Simone Mattos
De Curitiba
No dia em que a Primavera de 1911 chegou, nasceu em Curitiba Flora Camargo - que mais tarde iria acrescentar Munhoz da Rocha em seu sobrenome. O nome foi escolhido propositadamente para homenagear as flores.
Hoje, a casa onde nasceu, passou a infância, noivou, se casou e teve o primeiro filho, é patrimônio tombado. Vizinho, do outro lado da rua, no oitavo andar de um edifício, Flora mora sozinha, realizando um dos últimos desejos de seu marido, o ex-governador do Paraná, Bento Munhoz da Rocha. ‘‘Um dia ele chegou me dizendo que tinha comprado esse apartamento, para que eu pudesse voltar às minhas raízes quando ele se fosse’’, conta.
Mais de 88 anos depois daquela Primavera, ela olha para trás sem saudosismo e com muita disposição para viver o futuro. Fala com orgulho da família imensa que construiu – cinco filhos, 14 netos e 23 bisnetos – e dos 43 anos de amor e respeito que compartilhou com o marido, seu único namorado.
Outro orgulho de Flora é a atuante vida literária, que já a encheu de prêmios e satisfações. Depois de 12 livros publicados, ela teve a emoção de ver recentemente uma de suas obras, ‘‘O Armazém de Seu Frederico’’, lançado em braile, pelo Centro de Informática para Deficientes Visuais Professor Hermann Gorgen. ‘‘Isso me comoveu muito’’, confessa.
Acompanhe trechos da entrevista que Flora concedeu à Folha Gente:
Qual é a sensação de abrir a janela todos os dias e ver a casa onde nasceu, noivou, casou e viveu tantos momentos importantes?
Agora eu já consegui me desligar. Acho que o passado é o passado. O que estou vivendo agora é uma outra vida, totalmente diferente, e que eu devo me esforçar muito para que seja boa também.
Em seu livro de memórias ‘‘Entre Sem Bater’’, a senhora conta que já recebeu em casa personalidades como Getúlio Vargas e Jânio Quadros. Havia alguma preocupação especial nestas ocasiões?
Não. Lembro-me quando falei para o meu marido: ‘‘eu vou tratar muito bem o Getúlio porque ele estará na nossa casa, mas não vou fazer rapapé para ele não’’... Eu não ia fazer cerimônia nenhuma... Lembro de uma coisa engraçada que aconteceu neste dia: quando chegou na hora do jantar a empregada de casa ficou nervosa e falou que não ia servir o Presidente da República e foi embora, sumiu. Uma de minhas filhas acabou se vestindo de empregada e foi nos servir... Outra coisa que lembro é de que o Getúlio sempre carregava uma pessoa para provar a comida antes dele. Eu achava aquilo uma indelicadeza muito grande. Achavam que eu ia envenenar o presidente?
Qual é hoje a sua rotina diária?
O meu dia-a-dia é simples. Acordo cedo, leio o jornal, tomo café, dou uma ajeitada na casa, tomo banho e já vou me arrumar para sair. Faço questão de sair todos os dias, porque acho que velho que fica no come e dorme deve tomar cuidado. (risos). Eu saio sempre para almoçar fora e acho isso muito bom, porque me obriga a me arrumar e a sair todos os dias.
E a literatura? Ainda há tempo para a literatura?
Eu tenho escrito uma porção de crônicas, mas acho que outro livro não sai. Talvez eu escreva outra história para o ‘‘Você Decide’’ (programa semanal da Rede Globo que já levou ao ar um episódio cuja história era de autoria de Flora), pois eles vivem me pedindo e eu nunca faço.
Qual é a herança que a senhora quer deixar para os seus descendentes?
Eu tenho uma preocupação muito grande de a cada dia estar melhorando, ser mais generosa, mais solidária. Acho que só o que a gente pode deixar é uma boa imagem.
Tendo sido mulher de governador, filha e nora de presidentes do Estado, a senhora nunca quis que um de seus descendentes seguisse a carreira política?
Meu sobrinho, filho do meu irmão, é o deputado federal Affonso Camargo Neto, que já foi senador e ministro, e o meu irmão (Paulo Camargo) sempre foi deputado estadual. São os únicos dois políticos na família. Entre os meus filhos, netos e bisnetos, felizmente, ninguém quis seguir essa carreira. Eu digo isso porque detesto, odeio a política. Ela sempre foi a minha grande rival, que sempre roubou as horas que eram minhas. E depois, na política há sempre muita injustiça, fofoca, coisas que magoam a gente. Eu não quero que nenhum dos meus netos seja político. Às vezes eles dizem brincando que vão se candidatar e eu respondo: ‘‘nem pensar’’.

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