hospedou no mesmo hotel dos jogadores, o que facilitou nas matérias de bastidores. Desta vez, ela fica num hotel separado, mas isso não deve influenciar muito na cobertura. ''Estávamos no mesmo hotel, mas fui também a todos os treinos, a todos os jogos. Em alguns momentos dessa Copa vamos poder estar mais próximos. Em outros, eles vão estar em castelos e isso deve realmente dificultar a aproximação. Mas isso não impede que eu esteja diariamente com eles. Vou estar onde eles estiverem, como uma sombra (risos). É claro que, principalmente na Coréia, pelo fato de estar no mesmo hotel, foi bom para o primeiro contato. Eles cruzavam comigo o tempo todo''.
Agora, um problema, com certeza, é driblar o fuso, já que o Jornal Nacional, quando for ao ar no Brasil, será mais de uma hora da manhã na Alemanha. ''Esse pode ser um empecilho. Eu fiz uma Copa durante o dia, onde as pessoas circulavam. Agora vou realmente fazer uma Copa de madrugada. Esse é o grande diferencial. Isso vai fazer com que a gente planeje tudo o que vai ser gravado durante o dia para ficar quente ainda no horário do jornal. Essa é a maior mudança, porque acho que eles estarão dormindo (risos). Mas vamos ter de encontrar um jeito de fazer diferente''.
E a dificuldade de dividir a bancada com o Bonner, de fora do estúdio, nesses eventos internacionais? ''É muito bom perceber que cada um pode estar num lugar do planeta e o jornal continua sendo o mesmo. A força desse veículo me impressiona muito. Com isso, vemos o quanto é versátil, como podemos fazer coisas diferentes apresentando o mesmo jornal. A gente se renova e dividimos muito essa responsabilidade. Sempre que um dos dois está fora, são edições muito especiais para nós. Cada um vive uma experiência completamente diferente do outro, mas para fazer o mesmo jornal''.
Combinar entre si antes da apresentação, truques que costumam utilizar, atraso de tempo na transmissão... a jornalista garante que o casal não tem um segredo muito eficaz. ''Para não aparecer o 'delay', contamos quatro segundos numa frase de traz para a frente e começamos a falar. Por exemplo: se ele fala 'Boa noite, Fátima, como estão as coisas na Alemanha?' Na hora em que ele diz o 'boa', já começo a falar. Assim não aparece o buraco de tempo entre nós''. O que ela ainda não sabe é o diferencial que pretende imprimir nessa cobertura. ''As minhas pautas visam sempre mostrar que esses jogadores tão idolatrados e cheios de responsabilidade, que têm um compromisso tão grande com o país inteiro, são criaturas comuns. Tento mostrar alguns aspectos dessas pessoas que sofrem tanta pressão. As perguntas acabam indo por um caminho que não é sobre o futebol do dia-a-dia, porque temos uma equipe no esporte que faz isso diariamente. O legal é isso! Como a gente poderia imaginar que o Ronaldo iria fazer aquele cabelo de Cascão daquela vez? Quando eu o vi, a pauta já estava ali (risos). O que vai rolar eu não sei, mas busco sempre uma visão feminina, mostrar pessoas que estão vivendo um período único, mágico, que elas lutaram muito para estar ali''.
Quanto a representar o universo feminino, o olhar de uma mulher nessa cobertura, Fátima acha legal, mas não é só isso. ''O que senti de mais bacana na última Copa é que as mulheres me diziam que era possível entender de futebol, que não era tão complicado assim. Achei maravilhoso elas me dizerem que gostavam e curtiam assistir aos comentários depois dos jogos quando eu debatia. Em geral, as mulheres costumam abrir mão disso. Elas adoram ver o jogo, torcem à beça, são apaixonadas pela seleção. Mas depois dos jogos, apenas os maridos costumam assistir aos debates. Teve muito o efeito surpresa porque as pessoas não imaginavam que eu gostava de falar disso. O mais legal é saber que o público feminino se sente representado. Nesse momento, as mulheres que são obrigadas a ver futebol porque o marido adora, que tem a peladinha sagrada do marido uma vez por semana, se harmonizam. Muita gente me dizia 'eu concordava com as suas opiniões e entendia o que você queria dizer'. Isso é muito gratificante''.
O preço da fama Fátima Bernardes convive com um dilema diário. Apesar da notícia sempre ter de se destacar à frente do jornalista, a apresentadora costuma estar tão em evidência quanto a protagonista da novela das oito do momento. A primeira vez que se surpreendeu com a popularidade foi quando teve de dar seu primeiro autógrafo. Foi no início de sua carreira na Globo do Rio de Janeiro, como repórter no jornal local, em 1987. Na ocasião, Fátima jura que chegou a levar um susto. ''Lembro até hoje de uma moça com uma criança. Eu dizia que não era artista, mas ela insistia que tinha me visto na tevê'', recorda.
Mesmo assim, Fátima garante que lida muito bem com o assédio. Há oito anos na bancada do jornal das 8, a jornalista ainda enfrenta algumas saias justas e precisa policiar suas atitudes sempre que está em público. ''O fato de ser a apresentadora do Jornal Nacional também tem desconfortos. Não posso dar uma bronca num filho no meio da rua'', exemplifica, com um acelerado gestual.
Mãe dos trigêmeos Vinícius, Laura e Beatriz, de 8 anos, a jornalista ressalta que também aproveita sua superexposição para dar exemplos aos filhos, principalmente em relação à carreira. Apesar da pouca idade do trio, ela costuma conversar com os filhos sobre a importância de se ter uma relação de harmonia com o trabalho. ''A todo momento digo que gosto muito do que faço e que vou passar 40 dias fora trabalhando na profissão que eu escolhi. Isso é muito saudável'', pondera.

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