Até o início do ano, Mel Lisboa era apenas mais uma dessas adolescentes que não sabem o que fazer da vida. Na dúvida, prestou vestibular para o curso de Cinema na Universidade Federal Fluminense, no Rio de Janeiro. Mas ainda não era bem isso que acelerava o coração desta bela gaúcha de olhos verdes e sorriso maroto. Um dia recebeu um telefonema que prometia. O produtor de elenco da Globo, Luís Antônio Rocha, convidou a moça para um teste para a minissérie ‘‘Presença de Anita’’, de Manoel Carlos. Os dois não se falavam há três anos, desde que a menina gravava comerciais para a tevê. Assim que desligou o telefone, teve a certeza de que só se sentiria realizada se seguisse a carreira artística. ‘‘Naquela hora, nada me excitava tanto quanto a idéia de ser atriz. Minha mãe me disse para agarrar o teste com todas as forças. Foi o que fiz’’, sorri, enigmática.
A menos de duas semanas para a estréia de ‘‘Presença de Anita’’, Mel não demonstrava qualquer nervosismo. Nem mesmo o fato de estrear na tevê justamente no papel de protagonista parece tirar o sono da atriz. ‘‘Ando dormindo igual a uma pedra. Nem eu mesma esperava que fosse ficar tão tranquila assim’’, espanta-se. Ela só fica pouco à vontade quando tenta decifrar a personalidade aparentemente indecifrável de Anita. Aos 19 anos, Mel vai interpretar uma ninfeta de 15 que vive uma paixão avassaladora com um homem 30 anos mais velho, o arquiteto Fernando, vivido por José Mayer. Para a atriz, Anita não é sonsa ou leviana. É apenas ‘‘naturalmente sedutora’’. ‘‘Anita é mais do que uma protagonista. É uma personagem complexa e maravilhosa. Tive a sorte de estrear na tevê com um trabalho deste nível’’, elogia.
Na verdade, Mel tinha apenas dois aninhos quando apareceu na tevê pela primeira vez num comercial de gelatina. ‘‘As pessoas me acharam tão bonitinha que me convidaram para outros trabalhos’’, recorda, encabulada. Aos 8 anos, foi encorajada pela mãe, a astróloga Cláudia Lisboa, a fazer um curso de teatro na Casa de Cultura Laura Alvim, no Rio. Cinco anos depois, arriscou o primeiro teste para a tevê. Mas perdeu o papel da cigana Ianca, de ‘‘Explode Coração’’, para Leandra Leal. ‘‘Estou ciente da responsabilidade que tenho pela frente. Mas não me assusto. Sempre fui uma menina muito responsável’’, garante, com uma pontinha de saliência.
Apesar de já ter 19 anos, Mel Lisboa aparenta bem menos. Foi este, aliás, um dos motivos que levaram o autor Manoel Carlos e o diretor Ricardo Waddington a se decidirem por ela. Os dois precisavam de uma atriz maior de idade para fazer as cenas ‘‘calientes’’ com o ator José Mayer sem criar alvoroço com o Juizado de Menores. Com a segurança de uma veterana, a nova Lolita da Globo não se diz preocupada com as sequências de sexo e nudez por confiar plenamente no diretor Ricardo Waddington. ‘‘Desde o início, ele me preveniu que eu teria cenas picantes. Mas preveniu também que tais cenas seriam feitas com bom gosto, sem apelação ou vulgaridade’’, frisa.
A única exigência que Ricardo fez foi que a estreante se livrasse dos quatro piercings que usava na sobrancelha, no nariz, na língua e no umbigo. ‘‘Ele achou que eu ia ficar heavy metal demais no vídeo. Tirei com dó no coração’’, confessa. O mesmo não aconteceu com as quatro tatuagens que decoram o corpo da atriz. Em vez de escondê-las, o diretor achou melhor exibi-las nas cenas de nudez com o objetivo de ressaltar o jeitão independente da personagem. Mel possui uma tatuagem tribal na região lombar, uma abelha no pescoço, três estrelas atrás da orelha e uma fada na virilha. ‘‘Acho lindo tatuagem’’, explica.
A primeira delas foi feita aos 13 anos, com a devida autorização da mãe. Embora tenha nascido no Rio Grande do Sul, Mel já mora no Rio de Janeiro desde criança. Atualmente, ela divide um espaçoso apartamento no bairro de Laranjeiras, na Zona Sul do Rio, com a mãe e a irmã Luna, quatro anos mais velha. O nome das meninas evidencia uma inegável simpatia da mãe pelo movimento hippie. ‘‘Minha mãe não foi exatamente uma hippie, mas tinha bastante afinidade com o movimento paz e amor’’, brinca a atriz, com uma doçura que faz jus ao próprio nome.

Escrito nas estrelas

A disputa pelo papel de Anita foi um dos mais acirrados dos últimos tempos. Até encontrar a atriz dos sonhos para protagonizar a minissérie ‘‘Presença de Anita’’, o autor Manoel Carlos e o diretor Ricardo Waddington fizeram testes com mais de 200 candidatas de sete diferentes estados, como Rio, Minas Gerais, Curitiba e Espírito Santos, entre outros. Entre as candidatas ao papel, algumas já famosas, como Gabriela Duarte, Samara Felippo e até Júlia Almeida, filha do autor. ‘‘O que pesou na escolha da Mel foi o fato de ela não ser conhecida. Isso vai dar mais credibilidade à personagem’’, acredita Ricardo Waddington.
Antes de ser aprovada para a minissérie, Mel Lisboa passou por quatro baterias de testes, a última delas com o ator José Mayer, com quem vai protagonizar tórridas cenas de sexo. Apesar de confiante no sucesso da empreitada, a atriz não deixou de ‘‘consultar os astros’’. Assim que chegou em casa, pediu que a mãe, lesse as cartas de tarô e predissesse o futuro. Afinal, a experiência da moça se resumia a peças amadoras e comerciais de tevê. ‘‘Minha mãe é a minha grande guru. Sempre a consulto em tudo que faço. Ela me disse que, neste caso, tudo estava conspirando a meu favor’’, recorda, cheia de si.




Mel Lisboa é estudante do Curso de Cinema na Universidade Federal Fluminense, em Niterói. No entanto, ela se viu obrigada a trancar a matrícula por causa do ritmo intenso das gravações.
• A minissérie ainda não estreou e Mel já foi convidada pela revista ‘‘Trip’’ para fazer um ensaio em poses sensuais. Por recomendação do diretor Ricardo Waddington, Mel declinou do convite.
• Nas horas vagas, Mel Lisboa gosta de dançar forró e frequentar centros culturais. Dos grandes diretores, ela destaca o espanhol Luís Bunuel, o inglês Stanley Kubrick e o sueco Ingmar Bergman.
• Mel Lisboa não se considera paranóica quando o assunto é beleza. Para manter os 52 quilos, a atriz de 1,65 m de altura caminha na Lagoa Rodrigo de Freitas, na Zona Sul do Rio, e pratica acrobacia de solo.
• Desde que começou a gravar ‘‘Presença de Anita’’, Mel ainda não arranjou tempo para ler o livro que deu origem à minissérie. O autor Mário Donato morreu em 1992, sem conseguir se livrar do estigma de escritor maldito.
• O autor Manoel Carlos ficou tão impressionado quando viu o teste de Mel Lisboa que telefonou para o diretor Ricardo Waddington pedindo para suspender a seleção. Em seguida, pediu mais dois ou três testes para ter certeza de que Mel Lisboa era a atriz mais indicada para interpretar Anita.

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